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19 de dezembro de 2011

Revista Cultural Novitas - 13


Participantes dessa Edição:

1 - Editorial - David Nobrega

2 - Filosofia de boteco - Coluna do Haroldo

3 - Cassiano Ricardo e a poética negligenciada - Álisson da Hora

4 - Poesias - Deivis J. F. Coelho, Lucas Poeta, Maya Quaresma, Rodrigo Menezes, Ianê Mello, Ariane Ferrão, André Anlub e Cristiano Melo

5 - Entrevista: Tonho Crocco

6 - Contos - Difran Melo Franca 

7- Entrevista - Thalita Rebouças

8 - Fotografia - Fernanda Cid

9 - Pela Democratização da Palavra - Monica Saraiva

10 - Contos - Flávia Queiroz, Diego Coelho

11 - Medo de avião - Klycia Fontenele

12 - Luis Delcides e Música sólida

13 - Previsões 2012 - zodíaco

14 - "Meu primo disse que no futuro a internet será bastante utilizada. Tu acreditas que ele faz amigos na internet? " - Letícia Losekann Coelho

 - Antes de ler a Revista Cultural Novitas-13 , conheça os anunciantes clicando no link http://revistasnovitas.com.br/2011/12/revista-cultural-novitas-no-13-anunciantes/

Você pode ler a Revista Cultural diretamente no site http://revistasnovitas.com.br/  ou abaixo folhear no Calaméo

Adquira a versão impressa da Revista Cultural Novitas enviando e-mail para contato@editoranovitas.com.br 

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26 de agosto de 2011

O crânio e o vinho - By André Victtor

O Crânio e o Vinho Tinto

*by André Victtor

“ Há muitos e muitos anos atrás, numa tarde de sábado em pleno inverno, fui convidado por dois amigos para participar de uma reunião caseira na casa de um deles, onde lá nos esperava um delicioso vinho tinto regional. Pra ser mais exato, um garrafãozinho desses de 5 litros, pertencendo a uma safra especial estocada em barris de carvalho aqui das nossas redondezas, ou melhor, aqui do Sul de Minas Gerais.

Como o meu amigo naquela época era comerciante, acabou ganhando esse garrafão de seu cliente que o presenteou ainda naquele dia.

Estávamos todos então sentados no sofá da sala, saboreando aquele delicioso vinho e comendo um queijo da Serra da Canastra, onde conversávamos sobre tudo um pouco. Éramos ainda estudantes do ginásio naquela época. Esse meu amigo sempre gostava de conseguir coisas interessantes para poder mostrá-las aos demais, como por exemplo estatuetas, artesanatos, instrumentos musicais, etc.

De propósito naquele dia, ele havia deixado em cima de uma mesinha no canto de sua sala, um crânio verdadeiro, ou melhor, uma cabeça de caveira de esqueleto humano. Perguntamos à ele onde conseguiu arrumar aquilo e ele nos disse que conseguiu com muito custo. Foi ficando amigo aos poucos do coveiro da cidade onde ele morou pela última vez e com o tempo convenceu esse coveiro que precisava de um crânio para levar na feira de ciências da sua escola, que aconteceria no próximo mês naquela época e que era somente emprestado por alguns dias, depois ele o devolvia.

O coveiro na sua simplicidade, disse à ele que assim que houvesse uma limpeza de um túmulo de indigente, talvez poderia conseguir sim, esse tal crânio para ele. Mas era somente por alguns dias. Meu amigo ainda ofertou ao coveiro, uma pequena quantia em dinheiro para que o mesmo não esquecesse dele quando fosse fazer aquela limpeza dos restos mortais de algum indigente. Assim ele disse, embora fosse um pouco 'papudo', ele também era muito gente boa e confiável.

Bom, ali estávamos nós bebendo e conversando muito. Falamos de tudo um pouco, da vida, da morte, do mundo, da meninas, das bandas de músicas, etc. Conversa de adolescentes. O tempo foi passando, então começamos contar piadas, 'zoar' um com o outro, até que a conversa se centralizou somente naquela caveira. Então brincadeiras começavam à ser feitas usando aquele crânio. E volta e meia, a caveira passava de mão em mão, onde cada um falava uma coisa, até que alguém a colocou novamente naquela mesinha.

Certo tempo depois, um dos meus amigos saiu e foi até o bar que ficava bem próximo dali, comprar alguns saquinhos de batata (salgadinhos), enquanto o outro foi tomar um banho para poder sair mais a noite, pois já deviam ser mais ou menos quase 9 horas. Eu então fiquei algum tempo sozinho naquela sala, tomando o meu vinho e assistindo a TV.

Quando fui pegar mais vinho no garrafão que estava embaixo daquela mesinha onde estava aquele crânio, enchi o meu copo e por brincadeira ofereci para aquela caveira, levando o copo até bem próximo do seu maxilar e dizendo: " quer um pouquinho ? "

Neste instante, uma voz rouquenha e muito brava falou bem próximo do meu ouvido esquerdo: "Nãaao !" ... e um puxão bem forte em minha camiseta pode ser sentido por mim naquele exato momento, me advertindo daquela brincadeira. Um frio do além gelou as minhas costas e eu acabei derrubando o garrafão de vinho no chão, quebrando-o em várias partes e lavando completamente aquela sala com aquele líquido vermelho vivo. Deu um trabalhão para limpá-la...

Muitos poderiam pensar: "você poderia estar meio embriagado".
Mas eu não estava. Bebi pouco vinho naquele dia e aquilo realmente aconteceu. Ao contar o fato para o meus amigos, todos eles riram muito e não acreditaram. Ficaram bravos pela quebra do garrafão e não deram nenhuma credibilidade naquilo que eu havia contado.
Porém, esse meu amigo resolveu devolver aquele crânio duas semanas depois quando precisou voltar na sua cidade de origem. Quando nos encontramos novamente, ele me disse que começou a ter alguns pesadelos terríveis depois daquele dia e achou melhor devolvê-lo.


(O texto acima faz parte do Livro: Histórias do André Victtor – Volume 1)

*Meu pseudônimo de escritor é André Victtor, sou brasileiro, casado, resido no Sul de Minas Gerais,
tenho 39 anos, sou Desenvolvedor de Sistemas com formação acadêmica em Gestão de TI pela
Universidade Paulista UNIP.
Sou fã do seriado Super Natural (Sobrenatural), True Blood, CSI e do saudável Arquivo-X.
Curto muito também as matérias dos Canais National Geographic, History Channel e Discovery,
que me servem como fontes iniciais para futuras pesquisas.
Já fiz muitos desenhos abstratos, já toquei muita guitarra em minha vida, pratiquei e participei
de muitas trilhas oficiais de motos, conheci as mais loucas entranhas no meio das matas fechadas,
já plantei muitas árvores, tenho um casal de filhos lindos e uma adorável esposa.
Dizem que em nossa vida, temos que construir nossa casa, fazer um filho, plantar uma árvore
e escrever um livro. Acho que já fiz tudo isso.
Agora é só dar continuidade aos meus livros e divulgar as minhas loucas histórias...
e-Mail: andrevicttor@live.com


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28 de setembro de 2010

Como adquirir o livro "Contos que Ninguém Conta"?

Dados do livro:

Autor: David Nobrega
Tamanho: 14cm X 21 cm
Número de Páginas: 158
Categoria: Contos
ISBN: 978-85-62442-13-1
Preço: R$ 29,00 com frete incluído para os estados: RS, SC, PR e SP. Demais Estados consultar a Editora.

Compre pelo paypal em nossa loja virtual ou encomende pelo e-mail contato@editoranovitas.com.br


==> Acompanhe em nosso site os próximos lançamentos!
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16 de setembro de 2010

O Livro "Contos que Ninguém Conta" já pode ser adquirido

O livro "Contos que Ninguém Conta" do autor, David Nobrega, já pode ser adquirido pelo e-mail contato@editoranovitas.com.br

Dados do livro:

Título: Contos que Ninguém Conta
Autor: David Nobrega
ISBN: 978-85-62442-13-1
Número de Páginas: 158
Preço: R$ 29,00 com frete incluso para os Estados: RS, SC, PR e SP. Demais Estados, consultar frete com a editora.

