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8 de setembro de 2011

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2 de outubro de 2010

No caderno cultural do Jornal Gazeta do Sul (Magazine)

Um dos maiores problemas depois de lançar um livro é a divulgação. É necessário que o livro do autor apareça nos jornais de grande circulação. A editora tem papel fundamental na hora de enviar release e manter contato com os colunistas das áreas culturais dos grupos de comunicação.
O jornal Gazeta do Sul, com circulação diária e mais de 80 mil leitores do Vale do Rio Pardo(RS), é parceiro desta editora, divulgando sempre que possível nossos autores e livros.
Hoje saiu nota do livro "Contos que Ninguém Conta" do autor David Nobrega no caderno cultural.

Site do autor: http://www.davidnobrega.com.br

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O jornal Gazeta do Sul, pode ser lido de forma online. AQUI

28 de setembro de 2010

Como adquirir o livro "Contos que Ninguém Conta"?

Dados do livro:

Autor: David Nobrega
Tamanho: 14cm X 21 cm
Número de Páginas: 158
Categoria: Contos
ISBN: 978-85-62442-13-1
Preço: R$ 29,00 com frete incluído para os estados: RS, SC, PR e SP. Demais Estados consultar a Editora.

Compre pelo paypal em nossa loja virtual ou encomende pelo e-mail contato@editoranovitas.com.br


==> Acompanhe em nosso site os próximos lançamentos!
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16 de setembro de 2010

O Livro "Contos que Ninguém Conta" já pode ser adquirido

O livro "Contos que Ninguém Conta" do autor, David Nobrega, já pode ser adquirido pelo e-mail contato@editoranovitas.com.br

Dados do livro:

Título: Contos que Ninguém Conta
Autor: David Nobrega
ISBN: 978-85-62442-13-1
Número de Páginas: 158
Preço: R$ 29,00 com frete incluso para os Estados: RS, SC, PR e SP. Demais Estados, consultar frete com a editora.

A orelha do livro foi escrita por Ana Mello:
"David Nobrega é editor da Novitas em parceria com a Letícia, sua esposa. Além disso, é cronista, contista, poeta, fotógrafo, ilustrador e webdesing. Não sei se cozinha bem, mas sei que aprecia uma boa taça de um vinho enquanto espera aquele prato especial que a Letícia prepara com os ingredientes solicitados do mercado. Com as palavras, no entanto ele ótimo e o "Contos que ninguém conta" traz sua especialidade com todo o requinte.
Podemos saborear traços de humor,tristeza, ódio, amor e tudo mais que a vida nos oferece com temperos únicos do autor que mantém sua personalidade em todos os enredos por mais distintos que sejam. Sou apaixonada por contos e estou sempre acompanhada de Poe, Mia Couto, Machado de Assis, Horácio Quiroga e tantos outros, mas posso dizer com certeza que David passa longe de imitá-los. Escreve bem, é cativante na sua narrativa mantendo sua individualidade.
Em cada conto lido destaquei no mínimo uma frase que assim como uma pitada de pimenta ou outro tempero aromático ou agridoce marcou a narrativa, fisgou meu olhar
crítico e me fez reler ou voltar mais tarde já adiante no livro para conferir novamente aquele sabor. Sabor de boa leitura. Cito algumas, a título de degustação só para apurar o apetite de um novo leitor ou para
atiçar os que já o conhecem para mais uma leitura. " Clique para continuar a
ler


A Crítica Literária foi feita por Andrea Barros
Um livro de contos, para ser bom, deve contar com uma boa narrativa, bons
personagens e boas histórias. Caso essa mistura não aconteça ele, com certeza,
estará fadado ao esquecimento. Pois são justamente esses três elementos que são
encontrados no livro Contos que ninguém conta de David Nóbrega. Em seu livro, o
autor consegue fazer com o que leitor tenha muitas sensações no decorrer da
leitura. Raiva, angústia, nojo, dor, sofrimento, amor, alegria e felicidade.
Todos esses sentimentos estão ali, nas palavras de David.
Em Tardias reflexões, o leitor encontrará uma história cuja narrativa é um soco no
estômago. A transformação (e degradação) pela qual passa a personagem é muito
bem construída e os elementos que compõem o conjunto são perfeitos. Com uma
outra tônica, Nóbrega toma a loucura como ponto de partida para Amizades. Aqui,
o texto revela o contraste de classes sociais e como a mente humana pode ser
pega de surpresa por seus pensamentos.
O poder de escrever leva ao receptor a mensagem codificada, isto é, o autor coloca no texto uma carga que, a sua maneira, poderá remeter a determinado sentimento. Contudo, quando a mensagem é revelada por outrem se transforma em algo totalmente diverso. É o caso do conto Lobo em que o narrador, em primeira pessoa, relata ações rotineiras de sua vida. Porém, para quem lê a história pode passar algo repugnante. Com isso, David atinge em cheio seu objetivo. Revelar sensações é uma das maiores metas de um autor. "Clique para continuar a ler








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31 de agosto de 2010

Resenha de "Contos que ninguém conta", por Andrea Lucia Barros

Um livro de contos, para ser bom, deve contar com uma boa narrativa, bons personagens e boas histórias. Caso essa mistura não aconteça ele, com certeza, estará fadado ao esquecimento. Pois são justamente esses três elementos que são encontrados no livro Contos que ninguém conta de David Nóbrega. Em seu livro, o autor consegue fazer com o que leitor tenha muitas sensações no decorrer da leitura. Raiva, angústia, nojo, dor, sofrimento, amor, alegria e felicidade. Todos esses sentimentos estão ali, nas palavras de David.


Em Tardias reflexões, o leitor encontrará uma história cuja narrativa é um soco no estômago. A transformação (e degradação) pela qual passa a personagem é muito bem construída e os elementos que compõem o conjunto são perfeitos. Com uma outra tônica, Nóbrega toma a loucura como ponto de partida para Amizades. Aqui, o texto revela o contraste de classes sociais e como a mente humana pode ser pega de surpresa por seus pensamentos.


O poder de escrever leva ao receptor a mensagem codificada, isto é, o autor coloca no texto uma carga que, a sua maneira, poderá remeter a determinado sentimento. Contudo, quando a mensagem é revelada por outrem se transforma em algo totalmente diverso. É o caso do conto Lobo em que o narrador, em primeira pessoa, relata ações rotineiras de sua vida. Porém, para quem lê a história pode passar algo repugnante. Com isso, David atinge em cheio seu objetivo. Revelar sensações é uma das maiores metas de um autor.


