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6 de junho de 2011

Almas e Beijos no Pouso do Absurdo - by Pedro Penido

Almas e Beijos no Pouso do Absurdo

*Pedro Penido

Atravessei milhares de distâncias e eras até chegar a este boteco, na Estrada do Horizonte, em meio aos Ermos de Além Mais. Um lugar que reúne loucos e absurdos, bêbados e infames, em torno da mesma roda de tragos e doses, onde a própria Trama é tecida, traço a traço, alucinadamente.

O nome do lugar? Pouso do Absurdo! Reconfortante, não?

E sempre, acredite, me senti extremamente à vontade entre os que, como eu, estavam inundados de implosões, receios, medos e pecados. Ali, no meio do nada, por entre aqueles que até mesmo o Tempo evitava ou desconhecia, eu me sentia completamente aceito, justamente por poder criar e sorver meu manto de sombras e ainda gargalhar à vontade.

E foi numa noite fria, de temporal, que, feito anjo caído do céu, a mulher que escravizaria todas as almas daquele lugar, instantes depois, apareceu.

Lembro-me de uma guitarra flamejante e sutil desenhando suas curvas ardentes. Lembro-me de tragos finos e desmemoriados traçando seu olhar. E lembro-me também de escorrer veneno doce de seus lábios vermelhos e suculentos.

Ah... Que mal maior poderia haver? E por que evitá-lo? Males tão grandes assim devem ser assimilados, experimentados, levados ao limite! Em temporal todo verso é perigoso. Eu sabia disso... E, sinceramente, desejava isso. E foi então que ela, um anjo das trevas desenhado à razão do meu desejo, aproximou-se, tocou o seio, o lábio e beijou-me. E nos golpes de nosso beijo, senti-a quente e saborosa, vasta e maliciosa, pecado em carne e volúpia, luxúria em mares de tormenta.

Olhou-me nos olhos... Nos seus vi o fim do mundo em turvas águas negras. Ali pouco restava de um brilho pálido, que morria enquanto sua língua explorava os próprios lábios desejosos, inflamáveis. Um olhar morto para carne tão viva e quente, branca como a neve, delicada como uma rosa.

Tão bela e perigosa, desejada e desejosa. Nem todos podiam ver o que sua casca escondia. Era assim, dos luxuriosos e fracos, que ela vivia. Beijava-os... e os enlouquecia. Um olhar denso, intenso, imenso... Que enganava e destruia. Que ludibriava e seduzia. Que dominava e apodrecia.

Mas de tão absurda e deliciosa súcubo pude apenas me aproveitar. Ela era tola e eu apenas um verso louco em forma de homem. Logo ela iria notar: eu não tinha alma para saciar sua fome!


*
Pedro Henrique Nogueira Penido, 27 anos, natural de Itaúna, interior de Minas Gerais. Formado em Comunicação Social - Jornalismo, escreve desde os 14 anos, tendo passado por fase de forte simbolismo associado aos elementos, à vida, à morte, guerra e outros temas que se misturavam à fantasia. A formação acadêmica deu novos nortes para o hábito de escrever, de contos e crônicas a poemas. Desde a fundação do blog VersoFractal, a poesia tornou-se não mais um espelho, mas um martelo (parafraseando Maiakovski), para contestar e forjar a realidade material (forte influência da Teoria Crítica Alemã). Desde então VersoFractal ocupou o lugar de outros blogs do autor, como o Impressões da Madrugada e o Tempus Fugere. Fortes influências do deboche literário de Bukowski e da alegoria fantástica de Tolkien. Outros autores que influenciam o material jogado em Verso Fractal são Maiakovski, Wilde, Octavio Paz, Florbela Espanca, Edgar Allan Poe e Leon Tolstoi. Alguns escritos (versos e contos) de teor político e filosófico também tem sido publicados no portal Diário Liberdade.




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12 de agosto de 2010

O adeus em uma folha " qualquer" - By Ricardo Carvalho

O adeus de uma folha “qualquer”.