A orelha do livro foi escrita por Ana Mello:
"David Nobrega é editor da Novitas em parceria com a Letícia, sua esposa. Além disso, é cronista, contista, poeta, fotógrafo, ilustrador e webdesing. Não sei se cozinha bem, mas sei que aprecia uma boa taça de um vinho enquanto espera aquele prato especial que a Letícia prepara com os ingredientes solicitados do mercado. Com as palavras, no entanto ele ótimo e o "Contos que ninguém conta" traz sua especialidade com todo o requinte.
Podemos saborear traços de humor,tristeza, ódio, amor e tudo mais que a vida nos oferece com temperos únicos do autor que mantém sua personalidade em todos os enredos por mais distintos que sejam. Sou apaixonada por contos e estou sempre acompanhada de Poe, Mia Couto, Machado de Assis, Horácio Quiroga e tantos outros, mas posso dizer com certeza que David passa longe de imitá-los. Escreve bem, é cativante na sua narrativa mantendo sua individualidade.
Em cada conto lido destaquei no mínimo uma frase que assim como uma pitada de pimenta ou outro tempero aromático ou agridoce marcou a narrativa, fisgou meu olhar
crítico e me fez reler ou voltar mais tarde já adiante no livro para conferir novamente aquele sabor. Sabor de boa leitura. Cito algumas, a título de degustação só para apurar o apetite de um novo leitor ou para
atiçar os que já o conhecem para mais uma leitura. " Clique para continuar a
ler


A Crítica Literária foi feita por Andrea Barros
Um livro de contos, para ser bom, deve contar com uma boa narrativa, bons
personagens e boas histórias. Caso essa mistura não aconteça ele, com certeza,
estará fadado ao esquecimento. Pois são justamente esses três elementos que são
encontrados no livro Contos que ninguém conta de David Nóbrega. Em seu livro, o
autor consegue fazer com o que leitor tenha muitas sensações no decorrer da
leitura. Raiva, angústia, nojo, dor, sofrimento, amor, alegria e felicidade.
Todos esses sentimentos estão ali, nas palavras de David.
Em Tardias reflexões, o leitor encontrará uma história cuja narrativa é um soco no
estômago. A transformação (e degradação) pela qual passa a personagem é muito
bem construída e os elementos que compõem o conjunto são perfeitos. Com uma
outra tônica, Nóbrega toma a loucura como ponto de partida para Amizades. Aqui,
o texto revela o contraste de classes sociais e como a mente humana pode ser
pega de surpresa por seus pensamentos.
O poder de escrever leva ao receptor a mensagem codificada, isto é, o autor coloca no texto uma carga que, a sua maneira, poderá remeter a determinado sentimento. Contudo, quando a mensagem é revelada por outrem se transforma em algo totalmente diverso. É o caso do conto Lobo em que o narrador, em primeira pessoa, relata ações rotineiras de sua vida. Porém, para quem lê a história pode passar algo repugnante. Com isso, David atinge em cheio seu objetivo. Revelar sensações é uma das maiores metas de um autor. "Clique para continuar a ler








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24 de agosto de 2010

A arte de perder - By Álisson da Hora

A arte de perder


*Álisson da Hora


A arte de perder não é nenhum mistério;
tantas coisas contêm em si o acidente
de perdê-las, que perder não é nada sério.
Elizabeth Bishop


Aqui deitado olho o resto de dormência dela, sono suspirado em que eu poderia imaginar um monte de loucuras, um monte de cogitações, mas não. Só fica a certeza de que é a última vez, de que um silêncio talvez reinará como se fosse uma vitória dos clichês, da mesmice, quando na verdade é apenas mais uma face do desencontro e da tortura que nos espreita a cada momento em que vivemos. Aqui deitado busco a sua sombra deitada na parede, também, com o rosto sabe-se lá onde e o pensamento sabe-se em que lá paragens. A repetição de tantas coisas em pouco tempo me faz crer que o tempo o espaço a vida por vezes fica uma coisa meio travada, engasgada, teimosa em se perpetuar em situações estranhas deflagradoras de tonturas e equívocos. Mãos trementes que reconhecem que os chistes e as pragas lançadas em volta de mesas repletas de garrafas e tranquilizantes, a doce nostalgia de jovens que estão envelhecendo, a melancolia de uma tarde de idades que vão se apagando e que vão reconhecendo as tardes que já se foram, que se fecham como livros queridos, mas que martelam os corações e não os reabrimos tocados por uma estranha prudência. Que diz: acabou.
Acabou. Essa estranha prudência deitada em uma tarde que se alongou madrugada adentro, apagada como almas tocadas por álcool e tranquilizantes - assustada como espíritos arrojados do alto de céus sem nuvens e que tristemente acabam acalentadas em mãos dormentes -, é inútil. A repetição visita minha mente, minha sombra dependurada na parede não mostra meu rosto, o tempo e o espaço vivem a brincar com meus pensamentos que pareço ver a se debaterem no chão, teimosos, engasgados, travados: um quadro da minha vida. Um bar eternizado, uma conversa sustentada por milênios como gotas d’água de uma tortura chinesa, cada segundo de perda, de dano. Abandono. A aparição do silêncio agora reina enquanto lá fora um mundo de tolices de promiscuidades talvez nos afaste de vez. Não sei por onde o seu pensamento caminhará depois de hoje. Livros queridos não me servirão de cobertor, não desfrutarei de vitória alguma. As portas vão se fechar, nenhuma música mais riscar o meu caminho e deixar marcas. É assim. E eu fico aqui, sentindo o suspiro derretido dele sobre mim. Grave recordação deitada por sobre minha sombra, pelas minhas sombras. E eu aqui ficarei. Para quando as portas se fecharem. Ficarei com o olho no chão. Eu. Aqui. Deitada.


*CAC - UFPE - PG LETRAS

http://pontispopuli.blogspot.com



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26 de julho de 2010

Deus e o Diabo - By David Nobrega


Conto que faz parte do próximo livro do autor David Nobrega. Para visualizar em tela cheia, |clique aqui|.

Em formato texto, aos que não estão conseguindo acesso:

Deus e o Diabo

Estava em meu botequim costumeiro, tomando minha cerveja gelada e olhando a vida passar pelas portas corrediças e enferrujadas do estabelecimento. Um vai-e-vem de gente nessas horas aqui no Centro, é coisa normal. Todos apressados para chegar em suas casas, cumprindo a rotina escravizante de cada dia. O sonho do banho quente, do chinelo largo sobre a meia furada, a comida requentada, a roupa de mendigo chique que tantos de nós desfilamos entre quatro paredes.

De vez em quando um conhecido atravessa a porta e me cumprimenta. Um entre tantos habitués do lugar. Passam por mim com um aceno de cabeça, isso quando não esticam as mãos suadas e encardidas de trabalho realizado. Uma intimidade intrometida.

Conforme a noite cai o movimento diminui e os passos apressados tornam-se lentos, dando-me tempo maior para melhor avaliar os passantes. Uma gordinha com a barriga de fora e o medonho piercing no umbigo. Um quase corcunda catador de lata faz a festa no lixo do bar, sem saber que o João, dono do negócio, separa as latas para que ele possa colhê-las, fazer a venda e ali voltar para um trago, gastando o dinheiro arrecadado nas ruas. Estudantes fazendo fila no ponto de ônibus logo ali à frente, a caminho de alguma faculdade ou supletivo noturno, buscando nos lápis e cadernos uma vida melhor.

Lá pelas tantas cervejas um tipo desconhecido entrou no botequim. Chapéu preto lhe cobriam os olhos e um longo sobretudo, também preto, lhe tirava os contornos do corpo. Seus pés, logo notei, pareciam cascos de bode e quando passou por mim senti mesmo um certo cheiro de enxofre que dele se desprendia. Seguindo-o com o canto dos olhos, vi que caminhou até os fundos do bar, onde estão as mesas de bilhar, olhou ao redor e, parecendo não encontrar ali o alguém que buscava, voltou para a frente, onde eu estava sentado. Bateu com as mãos finas e compridas no balcão, pediu um conhaque e puxou a cadeira de frente à minha, perguntando se me importava que ele me fizesse companhia até quando um seu parceiro chegasse, como combinado. Respondi que não, com um aceno de ombros.

-- Pois então, Maurício. Como anda a vida? -- Me perguntou, como se me conhecesse.

-- Vou bem, vou bem... E o senhor... Como devo chamá-lo?