Na mesma prateleira de Tardias reflexões pode-se colocar Doutor. Sublime! A ambição e arrogância estão juntas nesse conto. É claro que tudo vai depender do ponto de vista do leitor, mas esse deve ser considerado o melhor conto do livro. A história é encorpada e muito bem amarrada. Trata-se de um texto em que o ápice, na verdade, não está no meio dele, mas, sim, no todo. Desde o início o leitor é cativado pela simplicidade do texto e da narrativa. Mas é melhor não falar muito porque ele realmente merece a leitura.


Já Deus e o Diabo revela lados interessantes do ser humano e do mundo atual. Um diálogo aberto e franco entre os dois personagens que dão título ao conto se desenrola em um bar. Um pobre ser comum é pego para testemunhar o bate-papo. É bastante divertido. Para um autor, uma das coisas mais importantes é conseguir amarrar um texto. Isso significa conseguir conduzir a história sem que haja um erro qualquer. É exatamente isso que David faz em Subumano. A história, que parece despretensiosa, se revela mais complexa do que se imagina. O final é um dos mais interessantes do livro.


O livro além de abordar temas variados é interessante pela narrativa ardida de Nóbrega. Ele não poupa palavras para descrever cada lugar e personagem. Em sua obra os elementos que compõem a narrativa são tão bem articulados que é fácil ler um conto atrás do outro sem perceber que, aos poucos, o livro vai terminando. Uma bela leitura para um leitor que deve estar cansado de procurar algo diferente nas estantes das livrarias.

Visite o site do autor: www.davidnobrega.com.br


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26 de julho de 2010

Deus e o Diabo - By David Nobrega


Conto que faz parte do próximo livro do autor David Nobrega. Para visualizar em tela cheia, |clique aqui|.

Em formato texto, aos que não estão conseguindo acesso:

Deus e o Diabo

Estava em meu botequim costumeiro, tomando minha cerveja gelada e olhando a vida passar pelas portas corrediças e enferrujadas do estabelecimento. Um vai-e-vem de gente nessas horas aqui no Centro, é coisa normal. Todos apressados para chegar em suas casas, cumprindo a rotina escravizante de cada dia. O sonho do banho quente, do chinelo largo sobre a meia furada, a comida requentada, a roupa de mendigo chique que tantos de nós desfilamos entre quatro paredes.

De vez em quando um conhecido atravessa a porta e me cumprimenta. Um entre tantos habitués do lugar. Passam por mim com um aceno de cabeça, isso quando não esticam as mãos suadas e encardidas de trabalho realizado. Uma intimidade intrometida.

Conforme a noite cai o movimento diminui e os passos apressados tornam-se lentos, dando-me tempo maior para melhor avaliar os passantes. Uma gordinha com a barriga de fora e o medonho piercing no umbigo. Um quase corcunda catador de lata faz a festa no lixo do bar, sem saber que o João, dono do negócio, separa as latas para que ele possa colhê-las, fazer a venda e ali voltar para um trago, gastando o dinheiro arrecadado nas ruas. Estudantes fazendo fila no ponto de ônibus logo ali à frente, a caminho de alguma faculdade ou supletivo noturno, buscando nos lápis e cadernos uma vida melhor.

Lá pelas tantas cervejas um tipo desconhecido entrou no botequim. Chapéu preto lhe cobriam os olhos e um longo sobretudo, também preto, lhe tirava os contornos do corpo. Seus pés, logo notei, pareciam cascos de bode e quando passou por mim senti mesmo um certo cheiro de enxofre que dele se desprendia. Seguindo-o com o canto dos olhos, vi que caminhou até os fundos do bar, onde estão as mesas de bilhar, olhou ao redor e, parecendo não encontrar ali o alguém que buscava, voltou para a frente, onde eu estava sentado. Bateu com as mãos finas e compridas no balcão, pediu um conhaque e puxou a cadeira de frente à minha, perguntando se me importava que ele me fizesse companhia até quando um seu parceiro chegasse, como combinado. Respondi que não, com um aceno de ombros.

-- Pois então, Maurício. Como anda a vida? -- Me perguntou, como se me conhecesse.

-- Vou bem, vou bem... E o senhor... Como devo chamá-lo?

Afastando um tanto o chapéu preto pra o topo da cabeça, me deixando ver seus olhos vermelhos como brasa, respondeu:

-- Ora, Maurício! Achei que tivesses me reconhecido. Sou o Diabo! Vês? -- Erguendo mais um pouco o chapéu pude ver duas pequenas saliências à guisa de chifres, logo acima da linha de seus cabelos oleosos. -- É verdade que nunca antes nos encontramos pessoalmente, mas achei que pudesses ter notado...

-- Desculpe -- lhe respondi, com certa vergonha -- Até notei certas coisas estranhas em sua pessoa, mas não acredito em diabos, demônios e afins. Deves estar me confundido com algum seu conhecido. Do circo talvez?

-- Circo? Mas que disparate! Sou o Senhor das Trevas e da Escuridão! Deverias me temer! -- O aumento do cheiro de enxofre no ambiente estava ficando insuportável. Pareceu-me que meu interlocutor tivesse algum problema intestinal. Dizem que todo mundo tem um ponto sensível ao stress, e o desse camarada com certeza eram os intestinos...

-- Ok, ok. Não vamos nos desentender, não é? Afinal, acabamos de nos conhecer e começamos com o pé errado. Se queres que te chame de Diabo, Cão, Lúcifer ou seja lá quem quiseres, é só dizer. Mas por favor, controle esses gases. Os clientes vão acabar achando que os ovos coloridos que o João serve estão estragados.

-- Por Mim! Não entendes, ó imbecil, que tenho o poder do Mal a meu favor e que basta um estalar de dedos para que te mande ao Inferno! Mas deixa estar, que esta noite tenho mais coisas a me preocupar do que um reles descrente.-- Dito assim, virou de um só gole o conhaque que restava no copo e esticando o dedo imenso para o alto pediu ao João para que o servisse de mais uma talagada.

De meu lado, estava filosofando botequinescamente, tentando imaginar como poderia uma pessoa ficar louca de pedra ao ponto de se achar o próprio demo. Como os médicos dizem que é melhor nunca contrariar, tentei mais uma vez entabular conversa com o estranho:

-- Pois então, Diabo. Que o traz a esta parte do mundo em uma noite tão bonita como esta? Por acaso alguma alma fugidia, talvez?

-- Não -- disse-me ele -- Marquei com Deus aqui hoje. Seu mundo está indo tão mal que precisamos encontrar uma solução. O ser humano tem conseguido fazer mais maldades do que eu mesmo. Ou nós damos um basta nisso, eliminando vocês todos e começando de novo, ou daqui a pouco vocês explodem o Planeta. E aí, onde é que nós faríamos a guerra santa entre o Bem e o Mal, não é verdade?

-- Ahhhh, entendi... Deus vem aqui hoje também? -- perguntei, fingindo perplexidade.