*Ricardo Carvalho


Em meio a um tumulto cotidiano que lhes era indiferente naquele momento, quatro pequenas folhas preparavam-se para um ritual de partida, veriam a mais antiga e sábia das suas chegar ao seu último outono. Viam-se na estranheza de saber que deviam se despedir, já que aquele era o momento aonde todas chegavam à igualdade – pois até a mais frondosa rosa, um dia também secaria. Era a última das ironias da vida e, para muitos, a mais dura e cruel. Mas a folha, já murcha pelo tempo, olha para as suas companheiras e lhes fala docemente: minhas queridas amigas, não se entristeçam com minha partida iminente. Já sobrevivi a grandes vendavais, mas agarrar-se a arvore para sempre é um dos mistérios do tempo que para sempre nos será desconhecido eu imagino, e devemos respeitas estes desígnios, pois o que nos é dado já é muito – caso soubermos usufruir desse tanto que é o viver cada ruga do tempo – não será uma simples partida. Quero apenas que no momento em que eu me desprender da árvore desta vida, e for adubar a terra, o ar amorteça minha queda e as gotas da garoa ágüem a nova vida a qual levei toda minha existência para ser-lhe. Quiçá desta folha bem vivida nasça um carvalho ou uma flor do campo, e fique para a posteridade algo mais que uma folha seca.

Logo, a folha anciã já aproveitava uma brisa para fazer sua última dança presa a árvore, e em um balanço suave que, contagiando as três – até então – entristecidas amigas, iniciam uma ciranda no mesmo ritmo, em louvor aquela existência. Mas tão logo o ritual chegue próximo do fim, com a força do vento que aumentava, a envelhecida folha se solta do entrelaçado de galhos que se fez sua vida, e afasta-se lentamente das verdes amigas – e do tronco da vida. E as três a vêem continuar sua derradeira dança em uma queda suave, até que, levemente, ela toca o solo que a esperava com um gentil abraço.

As verdes folhas que ficaram vendo o partir da amiga, nada dizem, o silêncio tornou-se o seu canto de despedida, mas em seus pensamentos desejavam tal exemplo. Que quando o tempo de cada uma delas naquela enorme árvore se encerrasse, viajariam bailando ao toque do vento – deixando rastros de alegria e sabedoria – que serviriam de alimento às futuras vidas. Em outro tempo. Em um novo viver.


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1 de agosto de 2010

Voraz - By André Salviano

Voraz

*André Salviano


Toca de tatu, lingüiça e paio, boi zebú
Rabada com angú, rabo de saia
Naco de perú, lombo de porco com tutu
E bolo de fubá, barriga d´água


Aldir Blanc, João Bosco e Paulo Emílio



Eu queria comer tanto, mas sem engasgar, eu queria comer demais. Vivia com fome, muita fome, a terapeuta dizia que os amores light’s me fariam bem Você precisa se alimentar melhor, ela dizia. E eu querendo carne sangrando, batata frita, feijão carregado de carne salgada, pernil bem temperado: alecrim, folha de louro, pimenta do reino, limão, cominho etc. Lombo de porco com tutu, torresminho, rabada com agrião. O que acontece com essas meninas de hoje? A maioria só quer saber de fast-food, eu ficava puto!

Naquela noite eu tinha bebido muito, alucinado desci a rua da Lapa, chegando na Mem de Sá olhei pra lua: cheia, linda. Eu vazio, um trapo. Uma menina de olhos verdes se aproximou, mas pra mim eram azuis, ela disse verdes duas vezes, eu continuava vendo azuis. Cigana? Talvez quisesse me enganar, dinheiro, levar pra cama. Paramos um tempo na esquina com a Gomes Freire, duas cervejas, dois Sampoerna de menta, uma piada, dois sorrisos sem graça. Subimos até a Riachuelo, entramos no Sinuca da Lapa. Cerveja de garrafa. Porra, eu com tanta fome. No dia seguinte, por volta do meio-dia, notei que minha vida precisava mudar. Outros caminhos, andanças outras.

Mandei um foda-se pra minha terapeuta, que se dignou a dizer Você precisa de bons modos, menino! Mas eu preciso mesmo é de Amor. Com A maiúsculo, e que não me deixe morrer de fome, e que não me sacie apenas numa noite, ou duas.

Eu quero um banquete. Cansei de migalhas.


*Iguaçuano de coração, carioca por vocação. Flamenguista frequentador de Maraca, gosta do pôr-do-sol no Arpoador, de cerveja na Lapa e de Literatura na veia. Dublê de escritor, e amante da alma feminina, ensina literatura nas horas vagas. Toma iogurte de graviola sempre que pode e adora chupar manga. Laranjeiras satisfeito sorriu quando chegou ali.
Escreve todas as terças no blog http://confrariadostrouxas.blogspot.com/



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30 de julho de 2010

Eloquência - By Van Luchiari

ELOQUÊNCIA


By Van Luchiari


Fica aqui, dentro desse amor que não morre, não morre, não morre.
- Oi. Como estás?

