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18 de abril de 2011

Muita areia pro meu caminhão - By Drika Sanchez

Muita areia pro meu caminhão

*Drika Sanchez


Uma das minhas promessas de 2009 era que todo mês eu me daria um presente. Seja uma bijouteria de 1,99 ou 4 livros de uma vez, como foi este mês de abril. Comprei 2 livros de Clarice, um de Veríssimo e um de Martha Medeiros.

Hoje, lendo Doidas e Santas, de Martha Medeiros (L&PM Editores) tive várias inspirações. No entanto, uma delas me fez levantar do meu quarto para postar. Trata-se da crônica "O Cartão".

Nela, conta-se uma situação em que Martha teria recebido um cartão romântico daquele moço que nunca, nem em cinco gerações evolutivas, olharia para ela. Desconfiada, ligou para todas as amigas reclamando do trote, e sim, todas negaram. Ela passou tempos imaginando quem teria feito aquele trote de mau gosto com seu coraçãozinho derretido. E claro, tempos depois, o moço inalcançável a encontrou pela rua e perguntou se ela havia recebido o cartão. Constrangida por não ter acreditado nessa hipótese improvável de receber algo romantico daquele "sonho de consumo", ela simplesmente respondeu: "Que cartão?" E assim ele mandou um "Deixa pra lá" e nada aconteceu.

Lembrei exatamente que já senti isso diversas vezes. Para que alimentar ilusões com aquele rapaz? Muita areia para meu caminhãozinho bambo. Lembrei de um grande amor que tive aos 17 anos. Sim, ele era lindo. Mais do que lindo, ele era perfeito. Tudo que sonhei e imaginei que um ser humano masculino bípede poderia ser. Rafael era o meu inalcançável. Mas esperem aí... ele estava olhando pra mim? Não, mentira. Ele nunca olharia para mim, a não ser se estivesse vestida de vaquinha do Toddy num show promocional. Mas sim, ele estava. E ficou comigo. E chegou em casa dizendo para a mãe que tinha conhecido uma menina linda e inteligente. E eu achando que sabia fingir para ser boa o bastante para ele.

Toda vez que saíamos, eu tinha a nítida impressão que todas as meninas pensavam e diziam entre si: "O que aquele "deus" estava fazendo com aquela gordinha? Aí me sentia triste. Depois me sentia orgulhosa. Depois sentia pena dele por namorar comigo. Ele merecia alguém a altura. Fiquei paranóica. Se ele dissesse que iria na padaria, era por certo que iria me trair. Qualquer caixa de padaria era mais bonita e atraente que eu. Por certo, aquela moça da locadora combinava mais com ele. E minha auto estima foi-se esvaindo...

Cansado dessa doença, ele terminou comigo. Uma semana depois da nossa "primeira vez". Aliás, nossa não, da minha. Eu nem queria, mas ele era tão bonito, e as outras poderiam querer... E cedi. E me arrependi. E chorei. E ele se cansou. Estava certo, eu era insuportavelmente feia para ele. Concordei com a decisão. E ele me aconselhou um sanatório. Com aquele cabelo lindo e aquela voz mole. Ai ai...

O fato é que não existe inalcançáveis. Criamos personagens e fazemos deles a história que queremos. Rafael era chato pacas, falava errado, discordava com tudo e só dizia que mulher dele não iria trabalhar. Ninguém suportava ele, e ao contrário do que minha imaginação ouvia, os comentários das meninas era "como Cafeína aguenta esse mala?". Eu criei Rafael e fiz dele toneladas de areia. Eu olhei para o espelho, e fiz do meu caminhão, um fusca sem motor.

Hoje vejo as fotos daquela época e fixando nos meu olhos vejo a angustia que eu sentia. Eu não entendia porque o mundo todo não o amava como eu o amava. E não entendia porque o mundo inteiro não o achava tão perfeito quanto eu o achava. E passei meses tentando provar ao mundo todo que eu estava certa. Até que o mundo me provou que o erro estava no meu espelho e não no peso do baldinho de areia dele. Não existe alguém melhor ou pior para ninguém. Existe química, existe amor, existe sexo, existe amizade... o resto é perfumaria.

* Bacharel em direito e escritora. Escreve nos blogs www.bebendo.com.br e http://drikasanchez.blogspot.com twitter: http://twitter.com/drikasanchez_



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18 de agosto de 2010

A pergunta de cabeceira - By Tatiana Cavalcanti

A pergunta de cabeceira.