-- Vem, vem sim. Deus adora um bilhar. E por falar no Diabo...quero dizer, em Deus, olha ele ali, estacionando. Metido a besta...

Uma reluzente Ferrari vermelha tentava enfiar-se em uma vaga que nem mesmo um fusca caberia. Até acreditei que fosse Deus quem estava ao volante, pois realmente tendo em vista o quanto o ser humano estava no caminho errado, o motorista teria que ser muito ruim. Depois de várias manobras e alguns empurrões nos carros que ali estavam, amassando frente e traseira da pobre Ferrari, Deus -- ou seja lá o nome que o recém chegado assumisse -- desligou o motor, descendo com um sorriso satisfeito, como se tivesse feito um bom trabalho. Viu o Diabo sentado em minha mesa e acenou, saltando a água que corria pelo meio-fio e vindo em nossa direção. Deus, o onipresente, onisciente, oni qualquer coisa, chega em seu carrão, um cara presença, vestido como John Travolta em "Embalos de Sábado a Noite".

-- Bel, quanto tempo! Olá Maurício, prazer em te ver. Você tem sido uma boa pessoa, mas por favor, pare de bolinar dona Carol. Muito feio isso.

"Esses caras devem ser de alguma agência do Governo. espiões. Como a gente lê nos jornais, vez por outra. E a dona Carol é viúva, porra. Que mal tem em dar umazinha de vez em quando?" -- Assim pensava eu enquanto via os dois se cumprimentarem como velhos amigos. Deveriam realmente se conhecer há muito tempo ...

-- Certo, aqui estamos. Vamos discutir nossas questões enquanto jogamos um bilharzinho valendo a bebida? -- Perguntou Deus ao Diabo -- Maurício, se não te importares, gostaria que tu te mantivesses conosco. É sempre bom ter testemunhas ao se fazer tratos com o Diabo -- disse, com um sorriso maroto.

-- Ele não pode testemunhar por ti, God. É um descrente. Ele não crê em Mim. Duvido que creia em Ti também.

Eu, na realidade, estava começando a me divertir com a situação. Dois malucos, aparentemente com dinheiro para bancar uma cervejas a mais. Eu podia aguentar isso, logo:

-- Vejam bem: em minha situação de ateu -- desculpa ai Deus, mas não devo mentir, não é? --, eu sou a melhor testemunha que vocês poderiam achar. Sou isento e imparcial. Fico no meu canto, só ouvindo e bebericando uma gelada, enquanto vocês discutem os segredos do Universo, amém?

Rindo, os dois concordaram comigo. Pedi para ir na frente, pois o fedor de enxofre do Diabo, somado ao excesso de perfume barato que Deus usava estava me dando enjoos. Abri um cadeira de metal que o João costumava deixar ali, puxei uma caixa de bebidas vazia a guisa de mesa e pedi uma cerveja. Deus aproveitou e pediu uma água tônica -- agora eu sabia porque Deus era tido como mal-humorado: ele não bebia -- e o Diabo mais um conhaque, onde pediu umas gotas de limão, para evitar a gripe, segundo ele.

Colocaram uma ficha, arrumaram as bolas e no par ou ímpar, a saída foi do Diabo:

-- Escuta God, antes de mais nada é bom que tu saibas que essas desgraças todas que tu tens visto por aí, como sequestros, acidentes de trânsito e o teu time perder não são culpa minha. Eles -- o "eles" com um sinal indicativo para mim, quieto em meu canto -- é que realmente perderam a cabeça.

Deus -- ou God, como o chamava o Diabo -- olhou para mim com o cenho fechado e depois para o Diabo -- o Bel, de Belzebu. Baixou a cabeça, pegou o giz e esfregou a ponta do taco, por um longo tempo. Encaçapou quatro bolas antes de dizer alguma coisa:

-- Olha Bel, tu sabes o quanto discordo de teus métodos. E também sabes do quanto prezo a vida deles (nova olhadinha de canto para meu lado). Não te esqueças o quanto trabalhei para que houvesse condições para que eles existissem. Não sei se exterminá-los, como tu dissestes por e-mail, resolveria o problema.

-- "Quanto trabalhei"? Tu os fizeste em apenas um dia, lembra? "E no sétimo, descansou...". Tu tens descansado desde aqueles tempo e a não ser por um Noé aqui ou um Abraão ali, a única coisa que fazes é desempenhar o papel de inalcançável!

E matando duas bolas, com uma ótima tacada de canto e outra de meio de mesa, o Diabo continuou:

-- Vês a posição em que me encontro? Tudo em sido culpa minha. Guerras, tudo bem. Assumo. Mas a concorrência com a maldade dessas tuas crias está me deixando maluco.

Dei uma gargalhada. Não pude mesmo me conter. Os dois olharam para mim com seriedade e com o indicador sobre os lábios, Deus pediu que me calasse.

-- Tu tens todo o direito de reclamar. Dou-te quase toda razão da qual sou capaz, Bel. -- Mais duas bolas para Deus. Ótimo efeito na branca, a la Rui Chapéu. -- Mas sinto, extermínio está fora de questão. Eu dei a eles o livre arbítrio e se eles quiserem se matar, o problema é deles e as almas serão tuas. E não negocio isso.

Mais uma vez o enxofre impregnou o ambiente. O Diabo deveria estar suando. Perguntei se ele não gostaria de um refrigerante, mas recebi um "Pros Infernos!" em resposta.

Depois da quarta partida, todas ganhas por Deus, a discussão começou a me enfadar. Já estava bêbado além do razoável e se eu chegasse em casa um pouquinho pior com certeza a Selma me poria para dormir na sala. Eu detesto dormir na sala, assim me levantei e estava já dizendo boa noite, quando com apenas um movimento mínimo de sua poderosa mão, Deus me fez sentar novamente. Lutei para conseguir me botar de pé, mas algo invisível e extremamente forte me aprisionava. Tentei falar, mas minha voz não saia. Olhei em torno para pedir ajuda, mas todos os que eu podia ver de onde estava, pareciam como que feitos de pedra, parados.

Olhei para os dois jogadores e suas formas pareciam estar mudando. Deus parecia mais luminoso, enquanto o Diabo, a este ponto tão bêbado quanto eu, parecia absorver a luz do ambiente.

Pelo que entendi houve um impasse: como Deus não queria o mal para nós, os humanos, e o Diabo queria nosso fim as forças se igualaram e o embate equilibrou-se. Começaram, cada um de seu lado, a aumentar suas forças para vencer ao oponente, fazendo assim que nossa realidade, nosso "agora" se alterasse. Como eu sei disso? Não tenho a mínima ideia. Esses pensamentos surgiam e me tomavam de assalto, incontidos pelos filtros de minhas crenças -- ou falta delas. Era possível sentir uma grande força correndo o ambiente, uma vibração que me deixava os cabelos em pé.