(Aos pedaços. É uma confusão, sabe? Eu quero dizer-te que gostaria de ter, apenas por um instante, esses teus olhos que me vêem assim tão diferente do que eu sei que sou por dentro. Ou não sei. Ou não tenho. Porque eu sou só esse meu abismo buscando asas. Apenas essa fresta escancarada na pele... ferida aberta que não sara. Essa coisa em metamorfose. E essa vontade de enfiar-me numa cápsula e perder-me desse tempo que não me entende e me corrói. Me corrói, entende?

Queria dizer-te dessa imensidão mascarada que eu trago escondida sob esse véu melancólico. Dizer-te que sou profunda, mas de uma profundeza intragável, asfixiante.

Sou submersa. E não sei se um dia chegarei à superfície de mim. E assim me faço porque o silêncio me habita e sem ele eu não existo.

Acostumei-me a ser essa solidão disfarçada de alegria. Vulnerabilidade vestida de fortaleza.

Também preciso contar-te como é tão melhor o meu dia quando acordo longe de mim. Ou quando bebo café fresco ou saboreio morangos ou descubro uma música. E como me sinto viva quando deixo-me molhar pela chuva ou quando atravesso os minutos sem que nada me machuque, nem eu mesma. E como eu gosto quando não há espinhos nas coisas, nas pessoas, na vida. E dos pequenos prazeres que eu tenho nessas coisinhas diárias que cabem todas tão imensas nas minhas mãos. Entende?

Eu queria que tu soubesses dessa blindagem que eu carrego em mim. Dessa capa que me protege e envolve corpo, alma, palavras, tudo. Essa casca impenetrável com jeito invencível, mas que por dentro chora e se desmancha.

É... eu queria mesmo dizer-te que essa que você vê daí da altura dos teus olhos, é, no fundo, uma finitude. Uma substância etérea prestes a diluir-se e ser esquecida, porque nada mais é do que um mero desvio de si mesma.
Mas no fundo eu também queria pedir-te, voraz, com todo o meu silêncio: não te desvies de mim.)

- Estou bem, obrigada.




* Uma "Arteira". Cuspidora de Música e Artes.
Compositora de instrumentos, vozes, palco, luzes, canto, melancolias, pincéis, cores, design, asas, cavernas, tintas, fotografia, sinfonias, melodias, rimas, prosa, versos, telas, imaginação, abismos, tempestades, morangos, raios, artes, decoração, mão-na-massa, blogs, poesias, escritos, sonhos, quereres...
Observadora de Estrelas, de olhos, de almas, de percepção, de profundidades, de Picassos, Matisses, Mirós...
Fazedora de artes, encantamentos, balangandãs, amores, beijos, sorrisos, drinks, mordidas, provocações, manias, ilusões...
Equilibrista de distâncias, palavras, letras nas máquinas de escrever, aprendizados, sentimentos, paixões, êxtases, orgasmos, borboletas, cristais, ventanias, cordas, pés descalços, nudez, erotismos, teias e baratos afins...
E depois de tudo, um fim.
Escreve no blog http://vanluchi.blogspot.com/





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24 de julho de 2010

Da canção do fim para o começo possível - By Talita Prates

Da canção do fim para o começo possível
*Talita Prates


Ouve, meu amor


: eis que a Vida quis inaugurar em mim uma nova vida – e eu me assustei com a novidade. Preciso do tempo para fazer com que esse novo fique conhecido e um pouco gasto e eu possa olhá-lo com menos estranheza, e para isso é imprescindível certa dose de solidão.


: nessa busca pungente e vital que tenho empreendido pela minha verdade, descobri que padeço do desconhecido do amor – só sei dele o que minha fantasia foi capaz de inventar. No mais, só tive pistas. E descobrir que até hoje eu só havia inventado o amor me desesperou – é como ter vertido dor em vão, ter saudade do que nunca foi - um desperdício da vida (que é o grande pecado).


Mas agora houve a mudança, meu amor (?), e ela veio de onde eu menos esperava – de dentro do mim (no mim existem coisas que o eu desconhece).
Eu, até aí tão inflexível na estrutura, ousei desconstruir tanta coisa, ousei colocar a casa abaixo e visitar o vazio da ausência dos pontos de apoio. Questionei os dogmas que embalavam minha bonança e minha vida segura. Para que?, você se pergunta... Para poder me reerguer sozinha e nova e sã e livre. Li-vre.
E te confesso (como é bom te confessar o que está além da minha nudez óbvia!) que tais descobertas me foram possíveis graças ao desnudamento da própria realidade (aalétheia tão desejada?): os sonhos estão acordando, as expectativas vestem trajes mais transparentes e a fantasia tem se me apresentado como exceção, não mais a regra.


