26 de agosto de 2011
O crânio e o vinho - By André Victtor
24 de agosto de 2010
A arte de perder - By Álisson da Hora
*Álisson da Hora
A arte de perder não é nenhum mistério;
tantas coisas contêm em si o acidente
de perdê-las, que perder não é nada sério.
Elizabeth Bishop
Aqui deitado olho o resto de dormência dela, sono suspirado em que eu poderia imaginar um monte de loucuras, um monte de cogitações, mas não. Só fica a certeza de que é a última vez, de que um silêncio talvez reinará como se fosse uma vitória dos clichês, da mesmice, quando na verdade é apenas mais uma face do desencontro e da tortura que nos espreita a cada momento em que vivemos. Aqui deitado busco a sua sombra deitada na parede, também, com o rosto sabe-se lá onde e o pensamento sabe-se em que lá paragens. A repetição de tantas coisas em pouco tempo me faz crer que o tempo o espaço a vida por vezes fica uma coisa meio travada, engasgada, teimosa em se perpetuar em situações estranhas deflagradoras de tonturas e equívocos. Mãos trementes que reconhecem que os chistes e as pragas lançadas em volta de mesas repletas de garrafas e tranquilizantes, a doce nostalgia de jovens que estão envelhecendo, a melancolia de uma tarde de idades que vão se apagando e que vão reconhecendo as tardes que já se foram, que se fecham como livros queridos, mas que martelam os corações e não os reabrimos tocados por uma estranha prudência. Que diz: acabou.
Acabou. Essa estranha prudência deitada em uma tarde que se alongou madrugada adentro, apagada como almas tocadas por álcool e tranquilizantes - assustada como espíritos arrojados do alto de céus sem nuvens e que tristemente acabam acalentadas em mãos dormentes -, é inútil. A repetição visita minha mente, minha sombra dependurada na parede não mostra meu rosto, o tempo e o espaço vivem a brincar com meus pensamentos que pareço ver a se debaterem no chão, teimosos, engasgados, travados: um quadro da minha vida. Um bar eternizado, uma conversa sustentada por milênios como gotas d’água de uma tortura chinesa, cada segundo de perda, de dano. Abandono. A aparição do silêncio agora reina enquanto lá fora um mundo de tolices de promiscuidades talvez nos afaste de vez. Não sei por onde o seu pensamento caminhará depois de hoje. Livros queridos não me servirão de cobertor, não desfrutarei de vitória alguma. As portas vão se fechar, nenhuma música mais riscar o meu caminho e deixar marcas. É assim. E eu fico aqui, sentindo o suspiro derretido dele sobre mim. Grave recordação deitada por sobre minha sombra, pelas minhas sombras. E eu aqui ficarei. Para quando as portas se fecharem. Ficarei com o olho no chão. Eu. Aqui. Deitada.
*CAC - UFPE - PG LETRAS
http://pontispopuli.blogspot.com
18 de agosto de 2010
A pergunta de cabeceira - By Tatiana Cavalcanti
A pergunta de cabeceira:
Porque? Porque que a vida é tão incerta e cheia de razão?
Porque mesmo quando a gente quer que a maré nade pra norte ela insisti em usar sua força absoluta e nadar para o sul?
Às vezes eu acho que se eu soubesse quem governa esse enredo todo aqui, eu ia lá dizer umas boas verdades na cara dele. Centralizador, mandão.
Cala boca já morreu, quem manda na minha boca sou eu.
Então porque eu não posso mandar no meu destino? E porque eu não controlo tudo que me incomoda tipo coco entalado no intestino delgado? Se eu não mando nem no meu intestino como é que eu quero mandar na minha vida? Mandar existe? E amor sem mágoa existe? Mágoa sem amor não, né?
Buscar explicação me dá azia. Mas eu não importo, eu prefiro a azia do que o tédio de não questionar e virar uma imbecil por honoris causa. Talvez isso seja o motivo da minha angústia infinita, dessa busca que beira o monótono apesar da intensidade, dessa minha chatice peculiar que faz o mundo cinza só porque eu detesto cor de rosa.
Eu sempre me sinto sozinha nas questões que não merecem ser perguntadas por que a gente sabe da falta de resposta. E eu só sei lidar com a minha falta, com a minha ausência, e essa semana, quando ele me chamou de egoísta pela terceira vez, eu decidi que não queria ser mais nada além de egoísta. Eu e as questões para serem vividas, para tentar entender, não conseguir nunca e seguir vivendo mesmo assim. É isso e pronto. O tal do livre arbítrio vale até a página da dedicatória só. Pelo menos nos livros que eu leio.
Minha pergunta de cabeceira martela. Eu tento enfrentar as noites de insônia com alguma quietude. Mas a tarefa é árdua. Eu sou leonina, eu sou mandona, eu sou centralizadora, eu não sei não controlar.
Só que a consciência sempre toca a campainha e me lembra que algumas coisas simplesmente são da maneira como são e ninguém perguntou se a gente quer que seja assim.
É tudo culpa do destino. Ou do cara que manda nele.
E a gente tem que se conformar com nossa secundária participação: dar um pouco de movimento para essa coisa incrível que é viver e ser vivido sem mandar em porra nenhuma.
Escreve regularmente no site www.taticavalcanti.com.br
12 de agosto de 2010
O adeus em uma folha " qualquer" - By Ricardo Carvalho
*Ricardo Carvalho
Em meio a um tumulto cotidiano que lhes era indiferente naquele momento, quatro pequenas folhas preparavam-se para um ritual de partida, veriam a mais antiga e sábia das suas chegar ao seu último outono. Viam-se na estranheza de saber que deviam se despedir, já que aquele era o momento aonde todas chegavam à igualdade – pois até a mais frondosa rosa, um dia também secaria. Era a última das ironias da vida e, para muitos, a mais dura e cruel. Mas a folha, já murcha pelo tempo, olha para as suas companheiras e lhes fala docemente: minhas queridas amigas, não se entristeçam com minha partida iminente. Já sobrevivi a grandes vendavais, mas agarrar-se a arvore para sempre é um dos mistérios do tempo que para sempre nos será desconhecido eu imagino, e devemos respeitas estes desígnios, pois o que nos é dado já é muito – caso soubermos usufruir desse tanto que é o viver cada ruga do tempo – não será uma simples partida. Quero apenas que no momento em que eu me desprender da árvore desta vida, e for adubar a terra, o ar amorteça minha queda e as gotas da garoa ágüem a nova vida a qual levei toda minha existência para ser-lhe. Quiçá desta folha bem vivida nasça um carvalho ou uma flor do campo, e fique para a posteridade algo mais que uma folha seca.
Logo, a folha anciã já aproveitava uma brisa para fazer sua última dança presa a árvore, e em um balanço suave que, contagiando as três – até então – entristecidas amigas, iniciam uma ciranda no mesmo ritmo, em louvor aquela existência. Mas tão logo o ritual chegue próximo do fim, com a força do vento que aumentava, a envelhecida folha se solta do entrelaçado de galhos que se fez sua vida, e afasta-se lentamente das verdes amigas – e do tronco da vida. E as três a vêem continuar sua derradeira dança em uma queda suave, até que, levemente, ela toca o solo que a esperava com um gentil abraço.
As verdes folhas que ficaram vendo o partir da amiga, nada dizem, o silêncio tornou-se o seu canto de despedida, mas em seus pensamentos desejavam tal exemplo. Que quando o tempo de cada uma delas naquela enorme árvore se encerrasse, viajariam bailando ao toque do vento – deixando rastros de alegria e sabedoria – que serviriam de alimento às futuras vidas. Em outro tempo. Em um novo viver.
1 de agosto de 2010
Voraz - By André Salviano
*André Salviano
Toca de tatu, lingüiça e paio, boi zebú
Rabada com angú, rabo de saia
Naco de perú, lombo de porco com tutu
E bolo de fubá, barriga d´água
Aldir Blanc, João Bosco e Paulo Emílio
Eu queria comer tanto, mas sem engasgar, eu queria comer demais. Vivia com fome, muita fome, a terapeuta dizia que os amores light’s me fariam bem Você precisa se alimentar melhor, ela dizia. E eu querendo carne sangrando, batata frita, feijão carregado de carne salgada, pernil bem temperado: alecrim, folha de louro, pimenta do reino, limão, cominho etc. Lombo de porco com tutu, torresminho, rabada com agrião. O que acontece com essas meninas de hoje? A maioria só quer saber de fast-food, eu ficava puto!
Naquela noite eu tinha bebido muito, alucinado desci a rua da Lapa, chegando na Mem de Sá olhei pra lua: cheia, linda. Eu vazio, um trapo. Uma menina de olhos verdes se aproximou, mas pra mim eram azuis, ela disse verdes duas vezes, eu continuava vendo azuis. Cigana? Talvez quisesse me enganar, dinheiro, levar pra cama. Paramos um tempo na esquina com a Gomes Freire, duas cervejas, dois Sampoerna de menta, uma piada, dois sorrisos sem graça. Subimos até a Riachuelo, entramos no Sinuca da Lapa. Cerveja de garrafa. Porra, eu com tanta fome. No dia seguinte, por volta do meio-dia, notei que minha vida precisava mudar. Outros caminhos, andanças outras.