De repente surgiu uma criança, carregando um ramo de flores. Atrás dela, muitos belos seres, vestidos de um branco luminoso, encheram o pequeno corredor do boteco.

Deus e o Diabo notaram a mesma coisa que eu, pois embora me mantivessem preso à cadeira e os outros humanos continuassem paralisados, voltaram às suas formas 'normais'.

O Diabo, erguendo as sobrancelhas, olhou para Deus que, soltando uma gargalhada, fez sinal com a mão para que abrissem caminho a alguém que se mantinha atrás da estranha multidão. Postados lado a lado na estreiteza de espaço, formaram passagem a uma belíssima mulher, também de branco e em cujas mãos carregava uma bolo ricamente enfeitado, que se aproximou. Sorrindo sempre, colocou a encomenda que trazia sobre a mesa de bilhar. Em um passe de mágica acendeu várias velas que eu tenho certeza não estavam ali. Ao mesmo tempo, todos cantavam "Parabéns a você...".

O Diabo, olhos marejados, atirou-se aos braços de Deus:

-- Seus, seus... Seus safados! Achei que vocês tinham se esquecido! Que surpresa adorável...

Deus, sacudindo o Diabo pelos ombros, disse:

-- Meu irmão, não é sempre que se faz 6.000 anos. Acredita mesmo que não iria me lembrar! Eu sou onisciente, seu tonto.

A festa durou muito tempo. Não sei precisar exatamente quanto, pois me parece que a medida de dias, meses e anos às gentes do Céu e do Inferno não tem sentido e durante toda a festa, "nosso" tempo parou. Perguntei depois a outros que ali estavam naquele dia, mas ninguém tem lembrança de nada, como se nada tivesse ocorrido. Eu mesmo não tenho lembranças de como terminou tudo aquilo. Só me lembro de ter acordado no sofá de casa, com a Selma me falando horrores das más companhias com quem tenho andado, como aquele bêbado charmoso que tinha uma Ferrari toda amassada.

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10 de junho de 2010

Me ama - By David Nobrega

Me ama

*David Nobrega


Não te quero, desejo
Um abuso no qual me deleito
Um péssimo conceito
Alienado de sentimentos
Aliado aos sofrimentos
Te quero, não quero
O sabor do teu frescor
Podre quando vem a dor
Vai e não volta
Se me deixa, desespero
Se parte, me judia
Me sangra, me corta, me cospe
Alucina enquanto definha
Me come enquanto te tenho
Te tenho, enquanto me devora.
Rompe o selo que me aprisiona
Em teu peito, caverna escura
Diz aquilo que não quero
Me chama de teu
Me ama.
* Autor e Editora da Novitas. Perfil completo AQUI


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31 de maio de 2010

Quatro Cavaleiros

A bordo passageiros simplórios,
Donos das verdades, mentirosos contumazes,
Ladrões de casaca, defensores de que humanidade?

Entrem e se acomodem, por favor
Partiremos em breve para logo ali
Perto de todos, longe do povo
Todos a bordo!

Acomodados? Felizes?
Tomem mais um uísque!
O carrinho com doçuras logo passará.
Assim que a viagem começar.

Tudo certo, estamos nos trilhos
Preparamos manjares deliciosos
Comissária, tranque as portas
Nosso baile logo começará.

O destino é de todos desconhecido
Menos a mim, assim me tenham como amigo
Aqui apareci somente para livrar o mundo
Limpa-lo de vocês, pobres imundos.

A Conquista é quem vos fala
A Guerra é quem lhes conduz
A Fome poderia ser vosso nome
A Morte é vossa aprendiz

No apocalipse de ilusões medíocres
Pensam que estão a salvo?
Serão eternamente dominados
Por todos os sete grandes pecados

E aqui se inicia a punição
Por todos os crimes já cometidos
Queimaremos neste vagão
O poder desmedido
O dinheiro indevido
O saber comprometido
O ego puído.

Que assim seja...



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3 de maio de 2010

Fita Azul - By David Nobrega

Fita Azul

* David Nobrega


Aquela vala rasa varrida pela enxurrada
Abriga um jovem corpo, um novo morto
A pele branca, pela lama emporcalhada
Nada mais de vida a causar desconforto

Louros cabelos emplastrados ao rosto
servem de moldura ao quadro terrível
Olhar inexistente e já decomposto
Órbitas vazias miram ao mundo invisível

A enxurrada varreu a fina camada de argila
Expostos ao sol agora o sofrimento e agonia
Quem seria a pobre menina, que naquele ermo jazia?

Nomes e datas relegadas ao esquecimento
Ninguém saberá a cor de seu riso ou lamento
No barro resta apenas a fita azul de ornamento.


* Autor e Editor da Novitas. Perfil completo AQUI

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25 de abril de 2010

Intestinal

Dentro de mim vejo o mundo
Gritos mudos de muitos mortos
Disputando a atenção
De vivos poucos que, loucos
Não lhe dão mais valor.

Dentro mim travam-se batalhas
Bem e mal em embate eterno
A insistente boca canalha
Pregando sermões de luta
Prometendo apenas mais dor.

Dentro de mim criam-se continentes
Separados por mares de desafetos
Palavras ao vento atiradas e traídas
Por histórias de um passado violento
E voa assim o nosso tempo.

Dentro de mim gritam hostes de anjos derrubados
Ao mundo vil e mesquinho entregues
Não são caídos, mas sim usurpados
Crentes da promessa vã feita à matilha
Hoje roem a si mesmos, bacanal de agonias

Dentro de mim prendo as mentiras
Dentro de mim travo batalho
Dentro de mim crio terras
Dentro de mim venço
E só depois de dominar instintos
Animalescos desejos com sangue tintos
É que me entrego a ti, vida
Para que só conheças de mim
Meu melhor momento.
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8 de fevereiro de 2010

Tema para debate: O mal do bem - querer - By David Nobrega

O mal do bem - querer

*David Nobrega

Um dia você acorda e percebe que o mundo pelo qual você tem trabalhado simplesmente não funciona como deveria. Suas ambições são vazias, seus amigos são frívolos, suas necessidades, bem... a maioria é supérflua e não agrega nada a você como humano. Na realidade, quando você teve esse insight, notou que sua vida é um simples contar números; números da conta corrente, quantidade de pessoas que o cercam, valores insignificantes que eram claramente imprescindíveis até o tal despertar.

A decisão óbvia seria o desapego material que embora teoricamente bonito, é insustentável na realidade. Ninguém lhe bancará as contas de telefone, de energia, a alimentação, o transporte, porque você teve uma pseudo-revelação metafísica. O ideal então seria como?