O que eu quero? Eu desejo que o nosso amor (e a própria Vida) seja possível e tangível, sem fábula ou expectativas de perfeição. Não faço questão de alardes, mas de clareza. É esse o meu desejo. Ainda que para isso a gente tenha que inventar o fim: para que o começo seja real.
É preciso reinaugurar a nossa história.


(Não sei se o que vou te dizer é invenção, mas: eu te amo. Se o amor fosse uma escolha, eu escolheria te amar.)


*27 anos, psicóloga, estudante de filosofia, aspirante a poetisa, nasceu e vive em Cajuru/SP. Historiadora íntima em http://historiadaminhaalma.blogspot.com/



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20 de julho de 2010

Motivos para odiar uma Mariazinha - By Flávia Queiroz

Motivos para odiar uma Mariazinha
* Flávia Queiroz


Mariazinhas... Desde pequena as encontro por aí: aliciantes e astutas. Tem a perversa mania de aparecer na hora errada. Falam com leveza e simpatia, são espertas, às vezes bonitas e sempre odiosas.
Pois é, admito que sou daquelas pessoas passionais e suscetíveis. Tudo me tange. Leonina, ciumenta e passional. Uma junção explosiva.
Não gosto de quase nada. Mas tenho a terrível necessidade de me sentir amada por tudo o que desperta meu querer.
Aí elas aparecem: as Mariazinhas. Muitas se chamam Joana, Natália, Juliana ou sei lá mais o quê... Mas todas são Mariazinhas!
Aquele tipo de garota que compete sem anunciar batalha (as piores!). Ligam no celular dele quando a gente tá discutindo relação ou fazendo as pazes, esbarram "por acaso" e começam papos intermináveis dos quais não faço nem ideia. Mandam recados carinhosos e dúbios. Me enlouquecem e ainda são vítimas.
É provável que eu também já tenha sido uma Mariazinha na vida de alguma Flávia por aí. Mariazinhas são inimigos disfarçados em pele de pêssego e com olhos brilhantes. Tem voz suave, e pelo menos por um instante, balançam o coração do cara que a gente gosta.
Pois é, a culpa é sempre delas! Afinal, “ele” é só uma peça... Nunca faria por mal... O cara de quem se gosta é sempre o príncipe encantado, mesmo que caia do cavalo branco enquanto cavalga ou que não tenha um reino.
Ele me ama! Mesmo que olhe pra alguma maldita Mariazinha por aí, ou fale com ela do jeito que eu gostaria que falasse comigo. Ele é perfeito e cheio de imperfeições (mas isso é outra história, talvez com o título de "Joãozinho").


*Vinte e três anos de acidez e romantismo. Viciada em finais felizes e avessa ao sentido literal das coisas. Publicitária por formação e quase-escritora por vocação. A caneta é a extensão da minha personalidade e as palavras desenhadas são meu auto retrato.
@flahqueiroz
http://www.relicariovazio.blogspot.com/
http://www.confrariadostrouxas.blogspot.com/
http://www.papoderomeuejulieta.blogspot.com/

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18 de julho de 2010

É sempre assim - By Denison Mendes

É sempre assim

* Denison Mendes

Acordo pela manhã e ela está ali, desesparramada, suspensa do chão. Levanto. No descaminho do banheiro tropeço em calça, sapatos, bolsa, látex, batom, brinco, bugigangas, garrafas, cinzeiro, baganas. O despertar do espelho espreguiça um olhar nada bom. Noto uma pequena rachadura no canto direito, acima. Nada de mais. Não vai precisar pontos, eu acho. Bom, isso é coisa que não se comenta.

Revolto. Dorme ainda. Sento. Santa folha em branco, o preto a libertará da anemia. Doença grave para quem escreve. Cometo com um anão e anoréxico lápis.




Regressa a graça minha

Ó, musa de mileumanoitescas fantasias

Teu palácio ainda é oco

Tua catedral ainda é eco

Tua taba ainda é oca

Veste a nossa quimera de outrora

Dentro de mim ainda há a espera

Agora

Vem na primeira nuvem desnudada

Dá-me meu castigo

Não da pedra nem da perda

Prenda-me em teus abraços

Lassos e de laços

Líquidos inebriantes

Eu grito

Volta
...
Rascunhei-me ali naquela alva e muda página. Estas letras e palavras entrecortadas por espaços e pausas são lágrimas a ensanguentar a minha não mais adormecida dor. Oh! mundo de cruel, digo entre risos.