Afastando um tanto o chapéu preto pra o topo da cabeça, me deixando ver seus olhos vermelhos como brasa, respondeu:

-- Ora, Maurício! Achei que tivesses me reconhecido. Sou o Diabo! Vês? -- Erguendo mais um pouco o chapéu pude ver duas pequenas saliências à guisa de chifres, logo acima da linha de seus cabelos oleosos. -- É verdade que nunca antes nos encontramos pessoalmente, mas achei que pudesses ter notado...

-- Desculpe -- lhe respondi, com certa vergonha -- Até notei certas coisas estranhas em sua pessoa, mas não acredito em diabos, demônios e afins. Deves estar me confundido com algum seu conhecido. Do circo talvez?

-- Circo? Mas que disparate! Sou o Senhor das Trevas e da Escuridão! Deverias me temer! -- O aumento do cheiro de enxofre no ambiente estava ficando insuportável. Pareceu-me que meu interlocutor tivesse algum problema intestinal. Dizem que todo mundo tem um ponto sensível ao stress, e o desse camarada com certeza eram os intestinos...

-- Ok, ok. Não vamos nos desentender, não é? Afinal, acabamos de nos conhecer e começamos com o pé errado. Se queres que te chame de Diabo, Cão, Lúcifer ou seja lá quem quiseres, é só dizer. Mas por favor, controle esses gases. Os clientes vão acabar achando que os ovos coloridos que o João serve estão estragados.

-- Por Mim! Não entendes, ó imbecil, que tenho o poder do Mal a meu favor e que basta um estalar de dedos para que te mande ao Inferno! Mas deixa estar, que esta noite tenho mais coisas a me preocupar do que um reles descrente.-- Dito assim, virou de um só gole o conhaque que restava no copo e esticando o dedo imenso para o alto pediu ao João para que o servisse de mais uma talagada.

De meu lado, estava filosofando botequinescamente, tentando imaginar como poderia uma pessoa ficar louca de pedra ao ponto de se achar o próprio demo. Como os médicos dizem que é melhor nunca contrariar, tentei mais uma vez entabular conversa com o estranho:

-- Pois então, Diabo. Que o traz a esta parte do mundo em uma noite tão bonita como esta? Por acaso alguma alma fugidia, talvez?

-- Não -- disse-me ele -- Marquei com Deus aqui hoje. Seu mundo está indo tão mal que precisamos encontrar uma solução. O ser humano tem conseguido fazer mais maldades do que eu mesmo. Ou nós damos um basta nisso, eliminando vocês todos e começando de novo, ou daqui a pouco vocês explodem o Planeta. E aí, onde é que nós faríamos a guerra santa entre o Bem e o Mal, não é verdade?

-- Ahhhh, entendi... Deus vem aqui hoje também? -- perguntei, fingindo perplexidade.

-- Vem, vem sim. Deus adora um bilhar. E por falar no Diabo...quero dizer, em Deus, olha ele ali, estacionando. Metido a besta...

Uma reluzente Ferrari vermelha tentava enfiar-se em uma vaga que nem mesmo um fusca caberia. Até acreditei que fosse Deus quem estava ao volante, pois realmente tendo em vista o quanto o ser humano estava no caminho errado, o motorista teria que ser muito ruim. Depois de várias manobras e alguns empurrões nos carros que ali estavam, amassando frente e traseira da pobre Ferrari, Deus -- ou seja lá o nome que o recém chegado assumisse -- desligou o motor, descendo com um sorriso satisfeito, como se tivesse feito um bom trabalho. Viu o Diabo sentado em minha mesa e acenou, saltando a água que corria pelo meio-fio e vindo em nossa direção. Deus, o onipresente, onisciente, oni qualquer coisa, chega em seu carrão, um cara presença, vestido como John Travolta em "Embalos de Sábado a Noite".

-- Bel, quanto tempo! Olá Maurício, prazer em te ver. Você tem sido uma boa pessoa, mas por favor, pare de bolinar dona Carol. Muito feio isso.

"Esses caras devem ser de alguma agência do Governo. espiões. Como a gente lê nos jornais, vez por outra. E a dona Carol é viúva, porra. Que mal tem em dar umazinha de vez em quando?" -- Assim pensava eu enquanto via os dois se cumprimentarem como velhos amigos. Deveriam realmente se conhecer há muito tempo ...

-- Certo, aqui estamos. Vamos discutir nossas questões enquanto jogamos um bilharzinho valendo a bebida? -- Perguntou Deus ao Diabo -- Maurício, se não te importares, gostaria que tu te mantivesses conosco. É sempre bom ter testemunhas ao se fazer tratos com o Diabo -- disse, com um sorriso maroto.

-- Ele não pode testemunhar por ti, God. É um descrente. Ele não crê em Mim. Duvido que creia em Ti também.

Eu, na realidade, estava começando a me divertir com a situação. Dois malucos, aparentemente com dinheiro para bancar uma cervejas a mais. Eu podia aguentar isso, logo:

-- Vejam bem: em minha situação de ateu -- desculpa ai Deus, mas não devo mentir, não é? --, eu sou a melhor testemunha que vocês poderiam achar. Sou isento e imparcial. Fico no meu canto, só ouvindo e bebericando uma gelada, enquanto vocês discutem os segredos do Universo, amém?

Rindo, os dois concordaram comigo. Pedi para ir na frente, pois o fedor de enxofre do Diabo, somado ao excesso de perfume barato que Deus usava estava me dando enjoos. Abri um cadeira de metal que o João costumava deixar ali, puxei uma caixa de bebidas vazia a guisa de mesa e pedi uma cerveja. Deus aproveitou e pediu uma água tônica -- agora eu sabia porque Deus era tido como mal-humorado: ele não bebia -- e o Diabo mais um conhaque, onde pediu umas gotas de limão, para evitar a gripe, segundo ele.

Colocaram uma ficha, arrumaram as bolas e no par ou ímpar, a saída foi do Diabo:

-- Escuta God, antes de mais nada é bom que tu saibas que essas desgraças todas que tu tens visto por aí, como sequestros, acidentes de trânsito e o teu time perder não são culpa minha. Eles -- o "eles" com um sinal indicativo para mim, quieto em meu canto -- é que realmente perderam a cabeça.

Deus -- ou God, como o chamava o Diabo -- olhou para mim com o cenho fechado e depois para o Diabo -- o Bel, de Belzebu. Baixou a cabeça, pegou o giz e esfregou a ponta do taco, por um longo tempo. Encaçapou quatro bolas antes de dizer alguma coisa:

-- Olha Bel, tu sabes o quanto discordo de teus métodos. E também sabes do quanto prezo a vida deles (nova olhadinha de canto para meu lado). Não te esqueças o quanto trabalhei para que houvesse condições para que eles existissem. Não sei se exterminá-los, como tu dissestes por e-mail, resolveria o problema.

-- "Quanto trabalhei"? Tu os fizeste em apenas um dia, lembra? "E no sétimo, descansou...". Tu tens descansado desde aqueles tempo e a não ser por um Noé aqui ou um Abraão ali, a única coisa que fazes é desempenhar o papel de inalcançável!

E matando duas bolas, com uma ótima tacada de canto e outra de meio de mesa, o Diabo continuou:

-- Vês a posição em que me encontro? Tudo em sido culpa minha. Guerras, tudo bem. Assumo. Mas a concorrência com a maldade dessas tuas crias está me deixando maluco.

Dei uma gargalhada. Não pude mesmo me conter. Os dois olharam para mim com seriedade e com o indicador sobre os lábios, Deus pediu que me calasse.

-- Tu tens todo o direito de reclamar. Dou-te quase toda razão da qual sou capaz, Bel. -- Mais duas bolas para Deus. Ótimo efeito na branca, a la Rui Chapéu. -- Mas sinto, extermínio está fora de questão. Eu dei a eles o livre arbítrio e se eles quiserem se matar, o problema é deles e as almas serão tuas. E não negocio isso.

Mais uma vez o enxofre impregnou o ambiente. O Diabo deveria estar suando. Perguntei se ele não gostaria de um refrigerante, mas recebi um "Pros Infernos!" em resposta.