Mandei um foda-se pra minha terapeuta, que se dignou a dizer Você precisa de bons modos, menino! Mas eu preciso mesmo é de Amor. Com A maiúsculo, e que não me deixe morrer de fome, e que não me sacie apenas numa noite, ou duas.
Eu quero um banquete. Cansei de migalhas.
*Iguaçuano de coração, carioca por vocação. Flamenguista frequentador de Maraca, gosta do pôr-do-sol no Arpoador, de cerveja na Lapa e de Literatura na veia. Dublê de escritor, e amante da alma feminina, ensina literatura nas horas vagas. Toma iogurte de graviola sempre que pode e adora chupar manga. Laranjeiras satisfeito sorriu quando chegou ali.
Escreve todas as terças no blog http://confrariadostrouxas.blogspot.com/
26 de julho de 2010
Deus e o Diabo - By David Nobrega
Conto que faz parte do próximo livro do autor David Nobrega. Para visualizar em tela cheia, |clique aqui|.
Estava em meu botequim costumeiro, tomando minha cerveja gelada e olhando a vida passar pelas portas corrediças e enferrujadas do estabelecimento. Um vai-e-vem de gente nessas horas aqui no Centro, é coisa normal. Todos apressados para chegar em suas casas, cumprindo a rotina escravizante de cada dia. O sonho do banho quente, do chinelo largo sobre a meia furada, a comida requentada, a roupa de mendigo chique que tantos de nós desfilamos entre quatro paredes.
De vez em quando um conhecido atravessa a porta e me cumprimenta. Um entre tantos habitués do lugar. Passam por mim com um aceno de cabeça, isso quando não esticam as mãos suadas e encardidas de trabalho realizado. Uma intimidade intrometida.
Conforme a noite cai o movimento diminui e os passos apressados tornam-se lentos, dando-me tempo maior para melhor avaliar os passantes. Uma gordinha com a barriga de fora e o medonho piercing no umbigo. Um quase corcunda catador de lata faz a festa no lixo do bar, sem saber que o João, dono do negócio, separa as latas para que ele possa colhê-las, fazer a venda e ali voltar para um trago, gastando o dinheiro arrecadado nas ruas. Estudantes fazendo fila no ponto de ônibus logo ali à frente, a caminho de alguma faculdade ou supletivo noturno, buscando nos lápis e cadernos uma vida melhor.
Lá pelas tantas cervejas um tipo desconhecido entrou no botequim. Chapéu preto lhe cobriam os olhos e um longo sobretudo, também preto, lhe tirava os contornos do corpo. Seus pés, logo notei, pareciam cascos de bode e quando passou por mim senti mesmo um certo cheiro de enxofre que dele se desprendia. Seguindo-o com o canto dos olhos, vi que caminhou até os fundos do bar, onde estão as mesas de bilhar, olhou ao redor e, parecendo não encontrar ali o alguém que buscava, voltou para a frente, onde eu estava sentado. Bateu com as mãos finas e compridas no balcão, pediu um conhaque e puxou a cadeira de frente à minha, perguntando se me importava que ele me fizesse companhia até quando um seu parceiro chegasse, como combinado. Respondi que não, com um aceno de ombros.
-- Pois então, Maurício. Como anda a vida? -- Me perguntou, como se me conhecesse.
-- Vou bem, vou bem... E o senhor... Como devo chamá-lo?
Afastando um tanto o chapéu preto pra o topo da cabeça, me deixando ver seus olhos vermelhos como brasa, respondeu:
-- Ora, Maurício! Achei que tivesses me reconhecido. Sou o Diabo! Vês? -- Erguendo mais um pouco o chapéu pude ver duas pequenas saliências à guisa de chifres, logo acima da linha de seus cabelos oleosos. -- É verdade que nunca antes nos encontramos pessoalmente, mas achei que pudesses ter notado...
-- Desculpe -- lhe respondi, com certa vergonha -- Até notei certas coisas estranhas em sua pessoa, mas não acredito em diabos, demônios e afins. Deves estar me confundido com algum seu conhecido. Do circo talvez?
-- Circo? Mas que disparate! Sou o Senhor das Trevas e da Escuridão! Deverias me temer! -- O aumento do cheiro de enxofre no ambiente estava ficando insuportável. Pareceu-me que meu interlocutor tivesse algum problema intestinal. Dizem que todo mundo tem um ponto sensível ao stress, e o desse camarada com certeza eram os intestinos...
-- Ok, ok. Não vamos nos desentender, não é? Afinal, acabamos de nos conhecer e começamos com o pé errado. Se queres que te chame de Diabo, Cão, Lúcifer ou seja lá quem quiseres, é só dizer. Mas por favor, controle esses gases. Os clientes vão acabar achando que os ovos coloridos que o João serve estão estragados.
-- Por Mim! Não entendes, ó imbecil, que tenho o poder do Mal a meu favor e que basta um estalar de dedos para que te mande ao Inferno! Mas deixa estar, que esta noite tenho mais coisas a me preocupar do que um reles descrente.-- Dito assim, virou de um só gole o conhaque que restava no copo e esticando o dedo imenso para o alto pediu ao João para que o servisse de mais uma talagada.
De meu lado, estava filosofando botequinescamente, tentando imaginar como poderia uma pessoa ficar louca de pedra ao ponto de se achar o próprio demo. Como os médicos dizem que é melhor nunca contrariar, tentei mais uma vez entabular conversa com o estranho:
-- Pois então, Diabo. Que o traz a esta parte do mundo em uma noite tão bonita como esta? Por acaso alguma alma fugidia, talvez?
-- Não -- disse-me ele -- Marquei com Deus aqui hoje. Seu mundo está indo tão mal que precisamos encontrar uma solução. O ser humano tem conseguido fazer mais maldades do que eu mesmo. Ou nós damos um basta nisso, eliminando vocês todos e começando de novo, ou daqui a pouco vocês explodem o Planeta. E aí, onde é que nós faríamos a guerra santa entre o Bem e o Mal, não é verdade?
-- Ahhhh, entendi... Deus vem aqui hoje também? -- perguntei, fingindo perplexidade.
-- Vem, vem sim. Deus adora um bilhar. E por falar no Diabo...quero dizer, em Deus, olha ele ali, estacionando. Metido a besta...
Uma reluzente Ferrari vermelha tentava enfiar-se em uma vaga que nem mesmo um fusca caberia. Até acreditei que fosse Deus quem estava ao volante, pois realmente tendo em vista o quanto o ser humano estava no caminho errado, o motorista teria que ser muito ruim. Depois de várias manobras e alguns empurrões nos carros que ali estavam, amassando frente e traseira da pobre Ferrari, Deus -- ou seja lá o nome que o recém chegado assumisse -- desligou o motor, descendo com um sorriso satisfeito, como se tivesse feito um bom trabalho. Viu o Diabo sentado em minha mesa e acenou, saltando a água que corria pelo meio-fio e vindo em nossa direção. Deus, o onipresente, onisciente, oni qualquer coisa, chega em seu carrão, um cara presença, vestido como John Travolta em "Embalos de Sábado a Noite".
-- Bel, quanto tempo! Olá Maurício, prazer em te ver. Você tem sido uma boa pessoa, mas por favor, pare de bolinar dona Carol. Muito feio isso.
"Esses caras devem ser de alguma agência do Governo. espiões. Como a gente lê nos jornais, vez por outra. E a dona Carol é viúva, porra. Que mal tem em dar umazinha de vez em quando?" -- Assim pensava eu enquanto via os dois se cumprimentarem como velhos amigos. Deveriam realmente se conhecer há muito tempo ...
-- Certo, aqui estamos. Vamos discutir nossas questões enquanto jogamos um bilharzinho valendo a bebida? -- Perguntou Deus ao Diabo -- Maurício, se não te importares, gostaria que tu te mantivesses conosco. É sempre bom ter testemunhas ao se fazer tratos com o Diabo -- disse, com um sorriso maroto.
-- Ele não pode testemunhar por ti, God. É um descrente. Ele não crê em Mim. Duvido que creia em Ti também.
Eu, na realidade, estava começando a me divertir com a situação. Dois malucos, aparentemente com dinheiro para bancar uma cervejas a mais. Eu podia aguentar isso, logo:
-- Vejam bem: em minha situação de ateu -- desculpa ai Deus, mas não devo mentir, não é? --, eu sou a melhor testemunha que vocês poderiam achar. Sou isento e imparcial. Fico no meu canto, só ouvindo e bebericando uma gelada, enquanto vocês discutem os segredos do Universo, amém?
