24 de agosto de 2009

Sapatinhos de lã - Conto de autoria de David Nobrega

Todos os dias ela era vista sentada na mesma mesa do restaurante da empresa onde eu trabalhava aquela época. Todos os dias, durante seu intervalo de almoço, de uma hora como todos nós, ela comia rapidamente para poder fazer o que aparentemente era o que mais gostava na vida: tricotar pares e mais pares de sapatinhos de lã.Nunca conversei diretamente com ela, mas acompanhei, a minha maneira, sua gravidez. A cada refeição, um comprimido para não enjoar. Depois, comida leve e rápida. E finalmente, seus sapatinhos de lã.
Por meio de outros, fiquei sabendo sua história, nem triste nem feliz. Somente uma história vulgar como de tantas mães por este país.
Segundo me contaram, o pai da criança era um antigo namorado, que após saber que seria pai sumiu de sua vida. Por sorte a mãe a acolhera e agora viviam a duas em uma casa simples mas confortável no bairro operário da cidade.
Somente uma vez, depois da insistência de companheiros de mesa tão intrigados quanto eu, tive coragem de me aproximar e mesmo assim a única coisa que consegui foi ter a certeza de sua fixação pelos tais sapatinhos. Na sacola, em meio a agulhas e novelos pude contar nada mais nada menos que uns 10 pares em cores diferentes. Claro que essa é uma contagem superficial, pois o tempo em que permaneci parado a seu lado, vendo-a trabalhar, nem ao menos levantou ela a cabeça para ver o que se passava ao redor, absorta que estava em pontos incompreensíveis para mim. Sendo assim, não pude confirmar quantidades ou os motivos que a levaram a ser tão prestimosa com uma única peça do enxoval do bebe.
Lá por março do ano seguinte eu saí de férias e quando voltei ela não estava lá. Pelo volume de seu ventre antes de minha saída, com certeza ela havia já parido seu tão esperado filho.
Quem me inteirou das novidades foi a Odete, secretária do chefe.
Estávamos fazendo uma pausa para o café, quando ela entra chorando, perguntando se alguém já saberia das novidades. Como ninguém se manifestou, ela nos disse que a moça dos sapatinhos de lã havia tido um filho, que nascera grande e forte. Perguntou se algum de nós havia notado que ela sempre tomava um remédio antes das refeições. Eu disse que sim.Olhando para mim, ela arregalou os olhos e perguntou se eu conhecia um remédio que davam para as mães, para enjoo e que se chamava talidomida. Respondi que já ouvira falar, mas parecia que esse remédio havia sido proibido."Proibido sim, mas se acha em boticas ainda"- disse ela. "Ela comprava e tomava, pois diziam que era seguro. O seu filhinho nasceu sem as perninhas, por causa desses desgraçados! E agora? Quem paga por isso?"
Nunca mais a vimos na fábrica. Nem ao menos soubemos de nada de sua vida. Mas mesmo hoje, vendo minha esposa tricotando para nossos netos, me vem a cabeça essa pobre moça, que tanto empenho tinha em produzir peças de enxoval que nunca poderiam ser usadas por seu filho, vítima da imprudência de poucos que a tantos afetaram.

* David Nóbrega é autor e Editor dessa Editora. Esse conto faz parte de seu livro Uns & Outros.



4 comentários:

J S Pereira disse...

Belo conto,

A dita talidomida é do meu tempo. Quer dizer, do tempo de minha mãe. Me lembro de um colega de escola, dois anos mais velho que eu. Tinha uma deformidade na mão direita - faltava-lhe um ou dois dedos, não me recordo. Sua mãe utilizou o remédio por volta de 1960, por indicação médica, já que tinha muito enjôos.

E, que eu saiba, nunca nem médico e nem laboratório pagaram por isso.

Abraços

Chica disse...

Que triste história essa.Ver a imprudência que existia naquela época com a talidomida e hoje, até com quem procura clínicas de fertilização, é triste e revoltante. Muito bem escrita e contado teu texto!Um abraço,tudo de bom,chica

Rosemari disse...

DAvid

Lindo conto , embora triste.
A imprudência causa consequências graves na vida das pessoas. Que bom seria se todo mundo pensasse antes de agir.

Rose

Paulo R. Diesel disse...

Triste e real. O sofrimento está presente no nosso dia a dia.