Depois da quarta partida, todas ganhas por Deus, a discussão começou a me enfadar. Já estava bêbado além do razoável e se eu chegasse em casa um pouquinho pior com certeza a Selma me poria para dormir na sala. Eu detesto dormir na sala, assim me levantei e estava já dizendo boa noite, quando com apenas um movimento mínimo de sua poderosa mão, Deus me fez sentar novamente. Lutei para conseguir me botar de pé, mas algo invisível e extremamente forte me aprisionava. Tentei falar, mas minha voz não saia. Olhei em torno para pedir ajuda, mas todos os que eu podia ver de onde estava, pareciam como que feitos de pedra, parados.

Olhei para os dois jogadores e suas formas pareciam estar mudando. Deus parecia mais luminoso, enquanto o Diabo, a este ponto tão bêbado quanto eu, parecia absorver a luz do ambiente.

Pelo que entendi houve um impasse: como Deus não queria o mal para nós, os humanos, e o Diabo queria nosso fim as forças se igualaram e o embate equilibrou-se. Começaram, cada um de seu lado, a aumentar suas forças para vencer ao oponente, fazendo assim que nossa realidade, nosso "agora" se alterasse. Como eu sei disso? Não tenho a mínima ideia. Esses pensamentos surgiam e me tomavam de assalto, incontidos pelos filtros de minhas crenças -- ou falta delas. Era possível sentir uma grande força correndo o ambiente, uma vibração que me deixava os cabelos em pé.

De repente surgiu uma criança, carregando um ramo de flores. Atrás dela, muitos belos seres, vestidos de um branco luminoso, encheram o pequeno corredor do boteco.

Deus e o Diabo notaram a mesma coisa que eu, pois embora me mantivessem preso à cadeira e os outros humanos continuassem paralisados, voltaram às suas formas 'normais'.

O Diabo, erguendo as sobrancelhas, olhou para Deus que, soltando uma gargalhada, fez sinal com a mão para que abrissem caminho a alguém que se mantinha atrás da estranha multidão. Postados lado a lado na estreiteza de espaço, formaram passagem a uma belíssima mulher, também de branco e em cujas mãos carregava uma bolo ricamente enfeitado, que se aproximou. Sorrindo sempre, colocou a encomenda que trazia sobre a mesa de bilhar. Em um passe de mágica acendeu várias velas que eu tenho certeza não estavam ali. Ao mesmo tempo, todos cantavam "Parabéns a você...".

O Diabo, olhos marejados, atirou-se aos braços de Deus:

-- Seus, seus... Seus safados! Achei que vocês tinham se esquecido! Que surpresa adorável...

Deus, sacudindo o Diabo pelos ombros, disse:

-- Meu irmão, não é sempre que se faz 6.000 anos. Acredita mesmo que não iria me lembrar! Eu sou onisciente, seu tonto.

A festa durou muito tempo. Não sei precisar exatamente quanto, pois me parece que a medida de dias, meses e anos às gentes do Céu e do Inferno não tem sentido e durante toda a festa, "nosso" tempo parou. Perguntei depois a outros que ali estavam naquele dia, mas ninguém tem lembrança de nada, como se nada tivesse ocorrido. Eu mesmo não tenho lembranças de como terminou tudo aquilo. Só me lembro de ter acordado no sofá de casa, com a Selma me falando horrores das más companhias com quem tenho andado, como aquele bêbado charmoso que tinha uma Ferrari toda amassada.

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17 de maio de 2010

Um milésimo de segundo - By Tatiana Cavalcanti

Um milésimo de segundo
* Tatiana Cavalcanti
Me dobrou em seis partes iguais, me colocou no bolso e sentou em cima de tudo que eu demorei mil anos para construir.
Meu castelo de paralelepípedos virou rabo de poodle que só come ração molhada. Dias demoraram vidas para passar. Ele enfiava o dedo indicador dentro do meu crânio, não adiantava lutar. Quanto mais eu queria esquecer mais ele cutucava o lado esquerdo do meu estômago que era para eu não digerir, para fazer parar a minha engrenagem perfeita e quase harmônica. Horas demoravam municípios para virarem.

Ele teve esse hábito. Veio cheio de razão, falando coisas que não eram para ele nem ninguém saberem. Bem menos falarem. Ele teve uma súbita vontade de avassalar com as certezas que eu cultivei a sol e água. E para isso, ele usou uma arma letal. E eu fiquei de estátua para não levar à queima roupa, no meio da testa, com requintes de crueldade. Ele fez uma leitura fácil, simplista, rápida. Ele me tirou do mundo numa piscada de olho, numa respirada rápida no meio da crise de bronquite que insistia em me perseguir há três noites. Ele me suspendeu de mim e me exportou para ele.

Ele socou dentro da minha cabeça que era tudo muito pouco e que o destino é a gente que desenha de acordo com a nossa coragem. E ele ouvia umas misturas de bossas com sambas que eu nunca vi nenhum gostar. Não daquele jeito charmoso que ele tinha de gostar das coisas. E ele
fazia que não estava nem aí para mim.

Ele pegou o centro da minha cabeça e colocou embaixo da sola do meu pé, do lado do bicho geográfico que eu devo ter porque coça muito. Ele me deixou falando sozinha uma vez. Claro que eu chorei. Mas bem pouquinho, só para molhar os cílios mesmo. Porque para ser paixão tem
que ser chorado, mesmo que só pra embaçar o olho. E para reliadade vir mais transparente como água.

Ele usou o perfume, ele usou as palavras, ele girou o mundo na ponta do dedo como os jogadores de basquete. Um milésimo de segundo. Foi o tempo que ele teve para fazer tudo isso que ele fez.


* Redatora e autora da Editora Novitas. Escreve no blog http://coffeeandhistory.blogspot.com/


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6 de abril de 2010

Nécessaire - By Tatiana Cavalcanti

Nécessaire


* Tatiana Cavalcanti


Seis da manhã quando em meu ritual diário e matinal começo a ajeitar as minhas coisinhas de sempre. Isso aqui está no lugar errado, é mais para esquerda. E aquele outro ali tem que ficar mais para trás, bem perto de tudo que está faltando e encostado nos excessos que latem mais alto do que o bosta do cachorro (sem marca) do chato do meu vizinho. E o sabonete precisa ficar dentro do zíper porque tudo que pode derreter compromete e eu não quero me comprometer nunca mais. Eu jurei para mim que nunca mais me comprometeria com nada que não fosse desejo latente de perder a cabeça, com nada que não fosse vazio porque eu cansei de aprofundar. Uma bagunça tão grande que parece até que eu não mexo em nada, desde que você bateu a porta. Gastei uma pequena fortuna com o marceneiro. Devia te cobrar, mas não vou, estou me resignando.

E tudo aqui, estático esperando meu sinal de vida ou a minha morte súbita de não ter morrido de amor. Aí então virá a tão sonhada reorganização e tudo caberá em seus devidos e primários lugares.

Às vezes parece que esse negócio de ter muitos excessos ocupa muito espaço. Só que eu nunca sei ou nunca tenho certeza absoluta de qual excesso diminuir. Eu e minhas culpas, eu e minhas mil histórias mal contadas, eu e minhas frustrações de não ter sido a Fernanda Montenegro, eu e minhas condenações a todo resto do mundo que não faz o que eu quero. Eu e todo meu ódio pelos imbecis que habitam esse planeta ao invés de rechearem os limbos do nada escuro. Eu e meu maravilhoso mundo de fantasia e caos. O ser humano sempre sobrevive e deve ser por isso que eu estou aqui. Sobrevivi a tudo que eu me boicotei a vida toda.

O excesso do amor eu não tiro. Se eu já sou complexa sendo bem e muito amada, imagina se faltar. Nem o da vaidade que eu não tenho refletido na beleza. Eu sou uma vaidosa filha da puta, quero que o mundo morra lendo meus textos quase miseráveis e ache que, só porque eu demoro para colocar uma vírgula, sou genial. Talvez tirando o excesso do caos emocional, esse que me faz ganhar dinheiro e um pouco de fama de muito mau humorada, eu me foda por completo. Diminuir o caos é diminuir a inspiração? Eu sou tudo isso quando estou em minha menor forma, a forma de espectadora de um bando de humanos que me fascina e que me conta histórias incríveis.

E isso, o que está fazendo aqui? Esse é daqui, atrás desse aqui, cacete.