Rindo, os dois concordaram comigo. Pedi para ir na frente, pois o fedor de enxofre do Diabo, somado ao excesso de perfume barato que Deus usava estava me dando enjoos. Abri um cadeira de metal que o João costumava deixar ali, puxei uma caixa de bebidas vazia a guisa de mesa e pedi uma cerveja. Deus aproveitou e pediu uma água tônica -- agora eu sabia porque Deus era tido como mal-humorado: ele não bebia -- e o Diabo mais um conhaque, onde pediu umas gotas de limão, para evitar a gripe, segundo ele.
Colocaram uma ficha, arrumaram as bolas e no par ou ímpar, a saída foi do Diabo:
-- Escuta God, antes de mais nada é bom que tu saibas que essas desgraças todas que tu tens visto por aí, como sequestros, acidentes de trânsito e o teu time perder não são culpa minha. Eles -- o "eles" com um sinal indicativo para mim, quieto em meu canto -- é que realmente perderam a cabeça.
Deus -- ou God, como o chamava o Diabo -- olhou para mim com o cenho fechado e depois para o Diabo -- o Bel, de Belzebu. Baixou a cabeça, pegou o giz e esfregou a ponta do taco, por um longo tempo. Encaçapou quatro bolas antes de dizer alguma coisa:
-- Olha Bel, tu sabes o quanto discordo de teus métodos. E também sabes do quanto prezo a vida deles (nova olhadinha de canto para meu lado). Não te esqueças o quanto trabalhei para que houvesse condições para que eles existissem. Não sei se exterminá-los, como tu dissestes por e-mail, resolveria o problema.
-- "Quanto trabalhei"? Tu os fizeste em apenas um dia, lembra? "E no sétimo, descansou...". Tu tens descansado desde aqueles tempo e a não ser por um Noé aqui ou um Abraão ali, a única coisa que fazes é desempenhar o papel de inalcançável!
E matando duas bolas, com uma ótima tacada de canto e outra de meio de mesa, o Diabo continuou:
-- Vês a posição em que me encontro? Tudo em sido culpa minha. Guerras, tudo bem. Assumo. Mas a concorrência com a maldade dessas tuas crias está me deixando maluco.
Dei uma gargalhada. Não pude mesmo me conter. Os dois olharam para mim com seriedade e com o indicador sobre os lábios, Deus pediu que me calasse.
-- Tu tens todo o direito de reclamar. Dou-te quase toda razão da qual sou capaz, Bel. -- Mais duas bolas para Deus. Ótimo efeito na branca, a la Rui Chapéu. -- Mas sinto, extermínio está fora de questão. Eu dei a eles o livre arbítrio e se eles quiserem se matar, o problema é deles e as almas serão tuas. E não negocio isso.
Mais uma vez o enxofre impregnou o ambiente. O Diabo deveria estar suando. Perguntei se ele não gostaria de um refrigerante, mas recebi um "Pros Infernos!" em resposta.
Depois da quarta partida, todas ganhas por Deus, a discussão começou a me enfadar. Já estava bêbado além do razoável e se eu chegasse em casa um pouquinho pior com certeza a Selma me poria para dormir na sala. Eu detesto dormir na sala, assim me levantei e estava já dizendo boa noite, quando com apenas um movimento mínimo de sua poderosa mão, Deus me fez sentar novamente. Lutei para conseguir me botar de pé, mas algo invisível e extremamente forte me aprisionava. Tentei falar, mas minha voz não saia. Olhei em torno para pedir ajuda, mas todos os que eu podia ver de onde estava, pareciam como que feitos de pedra, parados.
Olhei para os dois jogadores e suas formas pareciam estar mudando. Deus parecia mais luminoso, enquanto o Diabo, a este ponto tão bêbado quanto eu, parecia absorver a luz do ambiente.
Pelo que entendi houve um impasse: como Deus não queria o mal para nós, os humanos, e o Diabo queria nosso fim as forças se igualaram e o embate equilibrou-se. Começaram, cada um de seu lado, a aumentar suas forças para vencer ao oponente, fazendo assim que nossa realidade, nosso "agora" se alterasse. Como eu sei disso? Não tenho a mínima ideia. Esses pensamentos surgiam e me tomavam de assalto, incontidos pelos filtros de minhas crenças -- ou falta delas. Era possível sentir uma grande força correndo o ambiente, uma vibração que me deixava os cabelos em pé.
De repente surgiu uma criança, carregando um ramo de flores. Atrás dela, muitos belos seres, vestidos de um branco luminoso, encheram o pequeno corredor do boteco.
Deus e o Diabo notaram a mesma coisa que eu, pois embora me mantivessem preso à cadeira e os outros humanos continuassem paralisados, voltaram às suas formas 'normais'.
O Diabo, erguendo as sobrancelhas, olhou para Deus que, soltando uma gargalhada, fez sinal com a mão para que abrissem caminho a alguém que se mantinha atrás da estranha multidão. Postados lado a lado na estreiteza de espaço, formaram passagem a uma belíssima mulher, também de branco e em cujas mãos carregava uma bolo ricamente enfeitado, que se aproximou. Sorrindo sempre, colocou a encomenda que trazia sobre a mesa de bilhar. Em um passe de mágica acendeu várias velas que eu tenho certeza não estavam ali. Ao mesmo tempo, todos cantavam "Parabéns a você...".
O Diabo, olhos marejados, atirou-se aos braços de Deus:
-- Seus, seus... Seus safados! Achei que vocês tinham se esquecido! Que surpresa adorável...
Deus, sacudindo o Diabo pelos ombros, disse:
-- Meu irmão, não é sempre que se faz 6.000 anos. Acredita mesmo que não iria me lembrar! Eu sou onisciente, seu tonto.
A festa durou muito tempo. Não sei precisar exatamente quanto, pois me parece que a medida de dias, meses e anos às gentes do Céu e do Inferno não tem sentido e durante toda a festa, "nosso" tempo parou. Perguntei depois a outros que ali estavam naquele dia, mas ninguém tem lembrança de nada, como se nada tivesse ocorrido. Eu mesmo não tenho lembranças de como terminou tudo aquilo. Só me lembro de ter acordado no sofá de casa, com a Selma me falando horrores das más companhias com quem tenho andado, como aquele bêbado charmoso que tinha uma Ferrari toda amassada.
8 de junho de 2010
ETs - By Tatiana Cavalcanti
* Tatiana Cavalcanti
Ele tinha perguntado duzentas vezes o que eu tinha. E eu duzentas vezes tinha dito que nada. Trabalho em excesso, filhos amáveis, dois deles. Apesar da máquina, ter que lavar roupa, apesar das alegrias ter que viver umas tristezinhas encontradas por aí.
Uma casa inteira, uma vida inteira, uma história repleta de pequenos fragmentos que faziam a vida se quebrar e voltar de outro ponto completamente diferente. Empapuçava recomeçar para ser melhor, me fazia chorar aquele papo da carga, do humor, do passado, do presente, da possibilidade do futuro um dia chegar mesmo. Dava náusea a preguiça no corpo da obrigação de ter medo e de não querer lutar contra ele. Afinal, alguém nos ensinou que não correr riscos é seguro. Ou tentou.
Eu nasci prematura, ansiosa e caótica. Essência. Só que o que era essência virou desculpa para o mundo não entender nem aceitar. Ou só não querer viver junto. E me soterrando embaixo do discurso que diz que ninguém agüenta a minha brevidade.
Não era nada demais. Era o silêncio de não ter mais o que dizer e a surdez de não querer mais ouvir. O repertório tinha congelado no frio e o aquecedor tinha resolvido quebrar em pequenos fragmentos como a vida. Não era nada mesmo, de verdade. Era só ser diferente, era ser mulher na carne e criança no desejo e nos sonhos, era ser um furacão dentro de uma bola de cristal que não podia trincar nunca, senão vovó ia ficar muito brava. Quando o mundo te trata como uma bomba relógio é melhor ficar estática senão nego te desativa.
Ele insistia e eu replicava. Era só querer ser o que eu era, era só poder contar as mil histórias sem ser julgada pela diferença entre a primeira e a terceira pessoa. Era a exaustão de ter que ser igual, de ter que estar embalada na mesma Pack que o resto dos produtos que respiram e tem vontade própria. De ter que ser de mentira porque ser de verdade assusta. Era o sono de viver acordada para tentar outra crônica incrível, a câimbra dos músculos que correm atrás da forma humana que a gente tanto quer ter.
Era só poder fechar o olho e achar que o único problema não era eu. Que o problema também era o mundo não entender que ser diferente no humor e na carga pode ser divertido mesmo que por poucos segundos. Era só a subversão tentando ir contra a superficialidade que me abatia. Era só
uma dor de cabeça que martelava meu cérebro para eu deixar de querer ser o que não é para ser.
Era só o cansaço de procurar sem parar, há 33 anos, o bando de ETs de
quem eu me perdi quando chegamos nesse mundo tão alienado.