Em princípio, nossa vida pode ser caracterizada como um conjunto de ações e relações que podem nos tornar melhores ou piores, com o passar dos anos. Mas nada diz que é impossível voê aliar o útil ao fútil, sobrevivendo ao trabalho e vivenciando atitudes suas ou de outros que procurem um futuro melhor.

Ser um sonhador não exclui de você as responsabilidades do dia a dia. Ser um sonhador nada mais é que propor e tentar fazer com que ocorram fatos que sejam relevantes à sociedade de um modo geral. Como o tal sucesso profissional pode ser uma armadilha escravagista, pode também ser levado como simplesmente é: trabalho, meio de sustento, meio para alcançar um fim. Melhor ser bem-remunerado e ter dinheiro sobrando que ser utópico e sentir-se plenamente realizado, mesmo morando embaixo da ponte. existem aqueles que conseguem se realizar enquanto enchem os bolsos? Claro que sim. Uma minoria absoluta.

Pois vejam bem: Existe uma tendência, principalmente daqueles que como eu chegam aos 40 e sentem-se mal utilizados, de abandonar tudo para tentar fazer um algo mais, que deixe nossa marca na história, mesmo que essa história seja circunstancial e restrita a uns tantos membros.

O caminho mais utilizado para tentar esse "xixi no poste" passa pela cultura. Seja por meio de ONG´s ou por esforço próprio, muitos mudam suas vidas, tentando mudar outras vidas.

Como o meio cultural é o que mais importa para mim, posso lhes dizer de peito aberto que não é fácil. Os passos errados e desmedidos, pelo tal desapego que muitas vezes cega a realidade, mascara projetos ruins em tábuas de salvação...totalmente podres. Usar o próprio dinheiro duramente conquistado, sem um lastro posterior, pode ser fatal. Seus sonhos geralmente não são os sonhos dos outros, pelo menos não daqueles que realmente lhe interessam.

Um texto amargo como este é para que você, que acordou para a sociedade, não termine sendo um dos que necessitam do amparo desta. A sociedade gosta de pessoas realizadas/realizadoras e não daqueles que dependem dela.

Quer ser culturalmente importante? Use seu bom-senso e faça as coisas acontecerem, ao mesmo tempo que sua vida continue nos trilhos. Apóie projetos, vá ao cinema e ao teatro, distribua os livros que não lerá mais, sente em um barzinho e ouça um novo músico que depende do couvert para viver. E, claro, trabalhe!

O movimento hippie e suas comunidades não vingou. As comunas socialistas jamais funcionaram. A igualdade é para poucos, cada um dentro de uma determinada ordem na escala social. Falham essas alternativas de vida porque não levam em conta um conceito básico: não existe o doce sem o amargo, o feio sem o bonito, o bems em o mal. Acostumem-se ao fato que o querer, antes de ser, passa por uma fase imensa e dispendiosa de projeto, onde você tem que, necessariamente, minimizar custos e aparar erros de concepção. Quanto menor o erro, menor o custo (psicológico e monetário) que você terá.

Vamos fazer e acontecer? Vamos, mas com pés no chão e cabeça na nuvens.


* Autor e Editor da Novitas. Perfil completo AQUI
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15 de janeiro de 2010

Resposta

Resposta

* David Nobrega

Pois te digo que olhas e não vês.
Estava de pé, admirando
Teus passos fluídos entre passantes
Por quê não me olhas?


És meu tudo dando graça
Doando teu sol às minhas sombras
Por quê duvidas?
Lembro de ti, por isso sou esquecido.


Fico,
Relento e frio que a alma devora
Te busco
(Tua presença)
Te grito
(Tua lembrança)
Vivemos eternamente a qualquer momento.


Não espere que eu parta
Sinto vício de tua aura
Sangro tuas saudades
Sofro tuas belas maldades.


Deixo em ti meus desejos
Minha pele, meu beijo
Para teu conforto e prazer
Não queria ir, me enviaste
Sonho eterno, sem ti.


Te sigo com o olhar
Não me vês, rarefeito e incorpóreo
Não há dor, nem rancor
Saudade sim.
Por quê não sorri para mim?

* Editor e autor da Novitas. Perfil completo AQUI
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25 de novembro de 2009

Vergonha - By David Nobrega

Vergonha

* David Nobrega


E que ressoem os tambores
Deste picadeiro descoberto
Um país podre, corrupto e desonesto
Que, ora vejam só!
Ainda quer ser levado a sério.
Onde anda o tal povo varonil, bravo, guerreiro?
Onde anda a Justiça, cega mas de fino olfato?
Ou ainda por onde andará
Aquele que todas respostas daria?
Decrépitos, desonestos e calhordas
Nada melhor descreve a esta corja
Insensível ao povo que os elegeu
Inebriada pelo poder absurdos
alva pelo cabresto do tal vil metal.
Safados, arrogantes e canalhas
Que somente a um nome atende: PORCOS!
Ofensa ao pobre animal que
Dos restos de seus parentes prostituídos se alimenta
Injustamente nomeado, pois este na lama
Somente se refresca
Enquanto aqueles submergem e se deliciam,
Com suas falcatruas descaradas e desavergonhadas.
Seduzidos pela alienação social
Corrompidos pela mania nacional
"Uma caixinha resolve..."
Responsáveis somos por aqueles que não sabem
Que dentro de cada um de nós existe uma mente
Frenética e pensante.
Não pulsa por não ser dado à emoção
Não palpita por não saber de solidão.
Não dói por esquecer a quem fez sofrer.
Mas pesa. E um dia esses nobres vagabundos
Tomadores desse certo país
Quem sabe?
Sofrerão as conseqüências seus atos
Uma cela fria talvez?
Uma morte lenta e dolorosamente purificadora?
Estragando a vontade daqueles que
Em dia com sua sanidade
Optam por um fim triste e merecido
Declaro que somente um final os aguarda
Um paraíso fiscal com polpuda mesada.
Paga por você, claro...

*Autor e Editor da Novitas. Publicou o livro Uns & Outros e prepara seu livro de poesias para o próximo ano.


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5 de novembro de 2009

Dicionário - By David Nobrega

Dicionário

David Nobrega

Assim autentica-se o amor
beijo bandido e boêmio
cáustico, compreensivo e castrador
dado em determinado dia
efêmero, etéreo, esbaforido.
Foste forte feita
galhofa galante de gaia,
habilmente humilde, habita
ilha ínfima, íntima.
Jogas em jogos jocosos
lânguidos, latejantes lábios,
mastigam minha memória
norteiam novas necessidades,
ostentados por oníricos orgasmos.
Posso pedir-te, posso?
Quero querer o quanto
Ruminar roucos repentes
Soprar solos às serpentes.
Tanto tento tocar...
Uivo único e ululante
Voluptuosas vagas volteiam.
Xadrez de xamãs xilogravado.
Zagor em zeloso zigurate.
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23 de setembro de 2009

A Morte - David Nobrega

 Andar pelo centro podre de uma cidade grande é ao mesmo tempo causa de duas sensações completamente antagônicas: prazer e nojo.