Ela acorda. Cheirando a anteontem para lá de trás dos montes. Bom, você sabe isso...

Abraçou-me e beijou minha boca com gosto de madrugada vencida e eu já com sabor de tédio. Desvencilhei-me dela como quem diz: não quero me aquerenciar agora. Ela entendeu, contrariada. Não levei a sério, mulher está sempre contrariada.

Depois desta cena memorável de afeto, mostrei-lhe o que havia escrito. Ela olhou, leu, releu, benzeu e professoral anunciou: não entendi nada!

Pô, não ri!

E continuou: mas está maravilhoso, meu amorzinho querido. És um gênio.

Viu? Eu disse para não rir.


Depois disso, fizemos amor selvagem como se estivéssemos na savana africana. E depois do depois disso, liguei para a Ritinha e mandei ela à merda. E queimei o poema que fiz para ela, sob um olhar incrédulo, da paisagem escultural de mármore sobre a cama.


*Denison Mendes, 39 anos, jornalista em formação antropossociológica e política. Um indivíduo do seleto grupo dos comuns em meio a celebridades de raridades instantâneas. De uma cosmoprovíncia, a pintar em português.

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25 de abril de 2010

Regresso Feliz (?) By Camila Passatuto


Regresso Feliz (?)



* Camila Passatuto


Entrei, cinco passos frios, um olhar infantil, uma arquibancada vazia, um lugar iluminado, o saco de pipoca na mão, três segundos de escuridão, uma música envolvente e temerosa.
Não, não sou feliz, é essa maquiagem que ilude e me esconde.
A bailarina se foi e o palhaço trancado no camarim, a criança esperando um alegre espetáculo.

Não, não há ninguém para fazer rir, apenas um garoto solitário, não vou me apresentar hoje.
O palhaço, o homem maquiado de felicidade, traz consigo a dor de um dia escuro e mal resolvido, seu olhar é raso e seu coração muito machucado.
Devorei a pipoca, a música envolvente parou, o momento era aquele, ouvi passos largos, fechei os olhos, queria uma surpresa, abro os olhos e me assusto.
Desculpe o palhaço não vai se apresentar hoje garoto vá embora vá brincar com as outras crianças.
Abaixei a cabeça e sai pensativo, sabia que aquele olhar não me era estranho, mas o palhaço deveria não estar animado para me fazer feliz. Corri para casa e nunca mais acreditei na magia daquele lugar.
Como pude ser tão cruel com a minha única platéia, mas não podia continuar a encenar a gloriosa felicidade.
O palhaço e o menino. Mal sabiam eles que o que buscavam e o que renunciavam machucava um ao outro. Mal sabiam que eram a mesma pessoa...


* Escreve no blog Outra Máscara

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9 de outubro de 2009

"Eu, o estudo e o tempo de tudo" & "Wanessa" - By Eduardo Manciolli

Eu, o estudo e o tempo de tudo

*Eduardo Manciolli

Eu, o estudo e o tempo de tudo
A fome e o verso no estudo
O tempo que assombra esse muro
Me veste, me rasga e impele as grades do mudo


Me rendo as raízes do fruto,
Raízes do tempo que assolam meu mundo
Tempo, que com pompa, joga no escuro
Me assemelha, o vento, em dunas, e em tudo


Eu o tempo, do acento, no intento do obscuro
Que o invento não me cai e se quer posso-te em lume


Eu, o tempo do Invento
Eu, o soneto imperfeito
Eu, a obra incompreensível


Eu, a morte do saber, em verdades absolutas
O cego fascinado pelo ópio que lhe rega
Brinquedo, do atento sedento


Wanessa

*Eduardo Manciolli

As vezes o tempo avança e retrocede, as vezes o tempo para e se torna insuportavelmente infeliz, as vezes o tempo sucumbe e a vida se torna instável e inconstante, as vezes tudo que queremos é apertar o pause rebobinar a fita e apagar completamente todas as lembranças , cheiros e fotos, antes mesmo de tentar entender o que aconteceu, ou porque aconteceu, simplesmente voltar ao ponto onde tudo começou, mas desta vez antes de te olhar e me apaixonar perdidamente eu diria não a mim mesmo, não ao conforto de amar alguém especial, não por não te desejar mais ou qualquer tipo de magoa, e sim para não viver mais longe de você, eu apagaria toda e qualquer substancia retrátil de você.