* Escritora da Novitas . Vai lançar o livro "Caóticos de uma mulher crônica".
Site da autora: www.taticavalcanti.com.br
26 de abril de 2010
Aquela tarde foi diferente de todas as outras - By Tatiana Cavalcanti
Ela esperava por aquilo como uma dançarina espera pelo dia de dançar no Municipal.
Ela era só uma adolescente e ele um homem mais velho e desesperado por um pouco de
leveza e juventude para curar as dores definitivas que ele carregava.
Ela louca atrás de alguma sabedoria para sair da mediocridade dos pelinhos nascendo.
E eles se esbarraram numa Rua de São Paulo, numa tarde chuvosa.
O beijo daquela tarde, o primeiro, aconteceu depois de vinte dias de uma relação
metade utópica metade realista.
Ele pegou na nuca quente dela e ela sentiu a primeira pegada forte da vida. A
canela, cheia de pêlos medianos e descoloridos arrepiou de um jeito que nenhum
idiota de 15 anos freqüentador de matinês poderia fazer.
Todas as verdades na ponta da língua, todas as incertezas enroladas num misto de
saliva com ansiedade. Um ácido quase doce. Era a vida dizendo que a hora tinha
chegado. A hora do primeiro amor, da grande paixão.
Uma fraqueza absoluta, uma tonteira estranha e uma força impulsiva. Uma vontade
imensa de não morrer nunca para recontar por mil vezes aquele seu primeiro frio. O
frio importante que escorre e que traz à tona tudo que a gente morre de medo de
viver só para não sofrer nunca.
Ele passou a mão o rosto suave dela num ato de carinho profundo.
Ela queria mais sem parecer sedenta. Queria viver tudo naquele segundo para nada
fugir. Corria o risco de ele, tão descolado, esquecer dela no primeiro pisca-pisca
que ligasse avisando que ia entrar para esquerda.
Mas ele não esqueceu por que encontrou nela tudo que mais precisava: a juventude, a
adolescência e a arte de planejar. Planejar o futuro sem saber que, até ele chegar,
muitas mudanças podem acontecer.
Ela era virgem. Ele era viúvo.
Ela estava começando e ele retornando do fim que tem volta.
Aquele foi o primeiro deles dois.
O primeiro beijo molhado dela.
E o primeiro beijo jovem dele depois de a vida ter levado sua mulher tão jovem.
* Autora da Novitas. Escreve No blog Coffee and History
25 de abril de 2010
Regresso Feliz (?) By Camila Passatuto
Regresso Feliz (?)
* Camila Passatuto
Entrei, cinco passos frios, um olhar infantil, uma arquibancada vazia, um lugar iluminado, o saco de pipoca na mão, três segundos de escuridão, uma música envolvente e temerosa.
Não, não sou feliz, é essa maquiagem que ilude e me esconde.
A bailarina se foi e o palhaço trancado no camarim, a criança esperando um alegre espetáculo.
Não, não há ninguém para fazer rir, apenas um garoto solitário, não vou me apresentar hoje.
O palhaço, o homem maquiado de felicidade, traz consigo a dor de um dia escuro e mal resolvido, seu olhar é raso e seu coração muito machucado.
Devorei a pipoca, a música envolvente parou, o momento era aquele, ouvi passos largos, fechei os olhos, queria uma surpresa, abro os olhos e me assusto.
Desculpe o palhaço não vai se apresentar hoje garoto vá embora vá brincar com as outras crianças.
Abaixei a cabeça e sai pensativo, sabia que aquele olhar não me era estranho, mas o palhaço deveria não estar animado para me fazer feliz. Corri para casa e nunca mais acreditei na magia daquele lugar.
Como pude ser tão cruel com a minha única platéia, mas não podia continuar a encenar a gloriosa felicidade.
O palhaço e o menino. Mal sabiam eles que o que buscavam e o que renunciavam machucava um ao outro. Mal sabiam que eram a mesma pessoa...
* Escreve no blog Outra Máscara
24 de fevereiro de 2010
Ninho - By Josy Campos
- Ela me disse: Deixe-o crescer!
- Sim, claro! Deixarei.
E a cada passo vi o homem. Vi-o aprendendo a comer com garfo e faca, tomar banho e vestir-se sozinho, consolei-o nas horas de decepção e tristeza quando alguém feria-lhe o peito e a cada lágrima dele uma gota de sangue escorria dos meus olhos. Enfim, renasciam os sorrisos, as vitórias. Vinha chegando o vestibular, depois a faculdade, as noites fora de casa bebendo com os amigos. Já não ouvia seus bons dias ou boas noites, não havia show de talentos na escola, não havia mais.
Nesse meio tempo, senti um vazio uterino, minha pele empalideceu, meus sonhos andavam distantes de mim, e, meu coração pulsava descompassado. Então, veio a namorada, o amor, o casamento. Eu virei espectadora, condenada a minha cadeira de observação. Eles eram felizes, muito felizes.
Resolvi ir viajar, queria a companhia de mim mesmo e excerci o privilégio do monólogo. Não tenha pena de mim. Estava melhor assim, foi aí que as coisas começaram a mudar.
Um dia peguei o ônibus em Londres, fui para o Big ben, subi ao topo, não me pergunte como fiz isso, só sei que fiz, e depindurei-me para ver os seus grandes ponteiros. Queria faze-los volver a um tempo remoto quando ele, pela primeira vez houvera me chamado, um homem apareceu em uma grande plataforma, amarrado com cintos de segurança, o equipamento dele equiparava-se ao de um alpinista e começou a limpar o relógio.
Não demonstrou espanto por eu estar ali, colocou-se a falar comigo sem nem sequer olhar-me. Perguntou-me:
- Faz tempo?
Respondi:
- Tempo demais.
Quer voltar?
- Gostaria, mas é impossível.
Ele me disse virando seu rosto alvo e brilhante.
- Não, não é.
E então, o homem sumiu de diante dos meus olhos e o telefone tocou. Era meu querido dizendo-me que sua esposa estava grávida e que ele estava com saudades e com medo de ser um pai horrível e me pedia colo, assim, eu voltei.
Todas as vezes que vou à casa de meu filho, vejo-o esperando por mim em sua porta, ele estende a mão, ajuda-me a subir os degraus e passando o braços envolta da minha cintura aproxima-me para junto de si, oferta-me um beijo na testa e diz:
- Eu te amo.
Porém, hoje não irei, não receberei seu beijo, nem o sentirei tão perto. Deixei um bilhete na cabeceira da cama do hospital e estendi a minha mão em um breve adeus. Ele, não estava lá, mas estava em mim.
*Nascida em Sampa ou nessa Paulicéia desvairada, percorri os quarto cantos do Brasil e gosto de escrever sobre as impressões que abstraí e incorporei de cada lugar. Tenho 30 anos, quando eu era menina gostava muito de escrever poesias , hoje, prefiro os contos, vivo treinando buscando a primazia, aliás são esses os fundamentos que me fundamentam.
Curso o 5 semestre de Letras tradutor/ Francês – Português na Universidade Presbiteriana Mackenzie, além disso, sou pesquisadora de Libras pelo cnpq/Mackenzie sob o tema: LIBRAS EM CENA – UMA PERSPECTIVA PRAGMÁTICA SOBRE AS ALTERNATIVAS NO USO DOS DÊITICOS DE PESSOA EM SITUAÇÕES FORMAIS E INFORMAIS, estamos só no começo e há muito o que trabalhar.
Aprendi piano, violão e atualmente estou arriscando a flauta doce, amo música como quem ama as palavras que não são ditas, todavia ganham sua significação no tempo e no espaço.
No mais, sou o que sou sombra de mim mesmo.
Edita o blog Palavras douradas
11 de dezembro de 2009
Ontem eu sonhei com Nova York - By Bruna Maria
Amanhecia. O céu naquela cidade nunca ficava claro. Diziam que era culpa da neve. Era o inverno. Era minha culpa. Afinal eu tinha decidido que chegaria ali exatamente no inverno. No rigoroso inverno.
Nas primeiras semanas eu limpava as privadas de um posto de gasolina. De certa forma era um alívio: aquele era o tipo do trabalho em que eu não era notada. Meus passos com pesadas galochas de borracha; minhas mãos com luvas amarelas, também de borracha, carregando baldes e esfregões. E, ao final do dia, a certeza de ter desfeito a merda de uma centena de norte-americanos que passavam por ali para reabastecer seus carros.
Os dólares que eu recebia ficavam dobrados em um bolso escondido, no interior da minha roupa especial contra o frio, que uma prima que tinha voltado ao Brasil me dera dias antes de eu embarcar em busca de uma busca sem nome e sem endereço. Daquilo que eu guardava, não sobrava muito quando vinha o dia de pagar pelo aluguel do quarto em que eu dormia. Dividido com um boliviano, o quarto ainda me custava caro. E foi por isso que em um dia de centrada razão, eu decidi abandonar aquele lugar, e ir tentar abrigo em uma Igreja protestante de subúrbio.
