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6 de junho de 2011

Almas e Beijos no Pouso do Absurdo - by Pedro Penido

Almas e Beijos no Pouso do Absurdo

*Pedro Penido

Atravessei milhares de distâncias e eras até chegar a este boteco, na Estrada do Horizonte, em meio aos Ermos de Além Mais. Um lugar que reúne loucos e absurdos, bêbados e infames, em torno da mesma roda de tragos e doses, onde a própria Trama é tecida, traço a traço, alucinadamente.

O nome do lugar? Pouso do Absurdo! Reconfortante, não?

E sempre, acredite, me senti extremamente à vontade entre os que, como eu, estavam inundados de implosões, receios, medos e pecados. Ali, no meio do nada, por entre aqueles que até mesmo o Tempo evitava ou desconhecia, eu me sentia completamente aceito, justamente por poder criar e sorver meu manto de sombras e ainda gargalhar à vontade.

E foi numa noite fria, de temporal, que, feito anjo caído do céu, a mulher que escravizaria todas as almas daquele lugar, instantes depois, apareceu.

Lembro-me de uma guitarra flamejante e sutil desenhando suas curvas ardentes. Lembro-me de tragos finos e desmemoriados traçando seu olhar. E lembro-me também de escorrer veneno doce de seus lábios vermelhos e suculentos.

Ah... Que mal maior poderia haver? E por que evitá-lo? Males tão grandes assim devem ser assimilados, experimentados, levados ao limite! Em temporal todo verso é perigoso. Eu sabia disso... E, sinceramente, desejava isso. E foi então que ela, um anjo das trevas desenhado à razão do meu desejo, aproximou-se, tocou o seio, o lábio e beijou-me. E nos golpes de nosso beijo, senti-a quente e saborosa, vasta e maliciosa, pecado em carne e volúpia, luxúria em mares de tormenta.

Olhou-me nos olhos... Nos seus vi o fim do mundo em turvas águas negras. Ali pouco restava de um brilho pálido, que morria enquanto sua língua explorava os próprios lábios desejosos, inflamáveis. Um olhar morto para carne tão viva e quente, branca como a neve, delicada como uma rosa.

Tão bela e perigosa, desejada e desejosa. Nem todos podiam ver o que sua casca escondia. Era assim, dos luxuriosos e fracos, que ela vivia. Beijava-os... e os enlouquecia. Um olhar denso, intenso, imenso... Que enganava e destruia. Que ludibriava e seduzia. Que dominava e apodrecia.

Mas de tão absurda e deliciosa súcubo pude apenas me aproveitar. Ela era tola e eu apenas um verso louco em forma de homem. Logo ela iria notar: eu não tinha alma para saciar sua fome!


*
Pedro Henrique Nogueira Penido, 27 anos, natural de Itaúna, interior de Minas Gerais. Formado em Comunicação Social - Jornalismo, escreve desde os 14 anos, tendo passado por fase de forte simbolismo associado aos elementos, à vida, à morte, guerra e outros temas que se misturavam à fantasia. A formação acadêmica deu novos nortes para o hábito de escrever, de contos e crônicas a poemas. Desde a fundação do blog VersoFractal, a poesia tornou-se não mais um espelho, mas um martelo (parafraseando Maiakovski), para contestar e forjar a realidade material (forte influência da Teoria Crítica Alemã). Desde então VersoFractal ocupou o lugar de outros blogs do autor, como o Impressões da Madrugada e o Tempus Fugere. Fortes influências do deboche literário de Bukowski e da alegoria fantástica de Tolkien. Outros autores que influenciam o material jogado em Verso Fractal são Maiakovski, Wilde, Octavio Paz, Florbela Espanca, Edgar Allan Poe e Leon Tolstoi. Alguns escritos (versos e contos) de teor político e filosófico também tem sido publicados no portal Diário Liberdade.




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31 de maio de 2011

Pelo direito de ser gorda!