De excesso em excesso eu fui ficando mais neurótica e cheia de manias. Antes eu odiava meias e agora estou numa mania tão idosa com as extremidades frias. Durmo de meias há meses. Será que inconscientemente quero ficar menos sexy? Mas quando eu fui sexy?
Cara, alguém mexeu aqui com certeza porque eu nunca relo o dedo nessa coisa aqui.

Nunca tive absoluta certeza sobre morrer de excessos ou de falta. Acho poético morrer de falta. Mas de excesso é tão generoso. E tão poético. Para ter uns instantes rápidos de felicidade eu fiz questão de ser bem infeliz. Para dar valor. Quer dizer, nem foi tão ruim assim mas eu vivo da minha tragédia emocional quase comovente. E quase verdadeira.
Já são quase sete e eu me atrasei como nunca me atraso. Deixa para lá. Isso só vai se resolver com uma nécessaire nova. E bem maior.


* Tatiana Cavalcanti é redatora, escritora e autora da Novitas.
http://coffeeandhistory.blogspot.com
Contato:tatianarcavalcanti@gmail.com


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11 de dezembro de 2009

Ontem eu sonhei com Nova York - By Bruna Maria

Ontem eu sonhei com Nova York

*Bruna Maria

Amanhecia. O céu naquela cidade nunca ficava claro. Diziam que era culpa da neve. Era o inverno. Era minha culpa. Afinal eu tinha decidido que chegaria ali exatamente no inverno. No rigoroso inverno.
Nas primeiras semanas eu limpava as privadas de um posto de gasolina. De certa forma era um alívio: aquele era o tipo do trabalho em que eu não era notada. Meus passos com pesadas galochas de borracha; minhas mãos com luvas amarelas, também de borracha, carregando baldes e esfregões. E, ao final do dia, a certeza de ter desfeito a merda de uma centena de norte-americanos que passavam por ali para reabastecer seus carros.
Os dólares que eu recebia ficavam dobrados em um bolso escondido, no interior da minha roupa especial contra o frio, que uma prima que tinha voltado ao Brasil me dera dias antes de eu embarcar em busca de uma busca sem nome e sem endereço. Daquilo que eu guardava, não sobrava muito quando vinha o dia de pagar pelo aluguel do quarto em que eu dormia. Dividido com um boliviano, o quarto ainda me custava caro. E foi por isso que em um dia de centrada razão, eu decidi abandonar aquele lugar, e ir tentar abrigo em uma Igreja protestante de subúrbio.
Passei algumas semanas na certeza de que, em algum momento, eu seria aceita por algum bondoso pastor. Eu me oferecia para limpar suas Igrejas, passar o cadeado no portão ao cair das noites ou, simplesmente, ajudar na organização dos cultos. Mas poucos pastores chegavam a me ouvir. E, os que ouviam, alegavam que já tinham alguém que fizesse tais serviços para eles.
Quando percebi que tinha se passado quase um mês desde que eu abandonara a metrópole em busca de abrigo no subúrbio, nada tendo conseguido, decidi voltar para a cidade e tomar de volta o emprego no posto de gasolina, que eu tinha largado. Mas o chefe, me vendo voltar, foi categórico e ríspido. Coisa de americano. Disse que não tinha nem conversa; afinal, ninguém largava o emprego da forma que eu larguei. Então agora o problema era todo meu.
Eu tinha apenas vinte dólares a essa altura. Já não podia fazer refeições, tampouco pernoitar em algum motel. Decidi que guardaria o dinheiro para alguma emergência.
Sem poder dormir pelas ruas, já que os policiais eram sempre severos, decidi sair da cidade andando, até chegar a alguma “highway” onde eu pudesse, esticando o polegar, pedir carona aos carros, para chegar ao interior. Era a minha chance.
Consegui a ajuda de três sujeitos. Eles me ofereceram carona em diferentes partes da estrada e, um deles, ainda pagou um pernoite para mim, enquanto ele também dormia para descansar e pegar a estrada novamente no dia seguinte.
Com a ajuda desses sujeitos, e após alguns dias, cheguei a um rancho. Instalei-me pelos celeiros e fiquei por lá, beliscando comida de animal e me escondendo toda vez que o fazendeiro se aproximava. Em uma semana, consegui descobrir que o fazendeiro era um sujeito idoso, e que o rancho não tinha grandes movimentações. Supus que o velho morava sozinho e achei que me seria fácil abordá-lo, implorando um serviço qualquer.
No cair de uma tarde mais gelada que o comum, me arrastei até a entrada do rancho, e chamei pelo senhor, que jogava sal na neve. “Hello, hello”, eu gritei com custo. Sentia-me fraca e a ponto de desmaiar.
O velho veio com uma pá na mão e com a cara fechada. “Go away”, ele resmungou e fez menção de me espantar com aquele instrumento ameaçador.
“Food, please. Job. I need help, no where to go”, eu murmurava, tentando projetar a fraca voz que me escapava da garganta. Mas o velho parecia irredutível e repetia com amarga revolta seu “Go away” ácido e terrível.
Nesse momento comecei a pensar se não teria sido melhor ter fica pelos celeiros, comendo a comida dos bichos e me esquentando na serragem. O velho nunca saberia da minha presença. O estúpido americano me ajudaria sem ao menos saber. E quando a primavera chegasse, eu partiria em busca de outro modo de sobreviver.
Após tal devaneio, percebi que não teria onde dormir naquela noite que prometia um frio ainda mais intenso. Alguns flocos de neve começavam a cair e o velho insistia em me mandar embora, sem ao menos me ouvir.
Diante daquele impasse, algo na minha suposta humanidade começou a me transtornar. E, conforme o velho levantava a pá para me expulsar qual se expulsa animais intrusos, a sensação de fraqueza subitamente começava a se transformar em raiva e revolta. Eu era pessoa, como ele. Eu estava rogando por ajuda. E ele permanecia irredutível.
Com o ímpeto de revolta que me surgiu, pulei a cerca que me separava do velho, e parti para cima dele. Ele caiu no meio da neve e eu fiquei por cima de sua barriga estufada de bacon e ovos mexidos. Tomei a pá de sua mão, enquanto ouvia, em seu acesso de tosse velhaca e rouquidão, aquele desprezível “Go away” infinito e desumano.
“I was only asking for some help, you redneck”, esbravejei com forças vindas de um orgulho desastrosamente ferido, e cuspi-lhe na cara.
Ainda com a pá em minhas mãos e sentada sobre sua barriga, pensei em como poderia ter sido diferente. O velho poderia ter sido gentil; ou eu poderia nunca ter saído da cidade. Mas, fora isso, outro pensamento me ocorreu: eu nunca tinha escrito para casa contando o que me sucedera em minha aventura norte-americana. E, se nunca tinha feito tal, era por vergonha de ter fracassado desde o primeiro instante que pisara na terra do Tio Sam.
Mas um relance de possibilidade me surgiu quando voltei a olhar para o velho sob mim – e agora com olhos apavorados e humilhados. O rancho, afinal, não era lá essas coisas, mas tinha uns bichos e uma sede rústica de aparência bem agradável.
Eu, então, com a pá em minhas mãos e o velho sob mim, não hesitei e lhe dei seguidas coronhadas, lembrando da amargura que seu “Go away” jogava sobre a minha existência.
Uma semana depois, quando escrevi a primeira carta aos meus familiares, a primavera chegava e eu calçava botas de couro. A neve derretera, mas ainda fazia frio. Ao acordar, eu tomava café forte e comia bacon. O silêncio era predominante. Antes das dez horas da manhã eu alimentava os animais e cuidava, especialmente, dos celeiros.
Um dia, sem que eu esperasse, um caipira chamado John passou procurando o velho que eu matara. Convidei-o a entrar e contei a história do Mr. Marshall – eis o nome do velho. Disse que ele era um tio muito querido e que, por problemas graves de saúde mental, teve que ser internado em uma clínica do outro lado do país.
“Sad, very sad”, John disse. Mas o caipira acreditou e se tornou meu amigo.
John passou e me visitar sempre que podia. Aparecia para o “brunch”, ficava a tarde toda me ajudando com o rancho e, às vezes e com o passar do tempo, ficava para dormir também.
Um dia, John propôs que eu largasse aquele solitário e improdutivo rancho. Contou sobre como ele se sentia sozinho e sobre como tinha apreço por mim. Convidou-me para morar com ele, em seu próprio rancho, que ficava ali pelas redondezas.
Não pensei duas vezes: ele tinha empregados e ganhava o seu dinheiro. As instalações de sua casa eram muito melhores do que as da casa em que eu morava. Além disso, o apreço de um homem pode ser muito útil para diversos fins. Então fiz as malas e parti, alegando, contudo, que não poderia vender o rancho de meu tio – Mr. Marshall –, pois tinha certeza de que, um dia, ele recuperaria sua saúde mental e retornaria.
Foram meses tranqüilos aqueles com John. Ele era um caipira agradável, que levantava cedo e almoçava na hora certa. Comigo por perto, ele se sentia entusiasmado em trabalhar mais e as tardes ele dedicava à produtividade de seus negócios, voltando apenas à noite. Durante esse tempo, escrevi minha segunda carta aos familiares.
Em uma dessas tardes de produção, um comprador de carne de porco foi procurar por John, mas ele não estava. Mandaram-no ir falar com a sua senhora, que era eu.
O sujeito se chamava Etan. Era jovem, era da cidade. Disse que estava de passagem, que precisava reajustar preços com John e que, então, voltaria em uma outra hora, em um outro dia.
E Etan voltou mesmo. Mas, após reajustar preços com John, Etan passou a voltar sempre pelas tardes, quando John estava trabalhando.
“You’re so pretty, you’re like those modern women”, ele dizia mexendo nos meus cabelos. E eu respondia, com brilhos olhos: “I’d love to go downtown, you know, to live there, forever!”
Em alguns meses, Etan contou sobre um apartamento que acabara de pagar. Era no Brooklyn. Logo lhe mostrei todo meu entusiasmo, e lhe parabenizei por, tão jovem, já ter seu primeiro imóvel.
Até que em uma daquelas tardes de trabalho de John, eu entrei no carro de Etan e nunca mais voltei. Fixei residência no Brooklyn e, dali, escrevi a minha terceira carta aos familiares.
E, depois de um tempo, muitas outras cartas escrevi.
Os anos em que vivi com Etan me ajudaram a migrar para Manhattan. De lá, escrevi as minhas últimas cartas. E, depois de um tempo, só isso era o que realmente importava. O resto, todo o resto, tornara-se detalhe, como sempre.