Passei algumas semanas na certeza de que, em algum momento, eu seria aceita por algum bondoso pastor. Eu me oferecia para limpar suas Igrejas, passar o cadeado no portão ao cair das noites ou, simplesmente, ajudar na organização dos cultos. Mas poucos pastores chegavam a me ouvir. E, os que ouviam, alegavam que já tinham alguém que fizesse tais serviços para eles.
Quando percebi que tinha se passado quase um mês desde que eu abandonara a metrópole em busca de abrigo no subúrbio, nada tendo conseguido, decidi voltar para a cidade e tomar de volta o emprego no posto de gasolina, que eu tinha largado. Mas o chefe, me vendo voltar, foi categórico e ríspido. Coisa de americano. Disse que não tinha nem conversa; afinal, ninguém largava o emprego da forma que eu larguei. Então agora o problema era todo meu.
Eu tinha apenas vinte dólares a essa altura. Já não podia fazer refeições, tampouco pernoitar em algum motel. Decidi que guardaria o dinheiro para alguma emergência.
Sem poder dormir pelas ruas, já que os policiais eram sempre severos, decidi sair da cidade andando, até chegar a alguma “highway” onde eu pudesse, esticando o polegar, pedir carona aos carros, para chegar ao interior. Era a minha chance.
Consegui a ajuda de três sujeitos. Eles me ofereceram carona em diferentes partes da estrada e, um deles, ainda pagou um pernoite para mim, enquanto ele também dormia para descansar e pegar a estrada novamente no dia seguinte.
Com a ajuda desses sujeitos, e após alguns dias, cheguei a um rancho. Instalei-me pelos celeiros e fiquei por lá, beliscando comida de animal e me escondendo toda vez que o fazendeiro se aproximava. Em uma semana, consegui descobrir que o fazendeiro era um sujeito idoso, e que o rancho não tinha grandes movimentações. Supus que o velho morava sozinho e achei que me seria fácil abordá-lo, implorando um serviço qualquer.
No cair de uma tarde mais gelada que o comum, me arrastei até a entrada do rancho, e chamei pelo senhor, que jogava sal na neve. “Hello, hello”, eu gritei com custo. Sentia-me fraca e a ponto de desmaiar.
O velho veio com uma pá na mão e com a cara fechada. “Go away”, ele resmungou e fez menção de me espantar com aquele instrumento ameaçador.
“Food, please. Job. I need help, no where to go”, eu murmurava, tentando projetar a fraca voz que me escapava da garganta. Mas o velho parecia irredutível e repetia com amarga revolta seu “Go away” ácido e terrível.
Nesse momento comecei a pensar se não teria sido melhor ter fica pelos celeiros, comendo a comida dos bichos e me esquentando na serragem. O velho nunca saberia da minha presença. O estúpido americano me ajudaria sem ao menos saber. E quando a primavera chegasse, eu partiria em busca de outro modo de sobreviver.
Após tal devaneio, percebi que não teria onde dormir naquela noite que prometia um frio ainda mais intenso. Alguns flocos de neve começavam a cair e o velho insistia em me mandar embora, sem ao menos me ouvir.
Diante daquele impasse, algo na minha suposta humanidade começou a me transtornar. E, conforme o velho levantava a pá para me expulsar qual se expulsa animais intrusos, a sensação de fraqueza subitamente começava a se transformar em raiva e revolta. Eu era pessoa, como ele. Eu estava rogando por ajuda. E ele permanecia irredutível.
Com o ímpeto de revolta que me surgiu, pulei a cerca que me separava do velho, e parti para cima dele. Ele caiu no meio da neve e eu fiquei por cima de sua barriga estufada de bacon e ovos mexidos. Tomei a pá de sua mão, enquanto ouvia, em seu acesso de tosse velhaca e rouquidão, aquele desprezível “Go away” infinito e desumano.
“I was only asking for some help, you redneck”, esbravejei com forças vindas de um orgulho desastrosamente ferido, e cuspi-lhe na cara.
Ainda com a pá em minhas mãos e sentada sobre sua barriga, pensei em como poderia ter sido diferente. O velho poderia ter sido gentil; ou eu poderia nunca ter saído da cidade. Mas, fora isso, outro pensamento me ocorreu: eu nunca tinha escrito para casa contando o que me sucedera em minha aventura norte-americana. E, se nunca tinha feito tal, era por vergonha de ter fracassado desde o primeiro instante que pisara na terra do Tio Sam.
Mas um relance de possibilidade me surgiu quando voltei a olhar para o velho sob mim – e agora com olhos apavorados e humilhados. O rancho, afinal, não era lá essas coisas, mas tinha uns bichos e uma sede rústica de aparência bem agradável.
Eu, então, com a pá em minhas mãos e o velho sob mim, não hesitei e lhe dei seguidas coronhadas, lembrando da amargura que seu “Go away” jogava sobre a minha existência.
Uma semana depois, quando escrevi a primeira carta aos meus familiares, a primavera chegava e eu calçava botas de couro. A neve derretera, mas ainda fazia frio. Ao acordar, eu tomava café forte e comia bacon. O silêncio era predominante. Antes das dez horas da manhã eu alimentava os animais e cuidava, especialmente, dos celeiros.
Um dia, sem que eu esperasse, um caipira chamado John passou procurando o velho que eu matara. Convidei-o a entrar e contei a história do Mr. Marshall – eis o nome do velho. Disse que ele era um tio muito querido e que, por problemas graves de saúde mental, teve que ser internado em uma clínica do outro lado do país.
“Sad, very sad”, John disse. Mas o caipira acreditou e se tornou meu amigo.
John passou e me visitar sempre que podia. Aparecia para o “brunch”, ficava a tarde toda me ajudando com o rancho e, às vezes e com o passar do tempo, ficava para dormir também.
Um dia, John propôs que eu largasse aquele solitário e improdutivo rancho. Contou sobre como ele se sentia sozinho e sobre como tinha apreço por mim. Convidou-me para morar com ele, em seu próprio rancho, que ficava ali pelas redondezas.
Não pensei duas vezes: ele tinha empregados e ganhava o seu dinheiro. As instalações de sua casa eram muito melhores do que as da casa em que eu morava. Além disso, o apreço de um homem pode ser muito útil para diversos fins. Então fiz as malas e parti, alegando, contudo, que não poderia vender o rancho de meu tio – Mr. Marshall –, pois tinha certeza de que, um dia, ele recuperaria sua saúde mental e retornaria.
Foram meses tranqüilos aqueles com John. Ele era um caipira agradável, que levantava cedo e almoçava na hora certa. Comigo por perto, ele se sentia entusiasmado em trabalhar mais e as tardes ele dedicava à produtividade de seus negócios, voltando apenas à noite. Durante esse tempo, escrevi minha segunda carta aos familiares.
Em uma dessas tardes de produção, um comprador de carne de porco foi procurar por John, mas ele não estava. Mandaram-no ir falar com a sua senhora, que era eu.
O sujeito se chamava Etan. Era jovem, era da cidade. Disse que estava de passagem, que precisava reajustar preços com John e que, então, voltaria em uma outra hora, em um outro dia.
E Etan voltou mesmo. Mas, após reajustar preços com John, Etan passou a voltar sempre pelas tardes, quando John estava trabalhando.
“You’re so pretty, you’re like those modern women”, ele dizia mexendo nos meus cabelos. E eu respondia, com brilhos olhos: “I’d love to go downtown, you know, to live there, forever!”
Em alguns meses, Etan contou sobre um apartamento que acabara de pagar. Era no Brooklyn. Logo lhe mostrei todo meu entusiasmo, e lhe parabenizei por, tão jovem, já ter seu primeiro imóvel.
Até que em uma daquelas tardes de trabalho de John, eu entrei no carro de Etan e nunca mais voltei. Fixei residência no Brooklyn e, dali, escrevi a minha terceira carta aos familiares.
E, depois de um tempo, muitas outras cartas escrevi.
Os anos em que vivi com Etan me ajudaram a migrar para Manhattan. De lá, escrevi as minhas últimas cartas. E, depois de um tempo, só isso era o que realmente importava. O resto, todo o resto, tornara-se detalhe, como sempre.
*Bruna Maria é carioca, mas não chega a ser muito fã de dias de sol. Formada em Letras, já cultivou uma média de três blogs pela rede, deletando os dois últimos por ter embirrado com a escrita. Para ela, o ato de escrever pode ser muito cruel e pouco redentor e, por isso, vive tentando desistir de se meter com as palavras. Mas não consegue.Também pode ser encontrada em: www.projetoautoral.wordpress.com / www.twitter.com/brumah
7 de dezembro de 2009
O homem que odiava - By Carlos Emerson Júnior
O homem que odiava
Tinha ódio da humanidade. Judeu, preto, japonês, viado, sapatão, nordestino, boliviano, índio, pobre, padre e até bichos de estimação. Remoía isso todos os dias, quieto no seu canto, olhando aqueles rostos repulsivos que a todo momento se aproximavam para pedir alguma coisa.