Pelo direito de ser gorda

by *Renata Arruda



Eu sempre tive amigas gordinhas, que vivem reclamando do seu peso. A maldita barriga é a campeã de reclamações. Na realidade, eu nunca entendia direito qual era o problema. Estavam sempre saudáveis, bonitas, eram cobiçadas, tinham vaidade. Por quê diabos a peocupação exagerada em emagrecer?

Lógico, pra mim era fácil pensar assim, nunca precisei fazer dieta, sempre fui magra "de ruim". Até que a depressão me fez tomar remédios que abriam o apetite e engordei mais de 13 quilos em dois meses. O mais engraçado é que a pessoa que eu mais admiro, de longe, a Alanis também começou a ficar cheinha, com braças enormes e começou a falar sobre a pressão que existe em L.A. para as pessoas estarem sempre magras. E aí eu comecei a compreender.

O grande problema não é o peso em si, mas a pressão. Eu também não estou feliz com meu braço e com a minha barriga, eu fico horrorizada, pq não estou acostumada, cada vez que reparo no espelho. Como pode crescer tanto? Eu reclamo o tempo todo, faço piadas, mas e a atitude? Não tomo nenhuma. Porque isso não me incomoda na realidade. Não faz eu me sentir pior perante as outras, não faz eu me sentir unsexy. Pelo contrário, até percebi que as cantadas na rua aumentaram. Apesar do braço e da barriga. Eu olho meu rosto e acho mais saudável, eu acho engraçado estar cheinha, nunca estive assim na minha vida. Antes eu tinha aparência frágil de doente. Eu gosto dos seios terem crescido, da perna roliça. Eu não sinto necessidade de usar roupas largas pra tentar disfarçar, eu me sinto bem como eu estou. O grande problema é que parece que eu não tenho esse direito. As pessoas parece que se transformaram. Gente que eu nunca vi se preocupar com corpo e aparência na vida começa a falar "meu deus, não quero isso pra mim", as pessoas parecem horrorizadas, todo mundo dá milhões de dicas de dietas, manda fazer exercício, manda fechar a boca, isso e aquilo. Ninguém leva em consideração que eu não quero nada disso, que eu me sinto bem da maneira q estou. Que não adianta minha mãe dizer que eu estou com uma "pança horrível", vou continuar usando ribanas e sentando sem o menor pudor da barriga aparecer. É uma pressão gigantesca para ser magra, como se ser gorda fosse alguma aberração. Me tratam como se eu fosse uma coitada, mesmo eu não concordando com nada disso. Mesmo eu me negando a cortar meu prazer de comer o que quiser em vez de passar a vida comendo biscoito de água e sal. Mesmo eu passando horas lendo ou vendo filme, porque isso me faz bem como ser intelectual, em vez de passar horas malhando em academia.

Eu acho que as pessoas deveriam deixar mais as outras serem como são e como querem ser. A pressão para ser magra e "bonita" é muito grande, vem até quando você não está se sentindo feia e nem desconfortável. Pegam pesado, chamam de desleixo, como se se manter magra fosse alguma obrigação a se manter na vida. Como se precisasse realmente disso para ser feliz.

Eu sigo minha vida de mais nova gordinha do pedaço, infelizmente com a barriga grande, mas estou saudável, estou feliz e minha vida sexual vai muito, bem, obrigada.

E sigo esperando que as pessoas me deixem ter o direito de ser feliz assim.



*Renata Arruda é escritora nas horas vagas. Mãe em tempo integral. Estudando quando dá!

Blog: http://mardemarmore.blogspot.com
twitter: @renata_arruda

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18 de abril de 2011

Muita areia pro meu caminhão - By Drika Sanchez

Muita areia pro meu caminhão

*Drika Sanchez


Uma das minhas promessas de 2009 era que todo mês eu me daria um presente. Seja uma bijouteria de 1,99 ou 4 livros de uma vez, como foi este mês de abril. Comprei 2 livros de Clarice, um de Veríssimo e um de Martha Medeiros.