Sou parte dessa podridão desde quando nasci de mãe puta e pai desconhecido. Minhas recordações de infância são basicamente o fedor: de loção barata dos homens a quem minha mãe atendia, o bolor do armário úmido que me servia de quarto quando havia "visitas" em nosso minúsculo apartamento e a fome, tão comum quanto inevitável, roubando odores de comidas vizinhas, alheias a nossos pratos vazios.

Cresci sem a educação dita formal. Aprendi a ler com o porteiro do prédio, homem doente que só se mantinha naquela função por trocar salário por moradia. Como comia, onde arranjava alimento, era para mim um mistério, como ainda é até hoje. Claro que já morreu há muito, mas ao me apresentar à arte de ler e escrever, sua imagem ficou como que gravada a ferro e fogo em minhas memórias. Outros cheiros de minha infância veem dele: couro velho dos livros, pele velha e murcha de seu corpo.

Hoje em dia não moro mais por estas bandas da cidade. Sou bem de vida, como costumava-se dizer em meus tempos de menino. Arrumaria facilmente uma vaga na finada pensão da Dona Lola, onde um cartaz escrito à mão dizia “Vagas para Senhores de Fino Trato”.

Venci sozinho. Melhor dizendo venci por meu esforço em compreender Dante, Rui Barbosa, Sócrates, Rosseau, Taunay, e tantos outros a quem tive a honra e prazer em ler. Culpa do raquítico porteiro, que dizia que um homem tem que primeiro entender o Universo para poder entender a própria vida.

Aos onze anos de idade minha mãe me enviou para trabalhar no cortume que ainda existe ali pelo lado do Arroio. Fedor... Mais fedor. O trabalho sempre em meio aos caldos de animais mortos, quente, abafado, perdia a respiração, bolhas em minhas mãos, e o fedor onipresente. Por ali castigaram meu corpo por longos três anos, fazendo de minha magreza aparente fortaleza. Consegui sair dali inacreditavelmente forte. Não gripava, não tossia, nada me doía. Nem o coração mais sentia, brutalizado pelos maus tratos e pelos abusos. Certa vez, outros rapazolas bem maiores que eu – e bem mais fortes – juntaram-se para me fazer entender quem era minha mãe. Eu deveria sentir-me puta como ela. Me surraram, me comeram, me cuspiram. Depois de satisfeitas todos as suas taras e malvadezas, jogaram uma nota de Real sobre meu corpo que sangrava. Nunca mais voltei para ali ou para qualquer lugar por onde houvesse sequer a mínima relação com minha mãe. Por culpa dela, primeiro em me fazer nascer e depois por me fazer parte de seu mundo imundo. E parti.

Esta tarde que caminho pelo Centro é a primeira vez, desde os fatos que lhes contei, que apareço por aqui. E só vim porquê fui chamado pela polícia para reconhecer o corpo de uma vadia que foi encontrado já meio decomposto e deformado. Não havia sinais de violência. Parece que a causa da morte foi velhice mesmo. Mas o laudo definitivo somente depois da autópsia. Se o senhor puder vir fazer o reconhecimento...

Fui, para provar a mim e aos outros que sou superior a tudo isso.

Cheguei ao endereço que me haviam dado e subi os dois lances da escada rangente até o andar correto. Na porta do apartamento a policial me ofereceu uma máscara para cobrir o nariz, que recusei. Eu queria sentir aquele cheiro de morte. Eu ansiava por poder ver e apalpar aquele corpo asqueroso, pobre, podre daquela que me pariu.

O quarto não era o mesmo, mas a disposição das poucas coisas que ela adquirira durante sua vida indecente, sim. Lá estava o armário úmido, hoje sem portas, onde tantas vezes me havia abrigado. A bacia de lata, com água suja, ainda fazia parte da decoração. Um crucifixo já sem cores – o mesmo? – sobre a cabeceira da cama, onde jazia um corpo disforme e fétido. Por um momento me senti de volta ao cortume e todas as memórias daquele lugar odioso.

“Pelo estado do corpo e pelo tempo que não a vejo, não posso lhes dizer nada” – disse-lhes eu – “mas pelos objetos pessoais acredito que realmente seja a pessoa que vocês pensam”. E saí do apartamento, para o ar pouco mais fresco daquele corredor imundo.

A mesma policial veio ter comigo, me estendendo um maço de cartas nunca enviada, todas com meu endereço. “Nós o achamos por meio disto. Talvez o senhor as queira ler, padre”.

Tomei aquele maço de papel de suas mãos e saí daquele antro quase correndo. E não olhei nem mais uma vez para trás.

 Em casa, tarde da noite, sentado de frente à lareira e com um bom vinho por companhia, mais uma vez passagens de meu passado desfilaram por minha frente. Minha fuga sem rumo, minhas noites frias sem abrigo, minha visão – embora eu saiba que agora que fora um delírio – ao ver a Igreja de portas abertas, como que me chamando. O padre Ambrósio, que me acolhera e me mandara ao Seminário.

Meus olhos pousaram mais uma vez sobre o maço de cartas. Com as pontas dos dedos o alcancei, imaginando o que estaria escrito ali. Palavras de perdão, pedidos de ajuda, xingamentos por não ajudá-la ou atendê-la todas as vezes que me havia chamado?

E sem pensar duas vezes joguei tudo ao fogo, que consumiu o último resquício de uma vida que não tive.

(Conto do novo livro do Autor a ser lançado pela Novitas em breve)



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8 de setembro de 2009

Uns e Outros - conto de David Nobrega

Uns e Outros

*David Nobrega

Naquele tempo tão distante na memória, havia Uns e Outros.
Uns eram fortes e capazes, Outros nem tanto; muito pelo contrário, eram fracos.
Uns faziam de tudo para que todos, mesmo que Outros estivessem limpos e alimentados, pois necessitavam de massa de manobra.
Outros, acreditando receber de Uns tudo daquilo que precisavam nunca se manifestavam.
Uns eram inteligentes, mesmo quando essa inteligência tinha a finalidade de se utilizar da preguiça mental e da fraqueza de Outros.
Outros sabiam que se fossem contrários a Uns, perderiam as mordomias conquistadas tão... facilmente.
Por essa época apareceram por lá Aqueles que não eram nem Uns nem Outros, sendo, portanto, alheios ao estabelecido subentendido.
Aqueles não gostavam de Uns, por os acharem por demasiado arrogantes e donos das verdades, mesmo tratando-se de déspotas esclarecidos. Mas piores, pensavam Aqueles, eram Outros que se faziam de mortos para receberem suas esmolas.
Não demorou muito para que ocorresse um levante de Uns contra Aqueles. Coragem não faltava a Uns nem a Aqueles, mas quem decidiu a batalha foram Outros: chamaram ao Fulano, que nada tinha a ver com a história e lhe proclamaram Rei, em troca de uma nova bolsa para seus pares.