* Eduardo Manciolli, é autor da Editora Novitas e tem no prelo o livro "Petrus".Nascido no interior de Mato Grosso, Barra do Garças, ludibriado com a grandeza das serras e parques temáticos, onde minha única alegria quando criança era jogar bola descalço no asfalto de pedras ponte agudas, na porta de casa, ficava tentando imaginar o que seria quando crescer e sempre me frustrava porque sempre alguém era o bombeiro, o policial, o ator, cowboy, o medico, mocinho ou bandido, eu era no maximo o “libero” como num time de vôlei, a única coisa que eu conseguia imaginar era “fazer algo”, todo mundo tinha um sonho, todo mundo sempre tinha a resposta na ponta da língua e eu sempre engasgava, tentando la no fundo me identificar com algo e nada me vinha, afinal que bosta de sonho de criança era esse “fazer algo”, tinha sonhos grandes e completamente robustos, sem fundo nem causa, sempre a espera de uma mensagem, esperando um “Mensageiro” bater a minha porta um dia e dizer, “Eduardo Manciolli eu vim aqui para te trazer a luz do esclarecimento”. Os anos se passavam a porta envelhecia, as roupas já não me serviam, os endereços mudavam constantemente, neste momento a saudade de meu pai “morto por si mesmo” so aumentava, eu me agarrava a paredes gelatinosas esperando encontrar um amigo, um homem mais velho para me espelhar, o tempo passava e minhas expectativas desmoronavam mais rápido do que um castelo de cartas. Passei de escola em escola completamente perdido e ausente, com momentos de extrema euforia e outros que “nem sei”. Aos 11 anos de idade senti minha infância escapando pelos dedos, dia 22 de maio de 1995 começava inicio da minha vida capitalista meu primeiro trabalho, minha busca continuava de emprego em emprego das áreas mais variadas tentando me encontrar, percebi com vivencia e maturidade que todos começam a pensar no próximo em algum momento da vida, não era mais so o “fazer algo”, comecei a refletir e o “fazer algo” se tornou “fazer algo pelo próximo”, o tempo passou, as bocas continuavam abertas como passarinhos no ninho a espera da mãe que lhe trás a comida regurgitada, a insatisfação e a cobrança pelo mundo, começava a tomar conta de mim novamente, ajudava sempre, mas a boca nunca cansava de pedir, comecei a imaginar tais pessoas como robôs semi programados para comer e exercer tarefas “mono-sintomáticas”, o ser humano tem que ter algo alem de comida, o ser humano precisava de sustentação, de embasamento mais profundo de si mesmo algo muito alem de comida, decidi devorar a Filosofia, afinal os filósofos poderiam me dar uma resposta, devorei todos os grandes filósofos e pensadores do passado, Platão, Nietzsche, Voltaire, Kant, Jung, Freud, Marx, meus horizontes se expandiram assustadoramente, minha percepção de vida já não era mais a mesma, quando achei que era por demais inteligente, com 19 anos de idade me tornei um velho de 70 anos caxias e de pensamento complexo, devastado por ideologias de inúmeros pensadores, não tinha nenhum rastro de pensamento próprio, uma pessoa sem descobrir a sua própria verdade é como um saco vazio que flutua no vento, sem peso nem causa apenas segue o vento, então Nietzsche único filosofo que não penteava seus cabelos do saco, me deu a luz, eu tinha que matar tudo, ate a mim mesmo, para realmente existir, queimei todo amor próprio, acabei com todos os paradigmas aos quais me recostava desde o berço. Continuei ajudando, o córtex frontal estava completo, mas ainda faltava algo, a alma dessas pessoas continuava esquálida e morta, descobri que a frase mais clichê de todos os tempos tinha algum fundo de verdade “nem só de pão vive o homem”. Então para encontrar respostas enveredei por caminhos que eu nem imaginava, mas eu nunca mais seria o mesmo, estudei todas as ciências, estudei todas as religiões e seitas existentes no mundo, pilhas e pilhas de papeis impressos para todos os lados da minha casa mais de 30.000 paginas estudadas e testadas minuciosamente, Física Quântica, Cabala, Gnose, Espiritismo, Magia Branca, Magia Negra, Candomblé, Cristianismo, Satanismo, Budismo, UDV, eu precisava de uma resposta eu precisava da cura, eu precisava de um remédio, eu precisava de uma “verdade”, penetrei tão fundo, busquei tão longe, vi as cores vivas do universo tão próximo que me achei mágico, no fim nenhuma seita, ciência, religião, tinha uma “verdade”, eram apenas uma junção de coisas e copias delas mesmas, em cada escritura era apenas o grito da alma aprisionada numa “lata” bem decorada, todas as religiões buscavam tão longe uma coisa e nunca perceberam que o grito que eles ouvem é o de sua própria alma querendo despertar, mas todos nós aprendemos desde cedo a imaginar que a cura estava fora, bem longe num céu de diamantes e Deusas gostosas e seminuas.Voltei ao meu ninho, e as pessoas continuavam ali com as bocas abertas esperando meu material regurgitado, cai de joelhos em meio a eles exausto, sem comida, sem filosofia para guiá-los, sem a verdade que poderia desperta-las, e com problemas mentais dos mais diversos causados pelas experiências míticas que passei e que poucos seres humanos na terra podem imaginar que existam. Procurei “dentro”, procurei “fora”, procurei em todos os lugares uma só verdade, e estava ali no meu ninho exausto e a dor mais forte que me perturbava, era que “não existiam verdades”, o que eu faria agora? Qual esperança eu lhes daria, precisava ao menos de um analgésico ou palavra de esperança pra eles porque eu não via nada alem de minha própria escalada.Eles começaram a se aproximar de mim, me abraçaram forte, e eu desmontei a chorar, a fome havia passado há muitos anos, o “fazer algo” e “fazer algo pelo próximo”, virou “Transformar”, “Transcender” e “Evoluir” percebi isso quando me olharam profundamente nos olhos, pude ver la no fundo a minha dor translucida em suas próprias almas, eles me estenderam as mãos e me deram abrigo. “Dormi” por muitos e muitos meses ate me recompor, a busca havia acabado e assim toda minha força e estabilidade também. Acordei aos 26 anos de idade afundado em depressão, escombros e dores que adquiri, me arrastei ate o banheiro, me escorei na pia, olhei no espelho e ali estava alguém que eu ainda não tinha visto, alguém que eu esperava desde criança bater a minha porta, tantas casas, tantas ruas, tantas moradas, esperei tanto tempo por este dia e achei que nunca iria encontrá-lo, e ai ali estava ele na minha frente tão próximo, era ele o “Mensageiro”, então descobri era EU o mensageiro que eu esperei a vida toda encontrar, era eu o mensageiro da transformação, era eu o Escritor. Enfim eu havia me encontrado