*Bruna Maria é carioca, mas não chega a ser muito fã de dias de sol. Formada em Letras, já cultivou uma média de três blogs pela rede, deletando os dois últimos por ter embirrado com a escrita. Para ela, o ato de escrever pode ser muito cruel e pouco redentor e, por isso, vive tentando desistir de se meter com as palavras. Mas não consegue.Também pode ser encontrada em: www.projetoautoral.wordpress.com / www.twitter.com/brumah
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2 de dezembro de 2009

Eu e meus pretextos

Eu e meus pretextos.

By Tatiana Cavalcanti


Todos esses zilhões de pretextos só para eu não ter que contar para todo mundo o quanto eu infarto dez vezes ao dia quando penso na gente. E a nossa sorte é que meu coração é forte como seu ombro que me carrega sempre que eu bebo demais para esquecer que essa merda toda me incomoda porque eu sou uma besta quase humana. Mas incorrigível e burra quase aos extremos dos pés. Todos os pretextos do Universo para não ter que olhar fundo no seu olho e me ver num reflexo quase sem brilho e meio desgostoso com esse saco que anda a vida tão distante e morna. Todos os pretextos escritos num livro que ando lendo até doer a vista para não sair correndo daqui e admitir que eu sou uma mulherzinha dessas que eu odeio e de quem eu morro falando mal por achá-las todas idiotizadas por suas bundas e por uma juventude física que é ilusão tão grande quanto sua massa flácida. Eu e todas as desculpas esfarrapadas juntas na mesma missão. A de esconder de todos os seres pensantes que isso é vício e que vício mata e eu estou quase morrendo de não poder mais me enxergar sem essa muleta confortável que você é com essa almofadinha gostosa de repousar o sovaco que hoje já está vencido. Eu e todos os pretextos unidos para que eu possa viver do que sempre vivi. Um monte de ilusões de mãos dadas para atravessar a Santo Amaro fora da faixa de pedestre. Um monte de mentiras pequenas e grandes para fingir que sou bem resolvida, que sempre transei com qualquer um e nunca sofri por isso. Mas respiro aliviada quando recobro um segundo de cabeça e percebo que pelo menos eu sou sã. Estou aqui dizendo tudo o que eu quero esgoto abaixo para ter a sensação de que saiu desse corpo e que ainda com o papel higiênico em mãos, eu posso tudo porque agora estou livre desse monte de bosta.


Eu recolhendo por aí, com amigas solitárias e outras nem tanto, mais e mais razões para não poder admitir nem sob tortura que você me move a trancos e solavancos mas que eu adoro. Eu catando nos lixos da cidade qualquer desculpa para não me arrepender nunca de ser tão idiota mesmo estando arrependida há séculos.


Eu e todos os pretextos do mundo resolvemos te dizer que é tudo somente um monte de desculpinha tosca. E que no fundo no fundo, eu não vivo sem você sob pretexto algum.

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31 de outubro de 2009

Ali Yezid Izz-Eddin Ibn Salim Hank Malba Tahan



Há muitos anos atrás, mais precisamente no dia 6 de maio de 1885 nascia, na aldeia de Muzalit, próximo a Meca, o escritor que dá o nome a este texto. Segundo as informações que nos chegam aos dias atuais, teria feito seus estudos no Cairo (Egito) e Constantinopla (Turquia). Logo após a morte de seu pai, teria recebido vultosa herança e viajado pela China, Japão, Rússia e Índia, onde observou e aprendeu os costumes e lendas desses povos. Viveu também no Brasil, mas retornou a sua terra Natal e tombou no campo de batalha em 1921, em alguma região perdida da Arábia Central, lutando pela liberdade de uma tribo.
Foi importantíssimo para o desenvolvimento da Península Arábica e consta que o emir Abd al-Azziz ben Ibrahim chegou a nomeá-lo queimaçã (prefeito) da cidade de El-Medina.
Escreveu dezenas de livros, que encontram-se disponíveis em várias linguas.

Ah sim, você não conhece esse escritor? Simples, ele não existe. Ao menos não como pessoa real.

Malba Tahan é o pseudônimo do professor Júlio Cesar de Mello e Souza. Inclusive, a criação de sua personagem, escritor e guerreiro, é apontado por muitos como o principal indício do quão criativo foi este professor de Matemática (entre outras disciplinas que lecionou), que além de 64 livros de contos -- com a forte inspiração de seu "alter-ego" árabe --, assina mais 51 outros livros de Matemática.


Ousado, criava problemas de álgebra e aritimética com o mesmo bom humor e sutileza constantes em seus contos.


Podem perguntar aos que estudaram lá pelos anos 60 e 70: Malba Tahan era presença constante em todos os livros escolares, fossem eles cartilhas ou não. Um super-astro pop, como não surgiu nenhum outro ainda.


Sua metodologia de ensino é ao mesmo temo simples e prática. Um Matemático que gostava de ensinar a Matemática como ela é, tornando-a interessante a seus alunos, deixando um legado de ensino ainda presente em algumas publicações. Infelizmente ou não, hoje em dia os matemáticos o prestigiam muito mais que os literatos... Basta ver que o Dia da Matemática, decretado pela Assembléia Legislativa do Rio de Janeiro é o de seu nascimento: 6 de maio.


Mais informações sobre este que deveria ser um dos expoentes eternos de nossa literatura você pode encontrar em sites como a Wikipedia (não deixe ler "O Homem que Calculava"), Página de Homenagem e Professor Cardy .


Há farto material na internet, mas não livros em versão digital. Para compra, procure a Editora Record.

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19 de outubro de 2009

Revista Cultural - 2 - Já Disponível!