* David Nobrega é autor e Editor da Novitas. Esse conto faz parte e deu título ao livro Uns & Outros.

<== Perfil Completo AQUI ==>



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24 de agosto de 2009

Sapatinhos de lã - Conto de autoria de David Nobrega

Todos os dias ela era vista sentada na mesma mesa do restaurante da empresa onde eu trabalhava aquela época. Todos os dias, durante seu intervalo de almoço, de uma hora como todos nós, ela comia rapidamente para poder fazer o que aparentemente era o que mais gostava na vida: tricotar pares e mais pares de sapatinhos de lã.Nunca conversei diretamente com ela, mas acompanhei, a minha maneira, sua gravidez. A cada refeição, um comprimido para não enjoar. Depois, comida leve e rápida. E finalmente, seus sapatinhos de lã.
Por meio de outros, fiquei sabendo sua história, nem triste nem feliz. Somente uma história vulgar como de tantas mães por este país.
Segundo me contaram, o pai da criança era um antigo namorado, que após saber que seria pai sumiu de sua vida. Por sorte a mãe a acolhera e agora viviam a duas em uma casa simples mas confortável no bairro operário da cidade.
Somente uma vez, depois da insistência de companheiros de mesa tão intrigados quanto eu, tive coragem de me aproximar e mesmo assim a única coisa que consegui foi ter a certeza de sua fixação pelos tais sapatinhos. Na sacola, em meio a agulhas e novelos pude contar nada mais nada menos que uns 10 pares em cores diferentes. Claro que essa é uma contagem superficial, pois o tempo em que permaneci parado a seu lado, vendo-a trabalhar, nem ao menos levantou ela a cabeça para ver o que se passava ao redor, absorta que estava em pontos incompreensíveis para mim. Sendo assim, não pude confirmar quantidades ou os motivos que a levaram a ser tão prestimosa com uma única peça do enxoval do bebe.
Lá por março do ano seguinte eu saí de férias e quando voltei ela não estava lá. Pelo volume de seu ventre antes de minha saída, com certeza ela havia já parido seu tão esperado filho.
Quem me inteirou das novidades foi a Odete, secretária do chefe.
Estávamos fazendo uma pausa para o café, quando ela entra chorando, perguntando se alguém já saberia das novidades. Como ninguém se manifestou, ela nos disse que a moça dos sapatinhos de lã havia tido um filho, que nascera grande e forte. Perguntou se algum de nós havia notado que ela sempre tomava um remédio antes das refeições. Eu disse que sim.Olhando para mim, ela arregalou os olhos e perguntou se eu conhecia um remédio que davam para as mães, para enjoo e que se chamava talidomida. Respondi que já ouvira falar, mas parecia que esse remédio havia sido proibido."Proibido sim, mas se acha em boticas ainda"- disse ela. "Ela comprava e tomava, pois diziam que era seguro. O seu filhinho nasceu sem as perninhas, por causa desses desgraçados! E agora? Quem paga por isso?"
Nunca mais a vimos na fábrica. Nem ao menos soubemos de nada de sua vida. Mas mesmo hoje, vendo minha esposa tricotando para nossos netos, me vem a cabeça essa pobre moça, que tanto empenho tinha em produzir peças de enxoval que nunca poderiam ser usadas por seu filho, vítima da imprudência de poucos que a tantos afetaram.

* David Nóbrega é autor e Editor dessa Editora. Esse conto faz parte de seu livro Uns & Outros.



