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16 de agosto de 2009

Papel avulso - Poesia de autoria de Gilmar Luís Silva Júnior

PAPEL AVULSO - 12.07.2009

* Gilmar Luís Silva Júnior

Veio a lume o amante, dotado de ímpar enlevo,
Sorrindo, sob o céu nem sempre clemente
Macularam-no os versos, deitando-os por rasteiro
Eis que se guarnecera de lágrimas e ranger de dentes


Falou-me, numa prosápia jamais abjurante,
Que, na tessitura de versos ligeiros, alcançaria
Ao amor apartado que lhe roubara a alforria
E lhe legara a alma ao desterro vagante:


"Hei de enfeixar tanta tortura
Num emborcado papel avulso
A ferida da vida concede seu préstito
A quem vê mel no fel de tanta amargura


A louçania do peito inflado de paixão
Torna-se bela quando pálida de morte
A ferida imberbe que se alastra sem senão
Dá-lhe feitio de tão trágica sorte"

* Autor da II Coletânea Scriptus - A Livre Escrita que será lançada em Outubro.




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28 de maio de 2009

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* Gilmar Luis Silva Junior


Um par de botas brancas sufocava os joelhos. De quando em vez, o pé direito se prostrava diante do esquerdo. As coxas amorenadas, com círculos arroxeados dispersos, eram-lhe o chamariz. A cabeça baixa lia o Diário Gaúcho, o mais barato pasquim em circulação por aqueles dias.

Clientes em potencial passavam ao largo. Ela não os olhava. Nem tampouco dizia, num português simplório: “Vamu?”. As amigas de faina andavam em espaços pequenos, com longas passadelas, cabelos em revolução. Puxavam os homens passadiços sem critério de escolha. Bastava usar sapatos.

Um senhor de meia idade vinha sôfrego. Parecia sofrer de asma. Andava dois metros, recostava-se a uma parede, tirou um cigarro. E fumou. Tossiu a cada tragada. Olhou em volta, os casarões pintados de rosa, de azul e de verde. As cores de todos eles estavam desbotadas. Assim como os critérios de nossas cortesãs modernas.

Uma loira sem os molares jogou uma franja espessa e seca diante dos olhos. O artifício sempre funcionava. O velho passou adiante. Continuou a tossir. Ela emburrou. Não pelo desprezo, mas por vinte reais que cambaleavam num bolso asmático.

O velho se deteve na meretriz do jornal. As botas eram compridas como as outras. As pernas marcadas de bituca de cigarro. O batom vermelho dos lábios era uma flor com pétalas descaídas e decadentes. Num átimo, meteu-lhe a mão no traseiro rombudo.

Ela levantou os olhos do jornal. Ele sorriu, descortinou dentes de gema de ovo. Ela dobrou o jornal, pô-lo debaixo do sovaco, sorriu. Pegou a mão do velhote. Subiram uma escada suja, com tocos de cigarro e embalagens de preservativos. Uma tênue lâmpada teima em se balançar no corredor. Tudo era silêncio entrecortado por risadas e sussurros. As portas dos quartos pareciam furadas à bala.

Trancou a porta com um solavanco. O velho atirou-se na cama, um colchão que jorrou pó. Abriu a calça, um membro flácido foi posto à mostra pelas mãos enrugadas. Com a mão direita, chamava a heroína.

Ela jogou o jornal atrás de si. As folhas do periódico caíam-lhe nas costas em lentidão. Ela baixou a pequena saia e mostrou pêlos pubianos delicadamente aparados. Com isso, fez chispas saírem dos olhos do velho. O membro dele, no entanto, não emitia sinal.

O velho a agarrou. Ela sorriu, fechou ou olhos. Ele pôs a mão esquerda sobre a cabeça. Ela ia se aconchegando no peito dele, quando a mão senil lhe forçava para baixo. O velho almejava uma felação.

Ela deixou-se levar pela mão em petição. Suspendeu a respiração ofegante. Queria carinho. Ganhou vulgaridade. Antes de abocanhar o membro flácido, olhou para trás. Viu as páginas do jornal em desalinho. A manchete “Incêndio mata crianças em Uruguaiana” deu-lhe ímpeto. Sorveu o pênis do velho. Com os olhos fechados. E com tristeza infinita no coração. Pobres crianças, jamais mereceriam um destino tão cruel.

* Gilmar, nasceu em São Vicente, em 29 de dezembro de 1979. Aos 15 anos, mudou - se para Porto Alegre (RS), onde estudou na Escola Técnica da UFRGS. Em 1999, iniciou a faculdade de Jornalismo na UFRGS, impelido por conselhos de amigos, que diziam ser a carreira na qual ele poderia expor seu talento para a escrita. O destino tratou de botar-lhe em outra linguagem, a fotografia. No entanto, o amor pela língua jamais esmoreceu. Terminado o curso de Jornalismo, em 2006 prestou novo vestibular na UFRGS, agora para Letras. O curso o maravilhou e continua até agora.
Escreve poesia desde os 13 anos. Naquela época, um tanto caótica. Hoje, busca teorizar o fazer literário, através dos conhecimentos obtidos no curso de Letras, sem, no entanto, deixar a inspiração.


"A rua continua sendo o colírio para os olhos e o húmus para minha criação literária." - Gilmar Luis Silva Junior

- Gilmar é um dos 15 autores da II Coletânea Scriptus - A Livre Escrita