Nessas horas fechava mais ainda a cara e se fazia de surdo. Dava certo, chegava até a assustar os incautos.
Para piorar seu humor, detestava seu trabalho. Detestava seu patrão, detestava a rotina diária de tantos anos, não suportava sequer olhar para o rosto dos colegas. Precisava do dinheiro, fazer o quê... Nem se preocupava mais com o bando de jovens incompetentes que enchiam a repartição. Só queria mesmo era receber o seu no fim do mês e o resto que se dane!
Simples assim.
Não tolerava crianças. Abominava qualquer coisa parecida com festas, carnaval, bailes, futebol, Natal, Ano Novo, feriados, sábados e domingo em particular. Aniversários ? Nem fale, não sabia mais sequer quando era o seu!
Mulheres só pagas e com ordem expressa de não abrir a boca para falar um ai! Com o tempo e a idade, foram se tornando desnecessárias. Jamais se casara e sabia muito bem que tinha sido uma atitude correta.
Não entendia e muito menos apreciava música, livros, poesias, obras de arte, qualquer coisa que fosse considerada uma criação estética ou intelectual do homem. Isso tudo era pura enrolação para tirar dinheiro dos estúpidos.
Da mesma forma desprezava religiões de uma maneira profunda, acreditando que eram mais uma forma de influenciar rebanhos de humanos carentes em busca de um paraíso impossível.
Para o resto do mundo, não poderia haver nenhuma salvação. A raça humana era um estorvo, um carma mesmo, gente ignorante que só prestava para reproduzir e trabalhar. Saco!
Um dia ele morreu e ninguém notou. O mundo continuou a rodar e a vida seguiu. O homem que odiava a humanidade não fez falta nenhuma.
* Não tem jeito... basta ter Júnior no nome e vai ser Júnior até o fim. Não adianta nem tentar se apresentar pelo primeiro nome ou usar a abreviação Jr., como eu faço:
- Carlos Emerson, muito prazer!
- Ah! Mas você não é o Júnior ?
É isso mesmo. Eu sou Júnior desde criancinha. Na escola já começava a barafunda: para os professores valia o Carlos e os amigos que iam lá em casa usavam o Júnior.
Comecei a trabalhar e oficialmente virei Emerson, apesar de uma boa parte do pessoal usar o Carlos, vá lá entender o porquê. Uma confusão tão grande, que certa vez um diretor chegou a me pedir para deixar um recado para o Emerson!!! Ou teria sido para o Carlos ?? A única unanimidade era na hora de alguma reclamação, o que, aliás, até hoje é assim:
- Carlos Emerson!! Venha cá, imediatamente!!!
Meu primeiro blog se chamava Blog do Júnior. Só que ficou de uma indigência sonora tão grande que, “brilhantemente” rebatizei como Blog do Cejunior! Pronto! Tinha acabado de inventar mais uma variação de meu nome e desta vez para a vastidão sem fim da Web. Seja como for, ou melhor, com qualquer um desses nomes, é com enorme prazer que participo de mais uma Coletânea organizada pelos queridos amigos Letícia e David.
Todas as crônicas escolhidas partiram de fatos realmente ocorridos comigo ou com amigos, confirmando a velha teoria de que a vida real é bem mais fértil do que a imaginação.
Sou carioca, moro em Nova Friburgo, na serra fluminense, escrevo e edito o blog Focus Mode (www.focusmode.net) e o Blog do Cejunior (cejunior.blogspot.com).
13 de novembro de 2009
Quintas - Feiras - By Tatiana Cavalcanti
Ela sai apressada toda quinta-feira. E toda quinta-feira ela está mais arrumada, mais sexy, com o sorriso mais largo e com o cabelo mais solto. E sempre de prata para destacar com a cor da pele dela que é morena. Quase sempre ela coloca saia às quintas-feiras e blusas com o decote um pouco mais ousado. Nada de vulgar, apenas pretencioso como seu jeito de toda quinta-feira. Ele sai ansioso toda quinta-feira. E toda quinta-feira ele está mais radiante, menos focado no trabalho, com a roupa mais casual que o mundo dos negócios permite e sempre de Calvin Klein. O perfume não a cueca.
Ela sai para ficar toda quinta-feira duas horas fora. Sagrada como sua fé em Santa Rita e benta como a água do Padre da paróquia que tem na rua da casa dela. Ele sai toda quinta-feira para ficar duas horas fora. É como o suspiro do fim, necessário. Ela sai mais vibrante. Ele mais despojado. Ela vai o caminho todo cantando bem alto que é para entrar no clima. O clima mesmo que pega fogo e acende tudo em todo mundo, até nos frios e calculistas. Ele vai ouvindo jazz porque jazz para ele tem uma sensualidade importante. Ela chega lá toda vez super disposta e feliz. Ele chega lá toda vez com saudade e cheio de coisas para contar e cheio de boca para beijar. E toda quinta-feira, quando eles chegam lá, é uma loucura saudável. Eles se beijam, se abraçam, se perdem naquele momento sagrado de quinta-feira e dizem coisas lindas um ao outro. E prometem tudo que essa vida oferece de melhor um ao outro. Ele sempre fala do amor que sente por ela. E ela sempre retribui com um sorriso doce e responde contando da saudade e do amor intermináveis que igualmente, sente por ele. Eles se prometem mais tempo do que só as quintas-feiras. E também falam de largar tudo e morar na Praia do Forte. E fazem planos de amor eterno e tesão irrevogável e carinhos sinceros. Toda quinta-feira inclusive, o diálogo se assemelha. Os mesmos temas. Uma ou outra frase diferente. E toda quinta-feira, tirando uma do mês, a atendente do motel é a mesma, a Catarina.
E toda quinta-feira ela vai embora para casa, ouvindo Marisa Monte que é para ficar na fossa e chegar perto de provocar o suicídio de saudade. E ele vai ouvindo o mesmo jazz porque jazz é sempre mais sexy e ele nunca quer esquecer como ela o faz esquecer. E toda quinta-feira ele abre o vidro do carro e respira com a cabeça para fora tomando um vento nos cabelos lisos e pretos que é para lembrar como a liberdade completa. E toda quinta-feira ela se liberta e ele se reinventa.
E toda quinta-feira ela, quando entra em casa, quase chora de saudade. E ele tem vontade de voltar correndo para ela. Ela só não chora para o marido não desconfiar. Ele só não volta porque só às quintas-feiras é muito mais duradouro.
* escritora e redatora.
http://coffeeandhistory.blogspot.com
tatianarcavalcanti@gmail.com
23 de setembro de 2009
A Morte - David Nobrega
Andar pelo centro podre de uma cidade grande é ao mesmo tempo causa de duas sensações completamente antagônicas: prazer e nojo.
Sou parte dessa podridão desde quando nasci de mãe puta e pai desconhecido. Minhas recordações de infância são basicamente o fedor: de loção barata dos homens a quem minha mãe atendia, o bolor do armário úmido que me servia de quarto quando havia "visitas" em nosso minúsculo apartamento e a fome, tão comum quanto inevitável, roubando odores de comidas vizinhas, alheias a nossos pratos vazios.
Cresci sem a educação dita formal. Aprendi a ler com o porteiro do prédio, homem doente que só se mantinha naquela função por trocar salário por moradia. Como comia, onde arranjava alimento, era para mim um mistério, como ainda é até hoje. Claro que já morreu há muito, mas ao me apresentar à arte de ler e escrever, sua imagem ficou como que gravada a ferro e fogo em minhas memórias. Outros cheiros de minha infância veem dele: couro velho dos livros, pele velha e murcha de seu corpo.
Hoje em dia não moro mais por estas bandas da cidade. Sou bem de vida, como costumava-se dizer em meus tempos de menino. Arrumaria facilmente uma vaga na finada pensão da Dona Lola, onde um cartaz escrito à mão dizia “Vagas para Senhores de Fino Trato”.
Venci sozinho. Melhor dizendo venci por meu esforço em compreender Dante, Rui Barbosa, Sócrates, Rosseau, Taunay, e tantos outros a quem tive a honra e prazer em ler. Culpa do raquítico porteiro, que dizia que um homem tem que primeiro entender o Universo para poder entender a própria vida.