*Tatiana Cavalcanti


A pergunta de cabeceira:
Porque? Porque que a vida é tão incerta e cheia de razão?
Porque mesmo quando a gente quer que a maré nade pra norte ela insisti em usar sua força absoluta e nadar para o sul?

Às vezes eu acho que se eu soubesse quem governa esse enredo todo aqui, eu ia lá dizer umas boas verdades na cara dele. Centralizador, mandão.
Cala boca já morreu, quem manda na minha boca sou eu.
Então porque eu não posso mandar no meu destino? E porque eu não controlo tudo que me incomoda tipo coco entalado no intestino delgado? Se eu não mando nem no meu intestino como é que eu quero mandar na minha vida? Mandar existe? E amor sem mágoa existe? Mágoa sem amor não, né?

Buscar explicação me dá azia. Mas eu não importo, eu prefiro a azia do que o tédio de não questionar e virar uma imbecil por honoris causa. Talvez isso seja o motivo da minha angústia infinita, dessa busca que beira o monótono apesar da intensidade, dessa minha chatice peculiar que faz o mundo cinza só porque eu detesto cor de rosa.
Eu sempre me sinto sozinha nas questões que não merecem ser perguntadas por que a gente sabe da falta de resposta. E eu só sei lidar com a minha falta, com a minha ausência, e essa semana, quando ele me chamou de egoísta pela terceira vez, eu decidi que não queria ser mais nada além de egoísta. Eu e as questões para serem vividas, para tentar entender, não conseguir nunca e seguir vivendo mesmo assim. É isso e pronto. O tal do livre arbítrio vale até a página da dedicatória só. Pelo menos nos livros que eu leio.

Minha pergunta de cabeceira martela. Eu tento enfrentar as noites de insônia com alguma quietude. Mas a tarefa é árdua. Eu sou leonina, eu sou mandona, eu sou centralizadora, eu não sei não controlar.
Só que a consciência sempre toca a campainha e me lembra que algumas coisas simplesmente são da maneira como são e ninguém perguntou se a gente quer que seja assim.
É tudo culpa do destino. Ou do cara que manda nele.
E a gente tem que se conformar com nossa secundária participação: dar um pouco de movimento para essa coisa incrível que é viver e ser vivido sem mandar em porra nenhuma.


* Tatiana Cavalcanti é autora da Novitas e vai publicar o livro: Caóticos de uma mulher crônica.
Escreve regularmente no site www.taticavalcanti.com.br


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28 de julho de 2010

( À)tona - By Monica Saraiva

(À)tona

*Monica Saraiva


Mas era eu,
Que por não ser mais criança
Não podia ter caído nessa brincadeira
Nesse jogo de mau gosto
De te fantasiar ser o oposto
Da mesmice corriqueira.

Hoje guardo de herança
A solitária idealização
Dos milhares de euteamos repetidos em vão,
No meu pé, o teu beijo
Dessa máscara de desejo,
Desejo de um só endereço,
Menor, bem menor que mereço
Muito menos que eu tinha pra dar.

Vai querer me negar?
Quer dizer que um dia chegou a me amar?
Que num estalar se transforma o amor em erro
E fazes dele o enterro
Sem sequer me convidar?

Faz um favor:
Recolhe cada uma das cenas de teatro mal-feito
Engole cada um dos versos baratos
Apaga aquelas letras escritas sem pudor.
Todos os atos
Registrados de um jeito
Que cicatrizaram embaixo do cobertor.

Não sei de onde veio essa autoridade
De usar da inverdade
Pra despertar a boba menina
Se fazendo de bom rapaz.
Não, não fala mais!
Nem canta ao meu ouvido em nenhum idioma
Recompõe, ou melhor, desafina
Pra que eu não consiga traduzir
E possa, enfim, dividir
O que todo esse tempo foi soma.

Aproveita e me livra da cela
Eu não caibo em abertura de novela
E esquece Cazuza e Bebel
Pois não precisas dizer mais nada
Fica assim, onde estás
No lugar de onde nunca saiu
No teu posto, de onde nunca permitiu
A minha oferta de céu,
Minha porta escancarada...

Devolve o meu cheiro, viu?
E vê se leva o teu que esqueceste aqui
É que eu preciso dormir!

Esquece meu rosto,
Meus olhos,
Meus sinais.
Deixa-me livrar do teu gosto
Dos teus olhos,
E de tudo mais.