BAIXE OU LEIA NO SITE [ CLIQUE AQUI ]



Participam dessa edição:


Opinião:
David Nóbrega - A cultura do paliativo

Ensaio:
Daliana Cascudo Roberti Leite - Luís da Câmara Cascudo: Um provinciano incurável

Música:
Banda Back - História da banda por Thiago

Poesia:
Leonardo Schabbaci - Humanidade
Cezarina Caruso - Último ato
José Fernando - Vadia
Alexandre Câmara - Um gosto de ânsia na boca
Anna Ribeiro - Noite
Rosemari - Cálice Derramado
David Nobrega - Só
Marcos de Andrade - Porque é natal
Eduardo Manciolli - Desespero
Joe Brazuca - Acróstico do boi premonitório
Hercília Fernandes - Falácias de amor

Cartoon & Cia:
Douglas Zimmermann - Mullets

Na Tela :
Matheus Costa: Os "intelectuais querem a crise na televisão e teledramaturgia

Contos, Prosas e Crônicas:
Ricardo Porto - O auto do padre Antônio
Tatiana Cavalcanti - Eu queria mais uma chance
Flávia Brito - (A) Parte
Madalena Barranco - O mirante dos aviões
Alex Sens - HI-FI
Cristiano Melo - Teodora
Lú Cavuchioli - De cimento e sangue

Entrevistas:
Bartolomeu Campos de Queirós
Grace Olsson

 No twitter da Editora: 
@mariliamonteiro , @microcontoscos , @CharlesHenrique , @lipevivas , @matesca , @manciolli , @VeraLuciaDutra@carolzita_eu , @zeroig , @denisonmendes , @Peagalves , @gustavocarmo , @caiocito , @bia_martinss , @vanluchi@janlamour , @christianoMJ , @gloriadioge , @eryroberto , @prosapolitica

Viagem:
Isiara Caruso - Um Passeio em Buenos Aires

Boa Leitura!








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25 de setembro de 2009

As Letras - By Cristiano Melo

As Letras

*Cristiano Melo

A letra A, orgulhosa por ser um artigo definido que ao indicar a si mesma, vira uma poesia concreta, dialogava com outra letra que se orgulha por também gerar a mesma situação: O artigo O.
-Tenho certeza que sou mais utilizada, pois defino os substantivos de gênero feminino.
-De que adianta ser mais utilizada se eu defino os substantivos masculinos e, assim, tenho mais poder...
-Poder? Ora, faça-me o favor, isso é machismo...
-Machismo? Não! Sou realista e depois machista é você!
-Você quem disse determinar gêneros primeiro que eu...
-Ah que ladainha mais sem futuro, sou a A, começo do alfabeto e você é só o O!
-Por que sou só o O?
-Porque tá lá no meio do alfabeto...
-Mas nós dois juntos, somos os artigos definidos, você não é melhor que eu.
-Bem, podemos discutir quem é mais importante se quiser, e eu lhe provo.
-Ai que preguiça!
-É sempre assim, chamo para discutir e você foge...
-Não sou casado com você minha filha, deixa de ser chata.
-Casados? Não mesmo. Sou simplesmente melhor que você.
-Ai ai... Como é que uma letra se sente melhor que outra?
-Peraí, não traga os artigos indefinidos pra essa conversa.
-?
-Não sou “uma” letra, sou “A” letra.
-Desisto, sabe... Você é muito egocêntrica, vai lá pro começo do alfabeto vai, que é que tá fazendo por aqui no meio?
-Volto já, só quero que me dê razão?
-Dar-lhe razão? Você é chata, egocêntrica e louca...
-Sou não, ó!
-E não leva meu nome em vão!
-Mas...
-Volte já pro seu canto, o escritor já vai começar a nos agrupar.
-Quem disse que é um escritor e não uma escritora?
-Ai ai, honestamente, você já me tirou do sério, se não fosse do gênero feminino...
-Que iria fazer? Bater-me? Seu gordinho... Sua bolinha!
-Ora, não me provoque, sua pernuda.
-É tenho pernas mesmo e posso lhe esmagar.
-Chega, vou rolar em cima de você.
-Vem, seu gordo!
E a guerra dos sexos entre as letras A e O continuava, e das suas brigas violentas, surgiram manifestações de todo o alfabeto que até então estavam calados e pasmos, houve quem concordasse com A ou com O, e o alfabeto todo começou a brigar. Desta briga surge então mais um escrito, uma estória, que foi contada e recontada ao longo de eras, sobre as letras que iniciaram uma batalha, mas findaram em paz, talhadas num papel, conjugadas com as outras letras e acabou por inspirar um conto ao escritor que a tudo presenciou, na leitura quase audível desta confusão, no seu hábito de ler.
Nesse instante, sua mulher acordou e começou a argumentar que ele não fazia nada além de ler e escrever e que viajava muito no mundo das letras, que precisavam ser mais objetivos para poder viver no mundo real. Começou então uma nova discussão. E a guerra foi ouvida no mundo das letras, saíram então os mediadores, imbuídos de trazer paz a esta estória entre os mundos, literário e humano, as letras F, I e M.

*Cristiano Melo é um dos 15 autores da II Coletânea Scriptus - A Livre Escrita e tem no prelo o livro Braços Abertos.

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8 de setembro de 2009

Uns e Outros - conto de David Nobrega

Uns e Outros

*David Nobrega

Naquele tempo tão distante na memória, havia Uns e Outros.
Uns eram fortes e capazes, Outros nem tanto; muito pelo contrário, eram fracos.
Uns faziam de tudo para que todos, mesmo que Outros estivessem limpos e alimentados, pois necessitavam de massa de manobra.
Outros, acreditando receber de Uns tudo daquilo que precisavam nunca se manifestavam.
Uns eram inteligentes, mesmo quando essa inteligência tinha a finalidade de se utilizar da preguiça mental e da fraqueza de Outros.
Outros sabiam que se fossem contrários a Uns, perderiam as mordomias conquistadas tão... facilmente.
Por essa época apareceram por lá Aqueles que não eram nem Uns nem Outros, sendo, portanto, alheios ao estabelecido subentendido.
Aqueles não gostavam de Uns, por os acharem por demasiado arrogantes e donos das verdades, mesmo tratando-se de déspotas esclarecidos. Mas piores, pensavam Aqueles, eram Outros que se faziam de mortos para receberem suas esmolas.
Não demorou muito para que ocorresse um levante de Uns contra Aqueles. Coragem não faltava a Uns nem a Aqueles, mas quem decidiu a batalha foram Outros: chamaram ao Fulano, que nada tinha a ver com a história e lhe proclamaram Rei, em troca de uma nova bolsa para seus pares.


* David Nobrega é autor e Editor da Novitas. Esse conto faz parte e deu título ao livro Uns & Outros.

<== Perfil Completo AQUI ==>



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24 de agosto de 2009

Sapatinhos de lã - Conto de autoria de David Nobrega

Todos os dias ela era vista sentada na mesma mesa do restaurante da empresa onde eu trabalhava aquela época. Todos os dias, durante seu intervalo de almoço, de uma hora como todos nós, ela comia rapidamente para poder fazer o que aparentemente era o que mais gostava na vida: tricotar pares e mais pares de sapatinhos de lã.Nunca conversei diretamente com ela, mas acompanhei, a minha maneira, sua gravidez. A cada refeição, um comprimido para não enjoar. Depois, comida leve e rápida. E finalmente, seus sapatinhos de lã.
Por meio de outros, fiquei sabendo sua história, nem triste nem feliz. Somente uma história vulgar como de tantas mães por este país.
Segundo me contaram, o pai da criança era um antigo namorado, que após saber que seria pai sumiu de sua vida. Por sorte a mãe a acolhera e agora viviam a duas em uma casa simples mas confortável no bairro operário da cidade.
Somente uma vez, depois da insistência de companheiros de mesa tão intrigados quanto eu, tive coragem de me aproximar e mesmo assim a única coisa que consegui foi ter a certeza de sua fixação pelos tais sapatinhos. Na sacola, em meio a agulhas e novelos pude contar nada mais nada menos que uns 10 pares em cores diferentes. Claro que essa é uma contagem superficial, pois o tempo em que permaneci parado a seu lado, vendo-a trabalhar, nem ao menos levantou ela a cabeça para ver o que se passava ao redor, absorta que estava em pontos incompreensíveis para mim. Sendo assim, não pude confirmar quantidades ou os motivos que a levaram a ser tão prestimosa com uma única peça do enxoval do bebe.
Lá por março do ano seguinte eu saí de férias e quando voltei ela não estava lá. Pelo volume de seu ventre antes de minha saída, com certeza ela havia já parido seu tão esperado filho.
Quem me inteirou das novidades foi a Odete, secretária do chefe.
Estávamos fazendo uma pausa para o café, quando ela entra chorando, perguntando se alguém já saberia das novidades. Como ninguém se manifestou, ela nos disse que a moça dos sapatinhos de lã havia tido um filho, que nascera grande e forte. Perguntou se algum de nós havia notado que ela sempre tomava um remédio antes das refeições. Eu disse que sim.Olhando para mim, ela arregalou os olhos e perguntou se eu conhecia um remédio que davam para as mães, para enjoo e que se chamava talidomida. Respondi que já ouvira falar, mas parecia que esse remédio havia sido proibido."Proibido sim, mas se acha em boticas ainda"- disse ela. "Ela comprava e tomava, pois diziam que era seguro. O seu filhinho nasceu sem as perninhas, por causa desses desgraçados! E agora? Quem paga por isso?"
Nunca mais a vimos na fábrica. Nem ao menos soubemos de nada de sua vida. Mas mesmo hoje, vendo minha esposa tricotando para nossos netos, me vem a cabeça essa pobre moça, que tanto empenho tinha em produzir peças de enxoval que nunca poderiam ser usadas por seu filho, vítima da imprudência de poucos que a tantos afetaram.

