28 de maio de 2009

Elas Também lêem

Elas também lêem

* Gilmar Luis Silva Junior


Um par de botas brancas sufocava os joelhos. De quando em vez, o pé direito se prostrava diante do esquerdo. As coxas amorenadas, com círculos arroxeados dispersos, eram-lhe o chamariz. A cabeça baixa lia o Diário Gaúcho, o mais barato pasquim em circulação por aqueles dias.

Clientes em potencial passavam ao largo. Ela não os olhava. Nem tampouco dizia, num português simplório: “Vamu?”. As amigas de faina andavam em espaços pequenos, com longas passadelas, cabelos em revolução. Puxavam os homens passadiços sem critério de escolha. Bastava usar sapatos.

Um senhor de meia idade vinha sôfrego. Parecia sofrer de asma. Andava dois metros, recostava-se a uma parede, tirou um cigarro. E fumou. Tossiu a cada tragada. Olhou em volta, os casarões pintados de rosa, de azul e de verde. As cores de todos eles estavam desbotadas. Assim como os critérios de nossas cortesãs modernas.

Uma loira sem os molares jogou uma franja espessa e seca diante dos olhos. O artifício sempre funcionava. O velho passou adiante. Continuou a tossir. Ela emburrou. Não pelo desprezo, mas por vinte reais que cambaleavam num bolso asmático.

O velho se deteve na meretriz do jornal. As botas eram compridas como as outras. As pernas marcadas de bituca de cigarro. O batom vermelho dos lábios era uma flor com pétalas descaídas e decadentes. Num átimo, meteu-lhe a mão no traseiro rombudo.

Ela levantou os olhos do jornal. Ele sorriu, descortinou dentes de gema de ovo. Ela dobrou o jornal, pô-lo debaixo do sovaco, sorriu. Pegou a mão do velhote. Subiram uma escada suja, com tocos de cigarro e embalagens de preservativos. Uma tênue lâmpada teima em se balançar no corredor. Tudo era silêncio entrecortado por risadas e sussurros. As portas dos quartos pareciam furadas à bala.

Trancou a porta com um solavanco. O velho atirou-se na cama, um colchão que jorrou pó. Abriu a calça, um membro flácido foi posto à mostra pelas mãos enrugadas. Com a mão direita, chamava a heroína.

Ela jogou o jornal atrás de si. As folhas do periódico caíam-lhe nas costas em lentidão. Ela baixou a pequena saia e mostrou pêlos pubianos delicadamente aparados. Com isso, fez chispas saírem dos olhos do velho. O membro dele, no entanto, não emitia sinal.

O velho a agarrou. Ela sorriu, fechou ou olhos. Ele pôs a mão esquerda sobre a cabeça. Ela ia se aconchegando no peito dele, quando a mão senil lhe forçava para baixo. O velho almejava uma felação.

Ela deixou-se levar pela mão em petição. Suspendeu a respiração ofegante. Queria carinho. Ganhou vulgaridade. Antes de abocanhar o membro flácido, olhou para trás. Viu as páginas do jornal em desalinho. A manchete “Incêndio mata crianças em Uruguaiana” deu-lhe ímpeto. Sorveu o pênis do velho. Com os olhos fechados. E com tristeza infinita no coração. Pobres crianças, jamais mereceriam um destino tão cruel.

* Gilmar, nasceu em São Vicente, em 29 de dezembro de 1979. Aos 15 anos, mudou - se para Porto Alegre (RS), onde estudou na Escola Técnica da UFRGS. Em 1999, iniciou a faculdade de Jornalismo na UFRGS, impelido por conselhos de amigos, que diziam ser a carreira na qual ele poderia expor seu talento para a escrita. O destino tratou de botar-lhe em outra linguagem, a fotografia. No entanto, o amor pela língua jamais esmoreceu. Terminado o curso de Jornalismo, em 2006 prestou novo vestibular na UFRGS, agora para Letras. O curso o maravilhou e continua até agora.
Escreve poesia desde os 13 anos. Naquela época, um tanto caótica. Hoje, busca teorizar o fazer literário, através dos conhecimentos obtidos no curso de Letras, sem, no entanto, deixar a inspiração.


"A rua continua sendo o colírio para os olhos e o húmus para minha criação literária." - Gilmar Luis Silva Junior

- Gilmar é um dos 15 autores da II Coletânea Scriptus - A Livre Escrita

6 comentários:

Anônimo disse...

Estimado Gilmar, salve, salve seu escrever! Fico muito, mas muito feliz mesmo em saber de tal notícias; era apenas uma questão de tempo! Já fui seu professor e faz algum tempo que estou sendo seu fã. Agora,quero ser o prpfessor-fã! Sucessos, meu caro amigo.

Abraços,

Walter Karwatzki.

Paulo Franken disse...

É com imensa felicidade que descubro em meu colega de fotojornalismo este poeta do cotidiano!!!
Siga em frente meu amigo.
Abrsss.

Paulo R. Diesel disse...

Prever sucesso para a coletanea é chover no mohado.
Vê se por este capitulo

Cristina da Rocha disse...

Meu caro e talentoso colega, meu querido amigo... Já tinha elogiado teus contos. Estou muito empolgada e torcendo por um livro de contos só teu.

Muitos beijos! Cada vez mais sucesso!

Anônimo disse...

Meu querido Gilmar, fico tão emocionada, que nem tenho palavras pra te dizer o quando admiro você.

você merece tudo isso e muito mais.

beijus e muito sucesso

obs:não perco por nada esse lançamento
Susebizu

Rosane disse...

Gente, que orgulho deste meu colega nas manhãs gélidas do Campus do Vale!

Talvez ele não se recorde, mas eu havia lido esse texto e me impressionado com a qualidade do que tinha em minhas mãos!

Parabéns, Gilmar!