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25 de setembro de 2009

As Letras - By Cristiano Melo

As Letras

*Cristiano Melo

A letra A, orgulhosa por ser um artigo definido que ao indicar a si mesma, vira uma poesia concreta, dialogava com outra letra que se orgulha por também gerar a mesma situação: O artigo O.
-Tenho certeza que sou mais utilizada, pois defino os substantivos de gênero feminino.
-De que adianta ser mais utilizada se eu defino os substantivos masculinos e, assim, tenho mais poder...
-Poder? Ora, faça-me o favor, isso é machismo...
-Machismo? Não! Sou realista e depois machista é você!
-Você quem disse determinar gêneros primeiro que eu...
-Ah que ladainha mais sem futuro, sou a A, começo do alfabeto e você é só o O!
-Por que sou só o O?
-Porque tá lá no meio do alfabeto...
-Mas nós dois juntos, somos os artigos definidos, você não é melhor que eu.
-Bem, podemos discutir quem é mais importante se quiser, e eu lhe provo.
-Ai que preguiça!
-É sempre assim, chamo para discutir e você foge...
-Não sou casado com você minha filha, deixa de ser chata.
-Casados? Não mesmo. Sou simplesmente melhor que você.
-Ai ai... Como é que uma letra se sente melhor que outra?
-Peraí, não traga os artigos indefinidos pra essa conversa.
-?
-Não sou “uma” letra, sou “A” letra.
-Desisto, sabe... Você é muito egocêntrica, vai lá pro começo do alfabeto vai, que é que tá fazendo por aqui no meio?
-Volto já, só quero que me dê razão?
-Dar-lhe razão? Você é chata, egocêntrica e louca...
-Sou não, ó!
-E não leva meu nome em vão!
-Mas...
-Volte já pro seu canto, o escritor já vai começar a nos agrupar.
-Quem disse que é um escritor e não uma escritora?
-Ai ai, honestamente, você já me tirou do sério, se não fosse do gênero feminino...
-Que iria fazer? Bater-me? Seu gordinho... Sua bolinha!
-Ora, não me provoque, sua pernuda.
-É tenho pernas mesmo e posso lhe esmagar.
-Chega, vou rolar em cima de você.
-Vem, seu gordo!
E a guerra dos sexos entre as letras A e O continuava, e das suas brigas violentas, surgiram manifestações de todo o alfabeto que até então estavam calados e pasmos, houve quem concordasse com A ou com O, e o alfabeto todo começou a brigar. Desta briga surge então mais um escrito, uma estória, que foi contada e recontada ao longo de eras, sobre as letras que iniciaram uma batalha, mas findaram em paz, talhadas num papel, conjugadas com as outras letras e acabou por inspirar um conto ao escritor que a tudo presenciou, na leitura quase audível desta confusão, no seu hábito de ler.
Nesse instante, sua mulher acordou e começou a argumentar que ele não fazia nada além de ler e escrever e que viajava muito no mundo das letras, que precisavam ser mais objetivos para poder viver no mundo real. Começou então uma nova discussão. E a guerra foi ouvida no mundo das letras, saíram então os mediadores, imbuídos de trazer paz a esta estória entre os mundos, literário e humano, as letras F, I e M.