Enfrento cada meia-noite
Como se a última fosse
São madrugadas de açoite, de rio a correr
É claro que eu sei perder!
Mas é que o sabor doce
Esse, que vinha de um ser
– que hoje eu sei -
Não era você
Ainda faz lembrar feito canção
A tela que eu desejei
O amor que nela pintei
Desperdiçado, largado no chão
Em completo desprezo, desdém
Por alguém que eu criei,
Que nunca existiu, mais ninguém.

A propósito, a saber,
Desprazer em (re)conhecer.



*Monica Saraiva é estudante de Serviço Social e Pedagogia,
trabalha com Participação Popular e vive tentando arrancar
a poesia que acredita existir em tudo o que vê e sente. Mantém
o blog: www.blogdamoni.blogspot.com e é colaboradora
do blog: www.poemacurta-metragem.blogspot.com



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20 de julho de 2010

Motivos para odiar uma Mariazinha - By Flávia Queiroz

Motivos para odiar uma Mariazinha
* Flávia Queiroz


Mariazinhas... Desde pequena as encontro por aí: aliciantes e astutas. Tem a perversa mania de aparecer na hora errada. Falam com leveza e simpatia, são espertas, às vezes bonitas e sempre odiosas.
Pois é, admito que sou daquelas pessoas passionais e suscetíveis. Tudo me tange. Leonina, ciumenta e passional. Uma junção explosiva.
Não gosto de quase nada. Mas tenho a terrível necessidade de me sentir amada por tudo o que desperta meu querer.
Aí elas aparecem: as Mariazinhas. Muitas se chamam Joana, Natália, Juliana ou sei lá mais o quê... Mas todas são Mariazinhas!
Aquele tipo de garota que compete sem anunciar batalha (as piores!). Ligam no celular dele quando a gente tá discutindo relação ou fazendo as pazes, esbarram "por acaso" e começam papos intermináveis dos quais não faço nem ideia. Mandam recados carinhosos e dúbios. Me enlouquecem e ainda são vítimas.
É provável que eu também já tenha sido uma Mariazinha na vida de alguma Flávia por aí. Mariazinhas são inimigos disfarçados em pele de pêssego e com olhos brilhantes. Tem voz suave, e pelo menos por um instante, balançam o coração do cara que a gente gosta.
Pois é, a culpa é sempre delas! Afinal, “ele” é só uma peça... Nunca faria por mal... O cara de quem se gosta é sempre o príncipe encantado, mesmo que caia do cavalo branco enquanto cavalga ou que não tenha um reino.
Ele me ama! Mesmo que olhe pra alguma maldita Mariazinha por aí, ou fale com ela do jeito que eu gostaria que falasse comigo. Ele é perfeito e cheio de imperfeições (mas isso é outra história, talvez com o título de "Joãozinho").


*Vinte e três anos de acidez e romantismo. Viciada em finais felizes e avessa ao sentido literal das coisas. Publicitária por formação e quase-escritora por vocação. A caneta é a extensão da minha personalidade e as palavras desenhadas são meu auto retrato.
@flahqueiroz
http://www.relicariovazio.blogspot.com/
http://www.confrariadostrouxas.blogspot.com/
http://www.papoderomeuejulieta.blogspot.com/

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16 de julho de 2010

Eu digo, e você? - By Ana Mello

Eu digo, e você?

*Ana Mello

Digo sempre “Eu te amo”.
Para meu marido, meu filho, meus pais, minha sobrinha. Sempre fui carinhosa com minha família, o que é recíproco. Quando telefono para meu pai ele não deixa de dizer o quanto ficou feliz e como sou querida e amada. E não é da boca para fora, é de verdade, de coração. Meu guri costuma dar um beijo de boa-noite acompanhado muitas vezes de “Mãe, eu te amo muito”. Com o pai dele é igual. Muitas vezes estou no trabalho e ligo para saber como ele está se foi bem na prova, ele termina a conversa com um bom beijo e um “Eu te amo”.
Uma dessas nossas conversas despertou a curiosidade dos meus amigos e a minha também. Começamos um estudo para saber quem dizia “Eu te amo”, para quem, e o que achava disso. Muito interessante, pois várias pessoas têm dificuldade para dizer que amam. Até para os maridos ou namorados, muito mais para os pais.
Outros consideram “Eu te amo” muito importante para estar usando toda hora. Como se amor gastasse ou pudesse correr o risco de se tornar banal.
Acho que é mais fácil a gente se arrepender por não ter confessado um sentimento do que pelo atrevimento de fazê-lo. Eu digo sempre o que sinto hoje, posso não ter a oportunidade de dizer amanhã. Causa constrangimento para algumas pessoas, mas também essas pessoas nem sabem abraçar ou beijar.
Aqui no Rio Grande do Sul, mesmo com fama de machistas, os homens abraçam e beijam seus pais, irmãos, tios. Claro que tem também os que criam seus filhos proibindo-os até de chorar, pois acreditam que homem não chora.
Na semana passada, fui até a escola do meu filho, conversar com a orientadora educacional. Ele está bem, tira notas boas, mas é muito folgado. Poderia usar melhor o potencial que tem. E não é muito incentivado na escola. Porque as escolas são como as famílias, preocupam-se com quem tem algum problema. Quem é quieto e faz a sua parte, passa despercebido. Não concordo com isso. Assim seremos um país onde mais ou menos está bom. Devemos melhorar sempre. Nada de estresse ou cobranças, mas incentivo.
O que isso tem a ver com “Eu te amo”? Perguntei para ele se sabia por que eu estava indo conversar com a professora dele. Ele disse:
_ Mãe, tu não vai fazer meus professores ficarem pegando no meu pé. Brincadeira, eu sei que vocês, tu e o pai, me amam, por isso têm interesse por mim.
É isso mesmo, “Eu te amo” tem muitas formas, além das palavras.