Aos onze anos de idade minha mãe me enviou para trabalhar no cortume que ainda existe ali pelo lado do Arroio. Fedor... Mais fedor. O trabalho sempre em meio aos caldos de animais mortos, quente, abafado, perdia a respiração, bolhas em minhas mãos, e o fedor onipresente. Por ali castigaram meu corpo por longos três anos, fazendo de minha magreza aparente fortaleza. Consegui sair dali inacreditavelmente forte. Não gripava, não tossia, nada me doía. Nem o coração mais sentia, brutalizado pelos maus tratos e pelos abusos. Certa vez, outros rapazolas bem maiores que eu – e bem mais fortes – juntaram-se para me fazer entender quem era minha mãe. Eu deveria sentir-me puta como ela. Me surraram, me comeram, me cuspiram. Depois de satisfeitas todos as suas taras e malvadezas, jogaram uma nota de Real sobre meu corpo que sangrava. Nunca mais voltei para ali ou para qualquer lugar por onde houvesse sequer a mínima relação com minha mãe. Por culpa dela, primeiro em me fazer nascer e depois por me fazer parte de seu mundo imundo. E parti.
Esta tarde que caminho pelo Centro é a primeira vez, desde os fatos que lhes contei, que apareço por aqui. E só vim porquê fui chamado pela polícia para reconhecer o corpo de uma vadia que foi encontrado já meio decomposto e deformado. Não havia sinais de violência. Parece que a causa da morte foi velhice mesmo. Mas o laudo definitivo somente depois da autópsia. Se o senhor puder vir fazer o reconhecimento...
Fui, para provar a mim e aos outros que sou superior a tudo isso.
Cheguei ao endereço que me haviam dado e subi os dois lances da escada rangente até o andar correto. Na porta do apartamento a policial me ofereceu uma máscara para cobrir o nariz, que recusei. Eu queria sentir aquele cheiro de morte. Eu ansiava por poder ver e apalpar aquele corpo asqueroso, pobre, podre daquela que me pariu.
O quarto não era o mesmo, mas a disposição das poucas coisas que ela adquirira durante sua vida indecente, sim. Lá estava o armário úmido, hoje sem portas, onde tantas vezes me havia abrigado. A bacia de lata, com água suja, ainda fazia parte da decoração. Um crucifixo já sem cores – o mesmo? – sobre a cabeceira da cama, onde jazia um corpo disforme e fétido. Por um momento me senti de volta ao cortume e todas as memórias daquele lugar odioso.
“Pelo estado do corpo e pelo tempo que não a vejo, não posso lhes dizer nada” – disse-lhes eu – “mas pelos objetos pessoais acredito que realmente seja a pessoa que vocês pensam”. E saí do apartamento, para o ar pouco mais fresco daquele corredor imundo.
A mesma policial veio ter comigo, me estendendo um maço de cartas nunca enviada, todas com meu endereço. “Nós o achamos por meio disto. Talvez o senhor as queira ler, padre”.
Tomei aquele maço de papel de suas mãos e saí daquele antro quase correndo. E não olhei nem mais uma vez para trás.
Em casa, tarde da noite, sentado de frente à lareira e com um bom vinho por companhia, mais uma vez passagens de meu passado desfilaram por minha frente. Minha fuga sem rumo, minhas noites frias sem abrigo, minha visão – embora eu saiba que agora que fora um delírio – ao ver a Igreja de portas abertas, como que me chamando. O padre Ambrósio, que me acolhera e me mandara ao Seminário.
Meus olhos pousaram mais uma vez sobre o maço de cartas. Com as pontas dos dedos o alcancei, imaginando o que estaria escrito ali. Palavras de perdão, pedidos de ajuda, xingamentos por não ajudá-la ou atendê-la todas as vezes que me havia chamado?
E sem pensar duas vezes joguei tudo ao fogo, que consumiu o último resquício de uma vida que não tive.
(Conto do novo livro do Autor a ser lançado pela Novitas em breve)
12 de setembro de 2009
Pela Madrugada - By Gustavo do Carmo
* Gustavo do Carmo
Os ratos serpenteavam no meio-fio. Baratas passeavam pelos bueiros. Os pardais piscavam ávidos para multar motoristas que avançassem o sinal. Os meninos de rua cheiravam cola sem cerimônia. Um deles desfilava com a sua pistola prateada como um vampiro sedento pelo sangue de suas vítimas, especialmente motoristas de carros de luxo.
Dona Marta e Regina caminhavam pela rua do subúrbio, sem medo de tudo isso. Pareciam protegidas, pois ninguém as ameaçava. Só um velho tarado parou na sua frente, abriu o sobretudo que o cobria e exibiu o seu pênis longo e flácido. Elas nem se importaram. O malandro com a canivete escondida, perguntou para onde elas iam, foi ignorado e não reagiu.
As duas mulheres não se assustaram nem com o camburão da polícia correndo na contramão da rua e com o tiroteio que começou a pipocar minutos depois. Continuavam observando a cena na alta madrugada: a dupla de travestis que fazia ponto na rua, o barrigudo careca caído bêbado na calçada, o grupo de jovens voltando da festa às gargalhadas, a prostituta se deixando possuir pelo cliente e os primeiros trabalhadores no ponto de ônibus. A lua começava a perder força com o azul ciano do céu.
Tudo o que Regina queria era comprar a primeira fornada do pão que saía às cinco da manhã na padaria do bairro. Reconstituindo um momento que viveu aos sete anos, quando a sua mãe, Dona Marta, a levou para esperar o pão sair quentinho.
Naquela época, o estabelecimento era mais simples e a cidade mais calma, sem pardais, menores armados e tiroteios. Mas já tinha drogas, sexo, bêbados, malandros e tarados. Trinta e cinco anos depois, Dona Marta, já uma frágil anciã, levava a filha para atender um pedido nostálgico, que poderia ser o último, pois Regina já fora desenganada pelos médicos que diagnosticaram um tumor cerebral.
* Gustavo do Carmo é formado em jornalismo e publicidade, publicou o romance Notícias que Marcam e a coletânea de contos Indecisos. Tem o blog http://www.tudocultural.blogspot.com/ . Seu twitter é www.twitter.com/gustavocarmo
23 de julho de 2009
Um fondue especial - By Chica
( Imagem retirada do google)Um fondue "especial"
Rosa tinha um monte de filhos, todos pequenos e com pouquísima diferença de idade.
As despesas portanto, da família eram muitas e o salário do marido era todo gasto assim que entrava em casa. Pouco sobrava para bobagens ou supérfluos.
Um dia, Rosa que havia ganho seus primeiros salários, resolveu dar um presente diferente para comemorarem o dia dos namorados...um aparelhinho de fondue.
Toda feliz, comprou todos os ingredientes, cortou a carne, preparou vários molhinhos espertos e ainda fez as torradinhas para acompanhamento. Tudo pronto.Oba!
A criançada com os olhos brilhando para participar da inauguração ...
Começa a função : tudo certinho...
Até o fogo com o álcool foi feito sem problemas, e nenhum cabelo ou sobrancelha foi chamuscado,rsrs...
Aí, cada um deveria espetar suas carnes e esperar, enquanto conversavam.
Porém, era um bando de "mortinhos de fome" que queriam mais do que tudo ou qualquer papo, encher suas barriguinhas.
Assim, foram as primeiras remessas, mal dava tempo de fritar e já eles haviam acabado as suas e pedindo mais e mais...Várias e várias remessas foram feitas...
Resultado: Rosa ao final do jantar "romântico" e especial, quase precisava uma maca de tão exausta estava, isso sem falar no cheirinho "delicioso" de frituras em seus cabelos que nem com um banho ia embora.
Assim, até colocar as crianças nas camas, banho, a noite estava perdida para qualquer comemoração a dois...
Ficou entretanto a lição: fondue é para ser saboreado com calma, sem pressas e de preferência, sem crianças, só o casal.
Hoje,ele já nem é mais nem frito . Há as chapas para apenas grelhar. Com isso, nem fumaças, nem perfumes indesejados. Pronto!
Assim, o romance está garantido!
Mas agora,pensando bem, falta alguma coisa...
Hmmm, já sei:falta também a graça daqueles momentos...
Afinal, só para dois? Ah! Nem inventa! Muiiito melhor ir jantar fora! Há tantos fondues bons pela cidade!
E assim, foi descoberta a inutilidade de tal aparelho naquela família.
*Meu nome é Rejane Merker Tazza , nasci em Rosário do Sul em novembro de 1948. Me conheço mais por Chica, pois desde pequeninha fui assim chamada.
Me formei advogada e exerci por pouco tempo.
Quem sou eu
Sou alguém que simplesmente gosta de escrever sobre as coisas do cotidiano de quem leva uma vida bem normal e comunzinha e que valoriza a natureza,a simplicidade e procura fazer a sua parte neste mundo, sempre que pode...
Procuro estar sempre atenta e é com esse olhar que escrevo...
Enfim, sou simplesmente a Chica...
http://vemproquiosque.blogspot.com/
18 de julho de 2009
UTI - Conto de autoria de David Nobrega
Há exatos 6 anos, sofri um gravíssimo acidente, enquanto me encaminhava para o trabalho. Estava chovendo e eu, em minha imprudência valente dos motoristas com algum tempo de habilitação, dirigia a toda velocidade, desviando de poças e buracos de minha cidade. Não estava atrasado nem nada, mas dirigir de maneira agressiva tornou-se um hábito, independente do compromisso ou do leito pelo qual trafegasse.