Hoje, lendo Doidas e Santas, de Martha Medeiros (L&PM Editores) tive várias inspirações. No entanto, uma delas me fez levantar do meu quarto para postar. Trata-se da crônica "O Cartão".

Nela, conta-se uma situação em que Martha teria recebido um cartão romântico daquele moço que nunca, nem em cinco gerações evolutivas, olharia para ela. Desconfiada, ligou para todas as amigas reclamando do trote, e sim, todas negaram. Ela passou tempos imaginando quem teria feito aquele trote de mau gosto com seu coraçãozinho derretido. E claro, tempos depois, o moço inalcançável a encontrou pela rua e perguntou se ela havia recebido o cartão. Constrangida por não ter acreditado nessa hipótese improvável de receber algo romantico daquele "sonho de consumo", ela simplesmente respondeu: "Que cartão?" E assim ele mandou um "Deixa pra lá" e nada aconteceu.

Lembrei exatamente que já senti isso diversas vezes. Para que alimentar ilusões com aquele rapaz? Muita areia para meu caminhãozinho bambo. Lembrei de um grande amor que tive aos 17 anos. Sim, ele era lindo. Mais do que lindo, ele era perfeito. Tudo que sonhei e imaginei que um ser humano masculino bípede poderia ser. Rafael era o meu inalcançável. Mas esperem aí... ele estava olhando pra mim? Não, mentira. Ele nunca olharia para mim, a não ser se estivesse vestida de vaquinha do Toddy num show promocional. Mas sim, ele estava. E ficou comigo. E chegou em casa dizendo para a mãe que tinha conhecido uma menina linda e inteligente. E eu achando que sabia fingir para ser boa o bastante para ele.

Toda vez que saíamos, eu tinha a nítida impressão que todas as meninas pensavam e diziam entre si: "O que aquele "deus" estava fazendo com aquela gordinha? Aí me sentia triste. Depois me sentia orgulhosa. Depois sentia pena dele por namorar comigo. Ele merecia alguém a altura. Fiquei paranóica. Se ele dissesse que iria na padaria, era por certo que iria me trair. Qualquer caixa de padaria era mais bonita e atraente que eu. Por certo, aquela moça da locadora combinava mais com ele. E minha auto estima foi-se esvaindo...

Cansado dessa doença, ele terminou comigo. Uma semana depois da nossa "primeira vez". Aliás, nossa não, da minha. Eu nem queria, mas ele era tão bonito, e as outras poderiam querer... E cedi. E me arrependi. E chorei. E ele se cansou. Estava certo, eu era insuportavelmente feia para ele. Concordei com a decisão. E ele me aconselhou um sanatório. Com aquele cabelo lindo e aquela voz mole. Ai ai...

O fato é que não existe inalcançáveis. Criamos personagens e fazemos deles a história que queremos. Rafael era chato pacas, falava errado, discordava com tudo e só dizia que mulher dele não iria trabalhar. Ninguém suportava ele, e ao contrário do que minha imaginação ouvia, os comentários das meninas era "como Cafeína aguenta esse mala?". Eu criei Rafael e fiz dele toneladas de areia. Eu olhei para o espelho, e fiz do meu caminhão, um fusca sem motor.

Hoje vejo as fotos daquela época e fixando nos meu olhos vejo a angustia que eu sentia. Eu não entendia porque o mundo todo não o amava como eu o amava. E não entendia porque o mundo inteiro não o achava tão perfeito quanto eu o achava. E passei meses tentando provar ao mundo todo que eu estava certa. Até que o mundo me provou que o erro estava no meu espelho e não no peso do baldinho de areia dele. Não existe alguém melhor ou pior para ninguém. Existe química, existe amor, existe sexo, existe amizade... o resto é perfumaria.

* Bacharel em direito e escritora. Escreve nos blogs www.bebendo.com.br e http://drikasanchez.blogspot.com twitter: http://twitter.com/drikasanchez_



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