“O homem não morre quando deixa de viver, mas quando deixa de amar”. (Chaplin)


*Escrevo porque tenho mais para dizer do que consigo falar, estudei química e matemática e trabalho na área técnica. Dissolvo-me em palavras pela rede em blogs, e-books e colunas. Em papel, estou no livro MINICONTANDO.Nas janelas dos ônibus e nos trens de Porto Alegre viajo em forma de poesia.
Colunista em:
SORTIMENTOS.NET , DIÁRIO DE CACHOEIRINHA (aos sábados) , ARTISTAS GAÚCHOS.
Editora da revista VEREDAS



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26 de maio de 2010

Por que mesmo? - By Tatiana Cavalcanti

Por que mesmo?


*Tatiana Cavalcanti


Eu podia ter dito mil coisas que cabiam perfeitamente naquele contexto. Que ele era de uma segurança inexplicável e que, cada vez que ele virava de lado na cama eu só me sentia mais segura. Que o jeito tosco dele colocar algumas coisas, me faziam rir de tão sem noção, mas que mesmo nas horas toscas o que mais importava era que eu ria feliz e leve. E cabia arriscar dizer que eu confiava nele de um jeito assustador. Porque ele parecia que dava a mão para eu pular a poça sem molhar o vestido novo. E eu parecia flutuar num salto pequeno, mas certo. Que toda vez que ele me dizia uma asneira qualquer eu queria dividir com o mundo a falta de responsabilidade das asneiras que dão conta de deixar a realidade mais branda.

Eu podia ter falado que eu era louca por aquele momento, que eu morria de ciúme dele, que eu ficava com medo ele descobrir como eu era mau humorada e chata. E possessiva. E cri cri, e chorona. Talvez ele até me dissesse coisas incríveis. E eu contaria que, na TPM, meu Deus. Era sempre melhor ficar longe de mim.

Eu podia ter colocado uma música para registrar, ou fechado os olhos com menos pressa. Ou ter feito tudo exatamente como eu fiz. Sem mudar nada. Pouco importava. Tudo era só a gente e nada além daquilo podia virar novela.

Eu podia ter fingido um pouco para ele não me achar maluca. Nem que fosse só fechando a boca porque isso já ajudaria bastante. E eu devia ter confidenciado que meu avô me beijava na testa. E que ele era o maior amor da minha vida. E que, portanto ele me fazia lembrar da metade de
mim que não está mais aqui. Logo, ele me tocava de uma maneira que beirava o transcendental. Eu não ouvia barulho quando ele me abraçava. Depois eu também queria ter dito que um dia, tudo que a gente falava ia ser verdade, porque a nossa verdade a gente é que faz. E nossa lei
também, não importa quanto tempo passe.

Enfim. Eu tinha muitas coisas para dizer. Só que humaninha. Covarde. Bundona. Cheia de mil coisas de gentinha imatura e sem culhão. Calei e deixe passar. Passa, cura, esquece, vai adiante e sem olhar para trás. Admitir, admitir, admitir. Admitir é o que grande parte das pessoas não
faz.

E eu não disse nada do que queria porque fiquei pensando exatamente nisso: porque mesmo a gente não pode admitir?

* Escritora da Novitas . Vai lançar o livro "Caóticos de uma mulher crônica".
Site da autora: www.taticavalcanti.com.br


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