Sabe quando você usa óculos e não nota a sujeira se acumulando nas lentes? Parece que o mundo vai perdendo a cor pouco a pouco, chega a pensar que necessita de uma nova consulta com seu oftalmologista, quando na verdade basta uma boa lavada em seus óculos para que tudo retorne a normalidade. Aconteceu algo parecido na hora do acidente: embaçou o vidro, eu me esforçava para enxergar, não vi o caminhão parado na esquina que entrei derrapando pelo excesso de velocidade e deu no que deu. Até hoje, passados tantos anos, me lembro dos números da licença, mal-escritas em vermelho contra o fundo verde da carroceria de madeira.
Quando acordei estava saindo de uma cirurgia, onde repararam um pulmão perfurado, extraíram meu baço, costuraram alguns pontos em meus intestinos e remendaram alguns tantos ossos partidos, principalmente em meu rosto, braços e pernas. Pela dor que sentia não poderia precisar em quantos lugares eu sofrera algum tipo de injúria. Apaguei de novo e só acordei meses depois...
Minha primeira recordação aqui da UTI foi a de um enfermeiro me virando para trocar os lençóis. Não sei se vocês sabem, mas os colchões que se usam nos hospitais são revestidos com uma capa plástica, o que faz com que nós, enfermos, transpiremos como uma bica sobre o lençol. É desconfortável mas limpo. Ao menos trocam as roupas de cama uma vez ao dia.
Minha esposa e meus filhos têm vindo me visitar, ela mais que eles. No começo tinham que barrar minhas visitas, mas com o tempo foram rareando, sobrando apenas a presença diária de minha esposa. Muitos já me condenaram. Estou morto para o mundo e esqueceram de me enterrar. Ouvi isso da boca de um de meus melhores “amigos”, em sua última visita.
É interessante quando pensam que você não ouve o que dizem. Quase uma sensação vouyerística, se me permitem o termo. Dizem uns aos outros coisas que jamais diriam na minha frente. Como quando um meu conhecido, cliente de longa data, aproveitou o sofrer de minha esposa e, colocando-lhe a mão sobre o ombro, quis consolá-la de uma maneira não muito galante. Dois sonoros tapas dados por ela foram o suficiente para que ele se afastasse, não antes de jurar que ela ainda seria sua. Que ainda ela o procuraria. Esse também nunca mais apareceu.
Ao lado de minha cama existe outra cama e enfileiradas até o outro lado da imensa sala que é esta UTI, outras mais. Quando me viram de uma lado para o outro para que meu corpo não fique em feridas pelo contato do maldito colchão eu consigo vê-las, iguais em sua forma, diferentes em seus conteúdos. Meu divertimento consiste hoje em descobrir quem seriam essas pessoas, assim como eu enfileirados a espera de suas mortes.
Na cama mais próxima de mim, à minha esquerda, um paciente asiático, já idoso, teve um derrame. AVC – Acidente Vascular Cerebral. E H, de Hemorrágico. Sinto que se um dia conseguir sair daqui posso clinicar como médico por aí, pois tenho aprendido muito nesta minha universidade forçada. Esse paciente, meu vizinho, deve ter lá seus 65 anos, pouco mais, pouco menos. Seus visitantes são sempre engravatados, aparentados a ele de alguma maneira. Senhora chorosa não há, pelo que suponho seja ele viúvo. Logo mais torno a lhes contar algo que sei deste meu vizinho.
Pelo que consigo ver de onde me encontro, deitado sobre meu lado esquerdo, com o respirador também a minha esquerda, enriquecendo meu sangue com ar puro, existem ao todo mais oito pacientes.
Numerando-os de 1 a 9, sendo eu o nono, a primeira cama e o ocupante do quinto leito sofrem de uma tal SARA. Não sei o que significaria isso, mas coisa boa não é, já que vi outros pacientes anteriores com esse mal morrerem em questão de dias.
Ocupando a segunda posição de nosso hit-parade, temos um infartado que acabaram de operar e colocar um marca-passo. Coisa sem graça que nem vale o sacrifício dos comentários.
No terceiro leito, sempre “de lá para cá”, um outro acidentado. Esse teve menos sorte que eu. Perdeu duas pernas.
O número 4 é interessante e não o perco de vista; é um assaltante perigoso, mas que tem convênio médico, baleado em uma perseguição policial. Eu fiz das tripas coração para poder pagar meu convênio, caríssimo. Esse sem-vergonha, bandido, tem o mesmo convênio que o meu. Garanto que aquele meu carro roubado há alguns anos financiou também o convênio de algum desses safados. Coisas da vida. Fico rezando para que algum dia seus comparsas invadam a UTI para tentar resgatá-lo. Ao menos um pouco de emoção em minha vida...
Número 6. Uma mulher. Teve, segundo um dos médicos comentou com outro, pré-eclampsia. Algo sobre a pressão subir demais na hora do parto ou algo assim. Coitada...nem vai conhecer o filho. Está já sem sinais cerebrais e vão desligar seus aparelhos logo, logo.
Apresentados meus colegas, me permitam retornar a meu colega aqui ao lado, que apesar de inconsciente não precisa dessa parafernália toda que tenho para mim para poder viver. O bom velhinho, pelo que entendi, não tem nada de bom. Mafioso, segundo ouvi comentarem. Trazia contrabando da China e revendia aos R$ 1,99 por aí. Coisa que, se entendi direito, além de acabar com os comércios locais ainda fazia com que estes transformassem suas lojas em pontos de venda de seus produtos piratas. O comércio em si era uma grande fachada que encobria, entre outras coisas, tráfico de escravos, jóias e drogas. Ou seja, o perfeito capitalista selvagem.
Corre a boca pequena, entre murmúrios que escuto da boca da enfermagem, que sua doença não tinha nada a ver com o verdadeiro motivo dele estar ali. Dizem eles que alguém da família havia tentado envenená-lo e o filho mais velho estava pagando para manter o pai naquele local, pois temia que se o levasse para casa, tentando fazer com que ali se restabelecesse, tentassem mais uma vez matá-lo. Se pedirem minha opinião, de quem, está a anos presenciando de tudo que por aqui acontece, diria que quem quer dar cabo do velho é o sobrinho com cabelo tingido.
Poucos antes deste texto ser escrito, monges budistas vieram orar pelo semi-defunto, tentando encaminhar sua alma de volta para seu corpo. Ou não, sabe-se lá se o chinês loiro não está metido nisso, querendo de vez despachar a alma do tio.
Começaram com um cântico lento, uma campainha soando ao fundo. Querendo ou não, você acaba fixado nos sons por ele emitidos. A cantilena vai ficando cada vez mais rápida, como se uma onda estivesse se formando nas profundezas do oceano. Cada vez mais os sons, embora não passem de murmúrios quase inaudíveis, vão se tornando uma espécie de zumbido grosso, como um zangão.. Não sei lhes explicar...seria como se você pudesse “apalpar”, “tocar” , na realidade um “sentir-se tocado” pelos sons.
Não sei mais nada quanto ao velho ali ao lado, mas em mim o ritual teve seu efeito. O que dizem de uma tal luz brilhando no final do túnel é quase que uma verdade total. Quando dei por mim estava de pé, olhando para meu corpo morto, embalado por uma música suave e, acreditem, banhado pelo sol da manhã, que jorrava sobre mim vinda diretamente de algum lugar sobre minha cabeça. Nada mudou, mas ao mesmo tempo me sinto livre. Se alguém conseguir psicografar isto, por favor, avise minha mulher do seguro que está em meu cofre. Despeçam-se de meus filhos. E diga àquele safado que cantou minha mulher ao lado de meu leito, que quando ele sentir um arrepio na espinha, sou eu ali, cuidando para que ele sinta medo pelo resto da vida.
*Nascido em São Paulo, capital, em 28 de Novembro de 1966.
Escreve poesias, contos e fotografa - não necessariamente nessa ordem.
Durante o ano de 2008, editou a capa do livro Ensaios Amadores de autoria de sua esposa, a poetisa gaúcha Letícia Coelho. Editou também a capa e orelha do livro D'Acolá, de autoria do escritor baiano Marcos Pontes, pela editora Os Viralata. Ainda em 2008, esteve presente na exposição Porto Alegre: imagem e poesia, com fotos e poesias de sua autoria, em Julho e em Setembro, participou do Projeto Zine Lapa, no Sesc Lapa, São Paulo, com fotos de sua autoria.
Já em Janeiro de 2009, lançou seu "Uns & Outros", livro de contos e desencontros.
Participou e organizou a I Coletânea Scriptus - Um Balaio de idéias.
É um dos fundadores e editores da Editora Novitas, todas as capas de livros lançados pela Editora Novitas são de sua autoria.