18 de julho de 2009

UTI - Conto de autoria de David Nobrega

UTI

*David Nobrega


Se me encontro aqui hoje, é por persistência. Minha vontade de viver é maior que essa profusão de tubos que me mantém vivo.
Há exatos 6 anos, sofri um gravíssimo acidente, enquanto me encaminhava para o trabalho. Estava chovendo e eu, em minha imprudência valente dos motoristas com algum tempo de habilitação, dirigia a toda velocidade, desviando de poças e buracos de minha cidade. Não estava atrasado nem nada, mas dirigir de maneira agressiva tornou-se um hábito, independente do compromisso ou do leito pelo qual trafegasse.
Sabe quando você usa óculos e não nota a sujeira se acumulando nas lentes? Parece que o mundo vai perdendo a cor pouco a pouco, chega a pensar que necessita de uma nova consulta com seu oftalmologista, quando na verdade basta uma boa lavada em seus óculos para que tudo retorne a normalidade. Aconteceu algo parecido na hora do acidente: embaçou o vidro, eu me esforçava para enxergar, não vi o caminhão parado na esquina que entrei derrapando pelo excesso de velocidade e deu no que deu. Até hoje, passados tantos anos, me lembro dos números da licença, mal-escritas em vermelho contra o fundo verde da carroceria de madeira.
Quando acordei estava saindo de uma cirurgia, onde repararam um pulmão perfurado, extraíram meu baço, costuraram alguns pontos em meus intestinos e remendaram alguns tantos ossos partidos, principalmente em meu rosto, braços e pernas. Pela dor que sentia não poderia precisar em quantos lugares eu sofrera algum tipo de injúria. Apaguei de novo e só acordei meses depois...
Minha primeira recordação aqui da UTI foi a de um enfermeiro me virando para trocar os lençóis. Não sei se vocês sabem, mas os colchões que se usam nos hospitais são revestidos com uma capa plástica, o que faz com que nós, enfermos, transpiremos como uma bica sobre o lençol. É desconfortável mas limpo. Ao menos trocam as roupas de cama uma vez ao dia.
Minha esposa e meus filhos têm vindo me visitar, ela mais que eles. No começo tinham que barrar minhas visitas, mas com o tempo foram rareando, sobrando apenas a presença diária de minha esposa. Muitos já me condenaram. Estou morto para o mundo e esqueceram de me enterrar. Ouvi isso da boca de um de meus melhores “amigos”, em sua última visita.
É interessante quando pensam que você não ouve o que dizem. Quase uma sensação vouyerística, se me permitem o termo. Dizem uns aos outros coisas que jamais diriam na minha frente. Como quando um meu conhecido, cliente de longa data, aproveitou o sofrer de minha esposa e, colocando-lhe a mão sobre o ombro, quis consolá-la de uma maneira não muito galante. Dois sonoros tapas dados por ela foram o suficiente para que ele se afastasse, não antes de jurar que ela ainda seria sua. Que ainda ela o procuraria. Esse também nunca mais apareceu.
Ao lado de minha cama existe outra cama e enfileiradas até o outro lado da imensa sala que é esta UTI, outras mais. Quando me viram de uma lado para o outro para que meu corpo não fique em feridas pelo contato do maldito colchão eu consigo vê-las, iguais em sua forma, diferentes em seus conteúdos. Meu divertimento consiste hoje em descobrir quem seriam essas pessoas, assim como eu enfileirados a espera de suas mortes.
Na cama mais próxima de mim, à minha esquerda, um paciente asiático, já idoso, teve um derrame. AVC – Acidente Vascular Cerebral. E H, de Hemorrágico. Sinto que se um dia conseguir sair daqui posso clinicar como médico por aí, pois tenho aprendido muito nesta minha universidade forçada. Esse paciente, meu vizinho, deve ter lá seus 65 anos, pouco mais, pouco menos. Seus visitantes são sempre engravatados, aparentados a ele de alguma maneira. Senhora chorosa não há, pelo que suponho seja ele viúvo. Logo mais torno a lhes contar algo que sei deste meu vizinho.
Pelo que consigo ver de onde me encontro, deitado sobre meu lado esquerdo, com o respirador também a minha esquerda, enriquecendo meu sangue com ar puro, existem ao todo mais oito pacientes.
Numerando-os de 1 a 9, sendo eu o nono, a primeira cama e o ocupante do quinto leito sofrem de uma tal SARA. Não sei o que significaria isso, mas coisa boa não é, já que vi outros pacientes anteriores com esse mal morrerem em questão de dias.
Ocupando a segunda posição de nosso hit-parade, temos um infartado que acabaram de operar e colocar um marca-passo. Coisa sem graça que nem vale o sacrifício dos comentários.
No terceiro leito, sempre “de lá para cá”, um outro acidentado. Esse teve menos sorte que eu. Perdeu duas pernas.
O número 4 é interessante e não o perco de vista; é um assaltante perigoso, mas que tem convênio médico, baleado em uma perseguição policial. Eu fiz das tripas coração para poder pagar meu convênio, caríssimo. Esse sem-vergonha, bandido, tem o mesmo convênio que o meu. Garanto que aquele meu carro roubado há alguns anos financiou também o convênio de algum desses safados. Coisas da vida. Fico rezando para que algum dia seus comparsas invadam a UTI para tentar resgatá-lo. Ao menos um pouco de emoção em minha vida...
Número 6. Uma mulher. Teve, segundo um dos médicos comentou com outro, pré-eclampsia. Algo sobre a pressão subir demais na hora do parto ou algo assim. Coitada...nem vai conhecer o filho. Está já sem sinais cerebrais e vão desligar seus aparelhos logo, logo.
Apresentados meus colegas, me permitam retornar a meu colega aqui ao lado, que apesar de inconsciente não precisa dessa parafernália toda que tenho para mim para poder viver. O bom velhinho, pelo que entendi, não tem nada de bom. Mafioso, segundo ouvi comentarem. Trazia contrabando da China e revendia aos R$ 1,99 por aí. Coisa que, se entendi direito, além de acabar com os comércios locais ainda fazia com que estes transformassem suas lojas em pontos de venda de seus produtos piratas. O comércio em si era uma grande fachada que encobria, entre outras coisas, tráfico de escravos, jóias e drogas. Ou seja, o perfeito capitalista selvagem.
Corre a boca pequena, entre murmúrios que escuto da boca da enfermagem, que sua doença não tinha nada a ver com o verdadeiro motivo dele estar ali. Dizem eles que alguém da família havia tentado envenená-lo e o filho mais velho estava pagando para manter o pai naquele local, pois temia que se o levasse para casa, tentando fazer com que ali se restabelecesse, tentassem mais uma vez matá-lo. Se pedirem minha opinião, de quem, está a anos presenciando de tudo que por aqui acontece, diria que quem quer dar cabo do velho é o sobrinho com cabelo tingido.
Poucos antes deste texto ser escrito, monges budistas vieram orar pelo semi-defunto, tentando encaminhar sua alma de volta para seu corpo. Ou não, sabe-se lá se o chinês loiro não está metido nisso, querendo de vez despachar a alma do tio.
Começaram com um cântico lento, uma campainha soando ao fundo. Querendo ou não, você acaba fixado nos sons por ele emitidos. A cantilena vai ficando cada vez mais rápida, como se uma onda estivesse se formando nas profundezas do oceano. Cada vez mais os sons, embora não passem de murmúrios quase inaudíveis, vão se tornando uma espécie de zumbido grosso, como um zangão.. Não sei lhes explicar...seria como se você pudesse “apalpar”, “tocar” , na realidade um “sentir-se tocado” pelos sons.
Não sei mais nada quanto ao velho ali ao lado, mas em mim o ritual teve seu efeito. O que dizem de uma tal luz brilhando no final do túnel é quase que uma verdade total. Quando dei por mim estava de pé, olhando para meu corpo morto, embalado por uma música suave e, acreditem, banhado pelo sol da manhã, que jorrava sobre mim vinda diretamente de algum lugar sobre minha cabeça. Nada mudou, mas ao mesmo tempo me sinto livre. Se alguém conseguir psicografar isto, por favor, avise minha mulher do seguro que está em meu cofre. Despeçam-se de meus filhos. E diga àquele safado que cantou minha mulher ao lado de meu leito, que quando ele sentir um arrepio na espinha, sou eu ali, cuidando para que ele sinta medo pelo resto da vida.

*Nascido em São Paulo, capital, em 28 de Novembro de 1966.
Escreve poesias, contos e fotografa - não necessariamente nessa ordem.
Durante o ano de 2008, editou a capa do livro Ensaios Amadores de autoria de sua esposa, a poetisa gaúcha Letícia Coelho. Editou também a capa e orelha do livro D'Acolá, de autoria do escritor baiano Marcos Pontes, pela editora Os Viralata. Ainda em 2008, esteve presente na exposição Porto Alegre: imagem e poesia, com fotos e poesias de sua autoria, em Julho e em Setembro, participou do Projeto Zine Lapa, no Sesc Lapa, São Paulo, com fotos de sua autoria.
Já em Janeiro de 2009, lançou seu "Uns & Outros", livro de contos e desencontros.

Participou e organizou a I Coletânea Scriptus - Um Balaio de idéias.
É um dos fundadores e editores da Editora Novitas, todas as capas de livros lançados pela Editora Novitas são de sua autoria.

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