* David Nóbrega é autor e Editor dessa Editora. Esse conto faz parte de seu livro Uns & Outros.



27 de fevereiro de 2009

Adriano Siqueira - Dois contos


A MISSÃO


*Adriano Siqueira


Quando recebi o recado que minha tia estava morrendo, tinha acabado de dar a prova de história para os meus alunos.Peguei um táxi e fui com urgência para a casa dela.Fazia tempo que não a visitava. Todo mundo achava ela meio maluca, pois vivia dizendo:

"– Não, Teófilo, esse livro não!"

O médico me avisou que ela estava delirando mas mesmo assim eu tinha de vê-la. Quando cheguei, ela estava deitada, e me disse baixinho, colocando um cartão na minha mão.– "Você precisa recuperar o livro..."Ela parou de respirar naquele momento... gritei para o médico, que entrou em seguida no quarto. Saí de cabeça baixa, e então olhei o cartão que ela havia me dado.
Comecei a ouvir sons estranhos, incongruentes, e tive a estranha sensação de estar em meio a uma guerra.Virei-me para o lado e uma lança passou raspando sobre minha cabeça. Agarrei um cavalo e derrubei um soldado que parecia ser… romano! Não tive tempo de descobrir como apareci no meio daquela guerra que parecia tão real, com soldados romanos que me rodeavam e que punham fogo numa pilha imensa de livros.
O lugar se parecia muito com a Famosa Biblioteca de Alexandria. De alguma maneira eu havia me transportado até o ano de 391 a.C.!
E então ouvi aquele grito de novo:– "Não, Teófilo, este livro não!"Era minha tia, que puxava um livro de um soldado romano. Teófilo estava a seu lado, rindo, e rindo muito. Foi então que corri em sua direção, e nunca havia corrido tanto. Minha tia olhou para mim e jogou-me o livro.Reapareci na escada da casa de minha tia novamente, mas agora com o livro que ela tanto queria.


(Teófilo, hoje Santo Teófilo, é nomeado patriarca de Alexandria e inicia imediatamente uma violenta campanha de destruição de todos os templos e santuários não-cristãos. Tem o apoio do pio imperador Teodósio. Deve-se a Teófilo a destruição, em Alexandria, dos templos de Mitríade e de Dionísio. Essa loucura destruidora culmina em 391 com a destruição do templo de Serapis e da sua biblioteca. As pedras dos santuários destruídos serão usadas para edificar igrejas para a nova religião única, a cristã )


****


A VAMPIRA DA LOTAÇÃO


*Adriano Siqueira



- Olá Greg! Mais uma noite de ida e volta.
Roberto, 32 anos, cobrador, seu turno era das oito da noite as cinco da manhã.
Greg era um motorisma metódico. Preocupava-se apenas com o bem estar dos passageiros e do ônibus.
- Mais um que sumiu. - Dizia o cobrador.
- Eu li o jornal. Notei que eles pegavam nosso ônibus. - Greg dizia olhando para frente.
- Isso não te assusta?
- Muita coisa me assusta... Salário atrasado, greve, ataques de incendiários a ônibus...
- Nossa! Isso é mesmo assustador. E a Kadja?
Greg olha para o cobrador.
- O que tem ela?
- Sem essa... Você treme quando ela pega nosso ônibus.
Greg estaciona o ônibus para pegar alguns passageiros. Eles escutam uma gargalhada. Os dois se olham e engolem seco antes de continuar. Em menos de meia hora de viagem o ônibus tinha mais de quarenta passageiros.
Roberto pega um livro e começa a ler.
- Sabe o que estou lendo Greg?
- Sei... Algo como “falar menos” ou “Como não atormentar um motorista”.
- Nada disso. Estou lendo um livro sobre vampiros.
- Pode parar por ai Roberto. Eu não quero falar sobre isso. A Kadja é normal.
- Falando de mim...
Um calafrio tomou conta do Greg. Aquela mulher morena de cabelos cacheados e os olhos cinzas claros e um corpo bem definido. Uma vez por semana ela tomava aquele ônibus.
- De onde você veio?
- Acabei de subir. Você não me viu?
- Como consegue fazer isso? Novamente eu não a vi entrar.
- Mágica seu bobo.
O seu sorriso destaca os dentes brancos.
- Como vai pagar a passagem hoje Kadja.
- Vai ver garoto esperto.
Roberto viu Kadja olhando diretamente em seus olhos. Ela fica bem perto dele. Dá um sorriso e por um momento, ele vê a sua vida inteira passando por sua mente.
— Que livro curioso Roberto!
Ela pisca e desvia os olhos de Roberto, segura em um dos braços de um passageiro que estava perto... seus dedos finos passam pela camisa e quando vê que o cartão de passagem está no bolso da camisa ela vira o homem de frente para a máquina e faz uma massagem nas suas costas... o homem gosta e vai ficando cada vez mais perto da catraca. Relaxado pela massagem, seu corpo vai um pouco para frente até que o cartão que esta na camisa aciona e libera a catraca. Ela sorri e diz:
— Isso paga a massagem!
Os amigos daquele cara riem e ele fica enfurecido por ter sido enganado.
Sua louca! Devolve minha passagem agora!
Onde estão os seus modos? Bem. Vamos lá para o fundo que lhe darei tudo que pedir.
Os amigos dele sorriem e o cumprimentam pela sorte que ele tinha. Kadja era linda. Era impossível deixar uma mulher como ela, sozinha.
Greg e Roberto fizeram três viagens de ida e volta. Estavam voltando para a garagem quando Roberto olhou para todo o interior do ônibus.
— Greg! Responda-me... Você viu a kadja descer?
Greg olhou para o Roberto e disse.
— Não. Eu não sei como ela faz isso.
Ele estaciona o ônibus na garagem e ambos descem para acertar os horários. Quando vêem logo a sua frente uma multidão.
Saia da frente. Precisamos desse ônibus para fechar a entrada da garagem.
Você está louco... Esse é meu ônibus.
Não! Não é... É da frota e estamos em greve.
A multidão empurra Roberto e Greg. Pegam o ônibus e levam até o portão. Jogam gasolina e colocam fogo.
— Parem com isso! Roberto gritava, mas não era ouvido. A bagunça toda organizada pela multidão acabou trazendo varias radiopatrulhas e bombeiros. Os primeiros raios do sol já tomavam conta do local.
Roberto tenta empurrar a multidão, mas é agredido e fica sangrando sentado na calçada.
Greg não consegue tirar os olhos do ônibus em chamas. De repente todos escutam um grito apavorante. Todos se calam. E debaixo do ônibus cai um caixão que estava preso na carroceria e de lá sai uma mulher. Era Kadja gritando e correndo para Greg. Ele estava paralisado... Ela queimava por completo. Ela tenta agarrar o pescoço de Greg, mas a alguns passo... ela parou... se contorceu de dor e caiu a poucos metros dele.
Seu corpo foi desaparecendo até que finalmente transformou-se em cinzas.


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*Adriano Siqueira é um dos escritores do livro "Amor Vampiro" e criador do fanzine "Adorável Noite" sobre contos de terror e vampiros, que é distribuído em várias casas noturnas e eventos sobre ficção. Faz palestra sobre vampiros e escreve para vários sites sobre o tema. Atualmente escreve para o blog www.contosdevampiroseterror.blogspot.com

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Siqueira.Adriano@gmail.com