*Cristiano Melo é um dos 15 autores da II Coletânea Scriptus - A Livre Escrita e tem no prelo o livro Braços Abertos.

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24 de julho de 2009

Deus é em mim - Autoria de Marcos de Andrade

Deus é em mim



* Marcos de Andrade


Eu sinto em meu corpo,
Em cada poro, cada átomo, molécula e n'alma,
A dor dos aflitos, o cheiro das flores, o gosto da chuva, o toque da pele;

Eu ouço em uníssono,
A melodia do amor, cantada pelos poetas e os seus seguidores,
A cada nuvem que passa; Eu vibro com as massas e com o vento viajo;
Às vezes sou homem e invejo; sou fraco e reclamo; sou corpo e sangro.

Eu vejo e meu ser todo estremece ante o orvalho que chora;
A mãe que implora ao filho - não vá;
Aos gritos do horror da guerra;
Aos desgarrados da terra, que gemem de fome e morrem aos borbotões.

Eu rezo.

Sim, eu rezo a cada lágrima - fraca - que cai e a que teima em ficar;
A cada passo e tropeço que teimo em dar;
A cada beijo que recebo e transmito.

Meu corpo, meu espírito, minha vida não são meus.

Meus sonhos, minhas fibras, meus ais se vão.

O amor fica.

Deus é em mim e quem me derrubará?


DEUS É EM MIM E QUEM ME DERRUBARÁ?




* Nasci na cidade de Marau, interior do Estado do Rio Grande do Sul, no dia 21 de julho. Sempre tive gosto pela escrita, mas no início eram poesias (pelo menos era o que eu achava).
Depois descobri o violão e sonhava em ser cantor, compondo músicas logo às primeiras notas aprendidas. Gostava muito de desenhar, mas não desenvolvi este dom, apesar de ter sido bom copista. Mas o tempo passou. Eu aprendi a tocar, mas minha voz... É melhor nem falar!
Então em um dia, quando o orvalho do tempo já descoloria meus cabelos, descobri que eu nunca seria cantor (a voz, sabe...) e não tinha mais as mãos leves para desenhar como antes. Redescobri então a escrita. Voltei a escrever poesias. Descobri o miniconto e outros gêneros que nem conhecia e entrei no mundo da web. Participei então da I Coletânea Scriptus – Balaio de Idéias, da Editora Novitas. Depois, fui convidado a participar da Antologia Nacional de Poesias – Mares Diversos, Mar de Versos, da Editora Pensata. Fiquei empolgado, pois a estas alturas, com quase vinte anos de funcionalismo público, eu já havia escrito três pequenos livros e estava escrevendo outros sete.
Bueno tchê, o "causo" é que agora estou participando da II Coletânea Scriptus – A Livre Escrita, também da Editora Novitas e da I Coletânea de Poesias – O Melhor da Web, da Usina de Letras Editora em comunhão de esforços com o site O Melhor da Web.




*Marcos, é um dos autores da II Coletânea Scriptus - A Livre Escrita e autor da Editora Novitas. Tem no prelo o livro infantil " Meleca, a bruxinha sapeca".



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